Virtual e real, sem separação

Por Lucas Vasques
Entrevista com Renato Bittencourt

Foto: 123RF

O livro Amor Líquido, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, serviu como ponto de partida para a realização do evento 4m0r: uma exposição sobre relacionar-se com o virtual. Vários painéis de discussão foram promovidos, com o intuito de estimular reflexões a respeito de questionamentos do tipo: Será possível encontrar um par no Tinder? Só é namoro quando altera o status do Facebook? E sexo com gente, pela webcam ou com uma boneca robô é a mesma coisa? O que resta de humano nas relações virtuais?

A ideia surgiu por uma necessidade de buscar onde as diferentes formas de relacionar-se convergem, encontram-se, e também onde se rompem seus pontos de divergência. A exposição propôs ao espectador uma viagem pelo mundo dos relacionamentos virtuais, com foco nas relações de caráter romântico.

Um dos palestrantes foi o filósofo Renato Nunes Bittencourt, doutor em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGF-UFRJ), professor da FACC-UFRJ, pesquisador do projeto JURISDRAMA e colaborador da revista Filosofia.

A partir do tema Bauman e o Amor, Bittencourt mostrou o conceito crucial de amor líquido tal como foi delineado por Bauman. Também mapeou as influências que o sociólogo polonês recebeu em suas análises sobre a dinâmica do amor, além de apresentar a ideia de que o amor líquido não é um mero fenômeno afetivo da contemporaneidade, mas que existiria em qualquer circunstância na qual a potência do amor se transforma em prática fetichista.

A exposição convidou a uma viagem pelo mundo dos relacionamentos virtuais, com foco nas relações de caráter romântico. Performances, instalações e curtas foram apresentados simultaneamente em espaços diferentes. O objetivo foi levar aos participantes a oportunidade de reflexão, principalmente sobre o espaço que se ocupa dentro das relações.

Os convidados para as palestras, além de Renato Bittencourt, foram Flavia Silva, psicóloga e sexóloga, em debate sobre Sexo e Tecnologia; Yzadora Monteiro (Rio Invisível) e Paula Duarte (Projeto Alegria Interna Bruta), debatendo o Amor na Era do Ódio Digital; e ainda houve a apresentação do curta Amores Líquidos, de Thays Berbe, produzido pelo Núcleo de Imagem e Palavra do Sesc Belenzinho/ SP; e a vídeo-performance de SMS, do Grupo de Interação MilaSan (GIM). O evento foi promovido pela Incubadora Artística da Serragem – Núcleo de Investigação Cênica, e teve como curadora Melina Souza.

  • Filosofia: 4m0r: uma exposição sobre relacionar-se com o virtual teve como ponto de partida o livro Amor Líquido, do sociólogo Zygmunt Bauman. Como você avalia o avanço tecnológico e de penetração na sociedade do mundo virtual com a liquidez dos relacionamentos, ou seja, com a superficialidade dessas relações?

Bittencourt: A tecnologia, por um lado, auxiliou na dinâmica da comunicação, dissolvendo as fronteiras fronteiras espaço temporais, mas por outro gerou uma sensação de onipotência nos sujeitos mais desorientados existencialmente, motivando a exposição desenfreada da intimidade e dos discursos sem qualquer tipo de reflexão prévia mais apurada. Pessoas que não encontravam veículos para expressarem suas ideias agora o conseguem na rede social, e como grande parte dessa massa humana é imbuída de disposições reativas, o resultado dessa nova situação é comumente assolador e bárbaro. No âmbito mais específico das relações amorosas, como a internet gera essa aproximação relativa entre os sujeitos, sem que promova as suas complexidades mais intensas em decorrência da assepsia da falta de contato até segunda ordem, se torna muito mais facilitado o processo de descarte de quem não agrada ou não serve mais aos nossos interesses.

  • Filosofia: Alguns questionamentos importantes e pertinentes foram levantados durante o evento, entre eles, onde está o amor entre as teias da rede e o que resta de humano nas relações virtuais, se é que resta alguma coisa. Você acredita que qualquer tipo de relação, seja on-line ou off-line, será sempre e, sobretudo, humana? Como responde a essas indagações?

Bittencourt: Talvez o amor genuíno, em sua complexidade e contradição, inexista na ideologia da virtualização das relações humanas, sobretudo quando esta se pauta na fuga do encontro como forma de se evitar os dissabores do fracasso de uma relação. Pessoas que se amam efetivamente, quando fazem uso da rede, é apenas como um paliativo momentâneo para a impossibilidade do encontro concreto. Quem teme amar e lidar com os seus resultados contingentes preferirá certamente se manter sob a proteção da tela. Contudo, não vejo como desumanização tal disposição, mas antes uma visão decadente da vida humana, uma existência empobrecida axiologicamente, uma vida desvitalizada, pois pelo fato de temer o conflito, o estranhamento, a incerteza, prefere colonizar a pessoa do outro lado como mera imagem. A tendência natural é se demonizar os vícios humanos, mas esse procedimento apenas mascara a falibilidade do sujeito em nome de um pretenso estado de perfeição que inexiste. O mais conveniente é que se reconheça esse fenômeno da alienação existencial, do empobrecimento da vivência amorosa, do medo de amar, como aspectos mais fracos da condição humana, e que, compreendendo suas motivações, se desenvolvam meios singulares para sua transformação em uma gestão pessoal mais potente, alegre.

  • Filosofia: O que leva uma pessoa a procurar um par em aplicativos como Tinder? É possível estabelecer um relacionamento pleno e sadio?

Bittencourt: Considero que se configura como um processo de coisificação do ser humano, pois este se converte em peça de carne especial em um cardápio a ser escolhido e consumido conforme a conveniência e gosto do usuário. Se porventura é sadio não posso legislar, mas certamente pleno não é, pois envolve apenas um dos aspectos da dinâmica relacional, a fruição do prazer desprovido de culpa e responsabilidade.

  • Filosofia: Há convergências entre essas diferentes formas de se relacionar (virtual e presencial)? Quais são?

Bittencourt: Existem, pois uma relação nascida do virtual pode se atualizar e se concretizar. O virtual é real, apenas não se manifestou na experiência sensível. A comunicação virtual não nasce apenas do projeto de se dar vazão aos desejos sexuais imediatos. Do anseio por comunicação, em ser acolhido em sua narrativa, muitas amizades duradouras podem surgir, talvez se transformando em uma experiência amorosa.

  • Filosofia: Durante as discussões no tópico Sexo e Tecnologia, foram feitas reflexões sobre a possibilidade de o virtual ser uma ponte para o real. Ambos não seriam separados, não havendo exclusividade no conceito de amor líquido para o ambiente virtual, mas, sim, uma espécie de simbiose típica de sociedades globalizadas. Qual sua avaliação dessa questão?

Bittencourt: O virtual é uma das faces do real, não há separação entre ambos, não obstante a confusão do senso comum. O amor líquido, a fragilidade das relações humanas pela degradação da experiência ética do acolhimento do outro como pessoa
dotada de valores, de anseios, de expectativas afetivas, se expressa tanto na rede como na imanência concreta das relações, e se encontra na contemporaneidade uma expressão mais ampla de ocorrências, não é porque as tecnologias criaram isso, antes porque os sujeitos usam as tecnologias para efetivar tais disposições. O grande problema axiológico não está nos dispositivos tecnológicos, mas na forma como os usamos, ou seja, quais as motivações existenciais que se encontram subjacentes na criação de aplicativos e programas destinados a estimular a interatividade interpessoal. O que urge é que mudemos as valorações estabelecidas, por isso não é possível separarmos o amor da ética e da ontologia.

  • Filosofia: Fale resumidamente sobre o que abordou em sua palestra Bauman e o Amor.

Bittencourt: Apresentei o conceito crucial de amor líquido tal como muito bem delineado por Zygmunt Bauman. Fiz um mapeamento das influências que Bauman recebeu em suas análises sobre a dinâmica do amor (em especial Erich Fromm e Levinas), apresentei a ideia de que o amor líquido não seria um mero fenômeno afetivo da contemporaneidade, mas que existiria em qualquer circunstância na qual a potência do amor se transforma em prática fetichista, reificadora e alienadora dos sujeitos envolvidos na relação, que o amor líquido é supressor da alteridade do sujeito convertido em objeto de consumo. Disse ainda que não devemos acreditar que o amor no passado era mais autêntico do que hoje. Muitas vezes interesses econômicos determinaram e ainda determinam a condução da relação amorosa. Não é possível existir amor pleno em uma organização social que coloque a mulher em condição de inferioridade em relação ao homem.

 

*Imagem: Kelly Yumi Sagava

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 116

 

 

 

 

 

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