Viola caipira e indústria cultural

A partir da cultura popular como essência, é possível discorrer sobre sua posse como meio de representação para uma cultura de mercado. Para tanto, se faz necessário adentrar ao universo do historiador e musicólogo Mário de Andrade, do filósofo Theodor Adorno e também ao conceito de cultura de Nietzsche

Por Sidnei de Oliveira* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras


Após uma breve elucidação a respeito da cultura caipira, é possível discutir sobre a utilização da viola no final do século XX e início do XXI. Acredito que a partir deste período, a representação desta cultura adere por completo à indústria cultural, principalmente por intermédio da mídia radiofônica e televisiva. Este movimento é reconhecido por alguns violeiros e apreciadores da cultura caipira como um “espaço conquistado”, a viola começa a ganhar notoriedade, acontecimento do qual não discordo, mas quanto à cultura estar na TV e no rádio, isto é possível mostrar que não passa de uma representação, assim como acontece em teatros, editais de fomento, eventos “culturais” em grandes centros urbanos, entre outras tentativas de afirmar a verdadeira cultura que não se faz presente.

 

“Mas o que aparece nestes concursos não é o samba do morro, não é coisa nativa nem muito menos instintiva. Trata-se unicamente de uma submúsica, carne para alimento de rádios e discos, elementos de namoro e interesse comercial, com que fábricas, empresas e cantores se sustentam, atucanando a sensualidade fácil de um público em via de transe. Se é certo que, vez por outra, mesmo nesta submúsica, ocasionalmente ou por conservação de maior pureza inesperada, aparecem coisas lindas e tecnicamente notáveis, noventa por cento desta produção é chata, plagiária, falsa como as canções americanas de cinema, os tangos argentinos ou fadinhos portugas de importação”.

 

Mário de Andrade (1893-1945) na citação supracitada se refere ao concurso de músicas para o carnaval, realizado no final da década de 1930. É possível observar que, para Mário, os sambas que concorriam não representavam os compositores do morro, ou seja, faltava o valor folclórico incontestável, do qual, podiam ser comparados aos verdadeiros maracatus em algumas nações do Recife. Se verificarmos a análise realizada por Mário, e seguirmos a mesma reflexão diante da música caipira, veremos que o referido caminho também foi a escolha de alguns violeiros, pois noventa por cento destes nem sequer vieram da roça, não são homens do campo e muito menos caipiras. Neste caso, basta trocar samba por música caipira, e morro por roça ou campo nas palavras de Mário – “Assim é a tristeza atual do samba. É possível que, dentro de poucos anos, mude de caráter, porque toda esta música urbana, mesmo de gente do morro, é eminentemente instável e se transforma fácil, como as coisas que não têm assento numa tradição necessária”.

 

Retratar a sua vida no samba ou na música caipira, com a excelência de um sambista do morro ou de um caipira da roça, só é possível quando se canta o que se vive, mesmo que seja uma história inventada, a poesia vinculada à música não será distante do seu cotidiano. Muitas das violas utilizadas pelos tocadores e cantadores que trabalhavam no campo eram construídas por eles mesmos. As mesmas mãos que seguravam uma enxada, um arado, durante horas do seu dia, em momentos de descanso ou à noite em suas casas talhavam uma madeira para transformá-la em um instrumento. Um homem sem estudo, mas que possuía conhecimentos sobre plantação, tempos de colheita e medidas de terras a seu modo.

 

 

 

Ferrete descreve a origem dos caipiras que iniciaram seus trabalhos como artistas. Desta forma, mesmo que esses caipiras tenham deixado sua terra natal, é possível afirmar que ninguém deixa de ser caipira desde que tenha sido caipira em suas origens. Porém, se este deslocamento manteve a cultura caipira, isso pode ser muito bem contestado, pois na música rural, do campo, ou até mesmo na música caipira se quisermos nomeá-la, não é a língua, mas sim a função com a sociedade local que a caracteriza como cultura. Abaixo, conseguimos compreender o que Mário de Andrade quis apresentar sobre a arte rural, o que seria ou não interessado para determinada raça. “Pois toda arte socialmente primitiva que nem a nossa é arte social, tribal, religiosa, comemorativa. É arte de circunstância. É interessada. Toda arte exclusivamente artística e desinteressada não tem cabimento numa fase primitiva, fase de construção. É intrinsicamente individualista. E os efeitos do individualismo artístico no geral são destrutivos […] Pode-se dizer que o populário musical brasileiro é desconhecido até de nós mesmos. Vivemos afirmando que é riquíssimo e bonito. Está certo. Só que me parece mais rico e bonito do que a gente imagina. E, sobretudo, mais complexo […] A música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da nossa raça até agora”.

 

Nos centros urbanos e mais desenvolvidos, as informações são mais acessíveis, e o produto importado acaba ganhando raízes. Diferentemente do meio rural, onde mantém suas origens, o homem da capital “aceita” com maior facilidade o que lhe é imposto via mídia. O espaço da viola na TV e no rádio, considerado por alguns ainda nos dias de hoje, acabou por acentuar ainda mais a ausência de uma essência da desconhecida arte que Mário de Andrade na citação anterior esclareceu.

 

A partir de agora, é possível “dialogar” com Theodor Adorno (1903-1969), pois, como já dito, uma música que tinha sentido apenas para a sociedade que a cultuava, vivenciava e cantava junto a sua cultura nas festividades, quando apresentada nas grandes cidades não passa de uma música fragmentada. As composições atuais são utilizadas para propagandas e aberturas de programas em emissoras de rádio e TV, principalmente quando a letra permite uma associação àquilo que será apresentado.

 

Diferentemente da concepção de Adorno, em que há uma superioridade da música séria em relação à música popular, penso que a música como posição cultural para uma sociedade não existe diferença alguma, pois o sentido da música neste caso, isto é, a maneira com que ela se faz música para o povo, é o que demonstra sua grandeza artística, mesmo que sua arte esteja apenas no inconsciente do “artista” e da comunidade. Porém, quanto à fragmentação das músicas utilizadas na cultura de mercado, é plausível encontrar padrões que são mais aceitos pelo ouvinte e telespectador da mídia televisiva e cinematográfica, podendo ser ­classificada como aponta Adorno – música popular: a estandardização.

 

As reflexões sobre a música no pensamento crítico de Theodor Adorno englobam tanto a chamada música “séria” quanto o fenômeno de produção em massa da indústria cultural

 

Por fim, depois de apresentar a cultura caipira e o violeiro que faz parte desta, onde nunca houve uma necessidade de afirmação da própria cultura, já que isso acontecia intuitivamente, é possível notar a grande discrepância com os violeiros urbanos, pois utilizam suas violas para afirmarem uma cultura de que nunca fizeram parte. A viola caipira, antes de ser um instrumento de música caipira, é um instrumento universal, logo, pode ser muito bem empregada em vários gêneros musicais e não apenas no tradicional.

 

Devemos ter ciência da diferença entre viver a cultura e representá-la. Não se cria nem se faz cultura, muito menos se resgata ou se afirma determinada cultura com editais de fomento. A essência cultural não pode ser aprovada ou reprovada por projetos difundidos no decorrer do ano, aceitar que se faça cultura nestes moldes é aceitar a banalização da cultura e da Arte. Uma questão que passa despercebida por vários destes violeiros, assim como os apreciadores desta “cultura”, foi a evolução da viola caipira como instrumento, seja no âmbito composicional ou sonoro, e este avanço deu-se pelo distanciamento e desligamento de suas origens, sendo tocada por músicos.

 

A viola do século XIX é um instrumento que transcendeu a sua história, assim como homens que escreveram suas obras para além do seu tempo: “Machado de Assis foi produto de um tempo herdeiro de outro tempo, o mesmo ocorrendo com seu extremo Guimarães Rosa, ao qual se pode atribuir como antecedente Mário de Andrade. Picasso não constituiu um fenômeno isolado de revolucionamento artístico, tampouco se pode atribuir-lhe qualquer pecado por haver afrontado a tradição pictórica. Pode-se impedir o progresso estético? Richard Wagner não começou sua revolução musical à mercê de um estalo divino. Beethoven veio antes dele, e antes de Beethoven muitos outros facilitaram a entrada deste. As mudanças, embora muitos não notem, são geralmente imperceptíveis quando se opõem a ocorrer. E só chegam a alarmar os desprevenidos quando já atingem o nível mais alto de sua maré”.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 103

Adaptado do texto “A Viola Caipira como estandarte”

*Sidnei de Oliveira é compositor e instrumentista. Doutorando em Filosofia pela Unicamp – Bolsista Fapesp e Bepe – Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior pela Universidade de Leipzig – Alemanha.