O que é a verdade?

De que forma Heidegger fala sobre a verdade de modo diverso à tradição filosófica

Verdade

E o pai voltou-se à criança: Filho, conta o que aconteceu! Diga a verdade para o seu pai?! De certo, inexiste nesse raciocínio linguístico comum uma premissa maior que sirva de base para o exercício de adequação entre juízos. E, sendo assim, onde estará a verdade que o pai procura? Ela poderia se ligar a priori a algo?

Será ela um fato, um acontecimento, alguma coisa que o filho tenha feito ou falado? O presente texto parte de uma situação ordinária do cotidiano das pessoas para apresentar um entendimento filosófico do que seja a verdade, a despeito da concepção da veritas est adaequantio rei et intellectus. O texto se filia à fala de Heidegger que, por sua vez, espelha-se em Parmênides, pré-socrático introdutor da rotunda verdade.

Heidegger fala sobre a verdade de modo diverso à tradição filosófica de cunho platônica-aristotélica-cartesiana. Em seu conceito mais tradicional, essa é uma ideia de concordância com um juízo ou proposição e o respectivo objeto da análise. Essa noção como adequação é o utilizado quando se diz, por exemplo, que a terra é redonda.

Credita-se verdade à proposição que reflete o juízo. Parte-se de uma ideia pré-concebida e adequa-se a ideia (ser redonda, como a bola, a esfera) ao objeto da análise (planeta terra). Heidegger vai dizer que essa ‘verdade tradicional’, desde Platão, não equivale a um entendimento originário sobre o tema, pois não permite conhecer e iluminar a realidade.

Em sentido diverso, conforme explanou Paiva (1998), a verdade originária não está no juízo, está no desocultamento, no desvelamento, na revelação, no ser-descoberto e no ser-descobridor. Assim, verdade será o que se revelou daquele ente, do Dasein ou de uma coisa. E, nesse sentido, primeiramente cabe ao homem colher o desvelar das coisas e dos demais, para daí, e em conjunto com seu prévio entendimento do mundo, das coisas e das pessoas, propor analiticamente a verdade sobre aquele ser.

Em Platão e na tradição, as ideias preconcebidas, ou seja, a preconcebida do mundo, das coisas e das pessoas têm maior peso que o desvelamento. A ideia, por ser principal, torna-se uma proposição verdadeira. (A terra é azul). A tradição moderna aguça o senso platônico e conduz o entendimento sobre a verdade ao patamar de certeza, posto que tudo é originário da racionalidade humana. A certeza coloca-se ao arbítrio de um sujeito, da experiência subjetiva individual.

Para Paiva (1998), a verdade fenomenológica tem caráter central na totalidade da obra de Heidegger. Ser e verdade são co-originários e “a busca da essência da verdade visa superar a particularização inautêntica da ideia de verdade: verdade de ordem econômica, técnica, política, cientifica, etc, e restituir-lhe o significado originário.” (PAIVA, 1998, p. 138).

Nesse sentido, segundo Paiva (1998), Heidegger vai superar a visão racional e reducionista do mundo que conduziu, desde Platão a Descartes, toda a compreensão do mundo e do ser humano a uma ideia pré-concebida (Platão) ou do tecnicismo (Decartes). Isso porque tais modelos metafísicos, por mais que enraizados por toda a cultura ocidental, não permitem que as coisas e pessoas se revelem como efetivamente são, posto que, para tudo e para todos, existe um
conceito prévio, uma ideia prévia (pré-posição) que guia o entendimento sobre aquilo que é um foco de análise.

Nós costumamos definir como verdadeiros os nossos juízos sobre as coisas e fatos da realidade, quando coincidem efetivamente com a situação. Um juízo é verdadeiro quando aquilo que pretende e diz se adéqua com a coisa sobre a qual se exprime. […] A verdade é, pois, no sentido corrente da palavra, a coincidência da coisa com o pensamento e do pensamento com a realidade. O verdadeiro, seja tratando-se de uma coisa ou de uma preposição, é aquilo que permite o acordo, que realiza o acordo. (PAIVA, 1998, p. 139).

A construção que se apresenta, no estudo de Heidegger, teria sua colocação mais originária. O filósofo regressa a Parmênides, introdutor da aletheia grega, para apresentar tal possibilidade.

Como se poderá aferir, mesmo que em breve explanação, essa verdade primeva se encerrará em um procedimento que busca descobrir, revelar algo. E, o que se descobrir, se revelar, será enunciado como a verdade daquilo. Aletheia, assim, será um fenômeno que veio à tona.

Para chegar ao seu desiderato, o presente texto trará algumas conceituações que permitirão ao leitor maior entendimento desse processo. Passar-se-á pelo fenômeno e fenomenologia, pelo logos, pela aletheia, pela compreensão.

Adaptado de Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131

Por Leonardo Galvani | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca