Valores éticos em crise

Se há crítica da ausência de conduta ética por parte de nossos governantes, todos deveríamos fazer uma análise mais ampla da carência ética nas outras dimensões sociais

Por Fábio Antonio Gabriel* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 


Rogério Luis da Rocha Seixas é professor a pós-graduação lato senso em Filosofia da Universidade de Barra Mansa (UBM). Doutor em Filosofia pelo PPGF/UFRJ, mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e bacharel em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Suas principais contribuições são nas áreas da Filosofia Política, da Ética, da Filosofia Contemporânea, da Filosofia da Educação e da Filosofia Brasileira afro-ameríndia. É pesquisador no Grupo Bildung do Instituto Federal do Paraná-IFPR (CNPq) e no Grupo de Filosofia Africana em Perspectiva da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) (FAPERJ).

 

Foto: Arquivo Pessoal

 

Nesta entrevista, Seixas afirma que a crise dos valores éticos não é algo recente. Mas é sentida principalmente quando estamos em meio aos efeitos de crises econômicas e políticas, que por sua vez influenciam nas relações humanas, pois tem-se a sensação de uma perda cada vez mais intensa de paradigmas éticos para as nossas condutas. Nos defrontamos, não necessariamente com uma “nadificação da ética”, mas experimentamos um “vácuo ético” que, paradoxalmente, apresenta um aspecto bastante positivo por aventar a necessidade de uma transformação e ampliação do campo de atuação da ética, forçando-a a efetivar uma revisão, inclusive de aspectos inéditos, tais como a responsabilidade para com as consequências de nossa práxis técnica para as gerações futuras e para com todo o fenômeno  da vida, proposta pela reflexão ética de Hans Jonas, por exemplo. Porém, deve haver uma reflexão, segundo Seixas, e partir do ponto de que não podemos contar com a efetividade de propostas éticas universais ou globais, como a do imperativo categórico de Immanuel Kant, ou mesmo de uma moral discursiva de Jurgen Habermas. As cosmovisões de mundo necessitam que sejam traçadas avaliações mais perspectivistas dos princípios éticos, esclarecendo que não se deve confundir este perspectivismo ético com relativismo moral.

 

 

FILOSOFIA • Poderia nos falar sobre as contribuições de Hannah Arendt e Michel Foucault para se pensar as questões éticas na atualidade?

SEIXAS • Sem dúvida alguma, Arendt e Foucault são essenciais para se pensar a atualidade e, mais especificamente, a conflituosa relação entre Filosofia e Política. Hannah Arendt testemunhou e refletiu sobre o evento do totalitarismo e a corrosão do sentido da política que abre espaço para a violência e eventual destruição da esfera pública. A filósofa alemã advertiu que, mesmo no interior das democracias liberais, as práticas e posturas totalitárias ainda se mantiveram presentes. Fato que não podemos deixar de negar em nossa realidade política. Michel Foucault, por sua vez, rejeitando a interpretação tradicional da Filosofia Política e Jurídica, desenvolveu uma reflexão referente ao que ele denomina de “relações de poder”, destacando as práticas, técnicas e estratégias entre práticas de liberdade e de poder. Destaco que a problematização da governamentalidade é atualíssima. Essa noção de governamentalidade determina uma forte ênfase no eixo político de como governar os outros, assim como para o eixo ético da arte de governar a si mesmo. Cada um ao seu modo, estes dois pensadores, nos permitem diagnosticar uma atualidade política convulsionada pelas crises nas democracias representativas, os extremismos e a ameaça cada vez mais intensa da perda de espaços de liberdade em nome de maiores e intensos aparatos de
segurança e controle.

 

 

FILOSOFIA • Poderia nos falar sobre a temática de seu doutorado cujo título foi: A questão do governo: qual a relação entre éthos crítico e éthos parrhesiástico no último Foucault. Quais são as principais ideias trabalhadas por você ao longo da sua tese?

