Vivendo a filosofia política

Por Renato Janine Roibeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O Brasil tem vivido um curso notável de filosofia política, em especial nas últimas décadas. As muitas crises de nossa vida pública e as poucas soluções e sucessos têm sido um enorme confronto entre prática, teoria e doutrina. Bem que penso em dar um curso de filosofia política à luz desses dilemas, dramas e tragédias.

 

Começo por uma contradição crucial em nossa cultura (ou ausência de cultura) política. Quem nos escuta pensa que somos muito empenhados em valores éticos. Qualquer cidadão critica os políticos por sua falta de ética. Mas muitos repetem, na vida privada, o mesmo descaso pela ética que criticam nos políticos. No período da alta inflação, um dia tomei um táxi; o motorista atacou a corrupção do governo; falava muito bem; mas, chegando ao destino, como havia um cálculo a fazer, me cobrou mais do que era correto. Isso não é raro.

 

Aqui é grande a dificuldade de relacionar a teoria e a prática, o valor ético elogiado e a vida como ela é. Muitos exaltam a doutrina, mas na hora de agir não hesitam em violá-la. Blindam olhar, coração, razão para nem notarem que infringem os princípios que proclamam alto e bom som. A grande maioria, porém, sabe muito bem que está agindo mal. Meu amigo Flavio Gikovate dizia: é raro uma ação safada ser inconsciente; isso é desculpa; o safado, na vida amorosa ou na pública, sabe que o é. A maior parte sabe que mente. Talvez por isso mesmo, sabendo-se desonestos, muitos reagem com rancor quando os pegam em flagrante.

Repensando a crise política

 

Prefiro uma conduta menos bela, mas transparente, a discursos nobres e mentirosos. O fato é que, com razão ou sem, muitos brasileiros sentem que é impossível respeitar todas as leis. Neste caso, a lição de Rousseau deveria ser meditada: melhor ter poucas leis, que sejam cumpridas, do que muitas, só que desrespeitadas. Um bom exercício, para quem quer ser ético, consiste em ver o que é viável e o que não é, na pregação moral rotineira. Salvo em condições excepcionais, não se pode exigir das pessoas que façam o impossível. (A exceção é na guerra). Não é melhor ter uma ética mais modesta, do que enunciar valores que não serão seguidos?

 

Quem critica os políticos será melhor do que eles? Na verdade, quando alguém acusa o político de corrupto, provavelmente o que está reclamando é da queda em seu padrão de vida. Simples assim. Só que não consegue enunciar sua irritação com a diminuição de sua renda, então traveste a queixa em termos supostamente nobres. Agora, se um governo melhorar o nível de vida da sociedade, passará ileso por qualquer escândalo.

 

Política segundo Hannah Arendt

 

O que fazer? Não se vence a corrupção, ou a falta de ética, com a hipocrisia e a mentira. Para sermos honestos no que fazemos, precisamos primeiro ser honestos em relação a nós mesmos. Parar com esse jogo nós contra eles, em que nós (ou eu) somos decentes e os outros, não. Outro dia uma pessoa de muitos preconceitos ofendeu não sei quem no Facebook. Olhei o perfil dela. Ela se dizia “uma pessoa de bem”. Sua fala mostrava que não era.

 

Está na hora do Brasil cair na real. Ou melhor: de subir para a real. De enxergar sua realidade.

 

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Adaptado do texto “Vivendo a filosofia política”

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br