SEIXAS • Em minha tese, a temática que norteou a pesquisa concentrou-se nas seguintes questões: qual a relação entre o éthos crítico com o éthos parrhesiástico? Qual a importância desta relação como expressão das práticas de liberdade e como formas de resistência, ao governamento abusivo? Estas questões fizeram-me perceber que há um sentido de ação política que passa pela recusa de como somos governados e a ultrapassar o que nos é determinado a ser, instituindo novas formas de subjetividade. Abordamos, de forma mais direta e incisiva, aspectos da sequência cronológica dos anos 1970 para o início da década de 1980 das reflexões de Foucault. Retomamos as suas teorizações envolvendo a articulação entre o sujeito, o poder e a verdade, com o objetivo de demonstrar a problematização da racionalidade política atual, a partir da análise sobre a governamentalidade e sua relação com o poder pastoral. Esta noção, segundo a nossa perspectiva na época da tese e assim permanece até o momento, determina tanto uma forte ênfase no eixo político de como governar os outros, quanto também para o que se pode denominar como o eixo ético da arte de governar a si mesmo. Nessa oportunidade, visei destacar como o que denominei de “práticas de liberdade”, tanto a atitude crítica, enquanto o exercício do éthos crítico enquanto contra conduta, como as práticas do cuidado de si conectadas à parrhesia, comuns à moral da Antiguidade grega e greco-romana que suscitam a noção de governo de si. Acentuamos a importância da parrhesia como essencial, enquanto prática de liberdade política, principalmente a partir da leitura da parrhesia cínica, com relação ao afrontamento ao poder político e aos regimes de verdade que sustentam suas práticas de governamento. Tal temática nos aparenta intensamente atual em nossa realidade política nacional e mundial.

 

Utopias buscam uma sociedade ideal, porém não perfeita

 

 

FILOSOFIA • Como você entende a atual crise ética que vivenciamos na política na sociedade em que estamos inseridos?

SEIXAS • Quanto à situação política atual, observamos um fato grave em nossas instituições: sua utilização por parte dos dois lados antagônicos, com o objetivo único manter o poder a todo o custo e tomá-lo a todo o custo. Um lado venceu, mas não é reconhecida como legítima a sua vitória. Sendo inclusive classificada como um golpe. Seja como for: golpe ou impeachment, nesta situação, o quadro de conflito e instabilidade só agrava a crise que nos rodeia, sendo muito mais política e ética do que necessariamente econômica, embora esteja inserida neste contexto. Claro que os discursos e clichês contra a corrupção, representaram o arsenal utilizado pelos que se opunham ao governo e ao mesmo tempo, o governo também se colocou como defensor da honestidade e transparência, dizendo-se assim como vítima de uma conspiração. E a relação ética e política nesta situação? Infelizmente não podemos negar os discursos vazios que apenas incitam os antagonistas.

 

 

FILOSOFIA • Poderia nos falar sobre a Bioética e suas contribuições para se pensar os limites éticos que a pesquisa científica deve respeitar?

SEIXAS • Com a Bioética busca-se propor uma ética aplicada que possa responder de forma rápida, eficiente e urgente as questões inéditas e concretas, inseridas pelo enorme avanço do potencial tecnocientífico humano. Outro ponto importante a ser destacado é que a Bioética, enquanto surge e se configura como um paradigma moral de caráter inédito, também reintroduz os princípios éticos da tradição para assim repensá-los e redirecioná-los, para que possam ser aplicados da forma mais satisfatória possível aos novos problemas. Partindo desta condição, não devemos encarar o paradigma da Bioética como uma nova ética, mas como um ramo recente da ética aplicada que utiliza os princípios da “velha ética”. Também merece destaque o caráter multi-disciplinar e interdisciplinar da reflexão bioética, agregando diferentes campos de conhecimento que estejam envolvidos, na resolução das questões éticas, ligadas as aplicações de todo o nosso potencial biotecnocientífico.

 

 

FILOSOFIA • Poderia nos falar sobre as contribuições de Hans Jonas para se pensar um princípio ético válido para as sociedades tecnocientíficas?

SEIXAS • Hans Jonas, sem dúvida alguma, foi o primeiro filósofo que buscou formular um princípio ético ou, como é mais conhecido, o princípio responsabilidade, voltado não apenas para a dimensão das relações humanas, mas agora para a  relação entre o homem e a natureza. Significa dizer que com Jonas, o Ser Natureza tornou-se  passível de preocupação e ação moral. O que se descreve como Natureza, ganha a dimensão de ser objeto de responsabilidade moral. Há uma tentativa de retirar um excessivo antropocentrismo da práxis ética, voltando-a também para os seres não humanos. Ressaltemos que este projeto ético proposto por Jonas visa ajustar eticamente a práxis tecnocientífica humana, que segundo este autor, encontra-se cada vez mais dominada por uma hybris do sucesso técnico, isto é, uma atitude de desmedida quanto às consequências do uso de nosso potencial tecnocientífico, acarretando assim uma desresponsabilização da geração humana atual perante a natureza. Em nossa atualidade, não podemos dizer que esta preocupação seja sem sentido. Dessa forma, outro fator inédito presente na reflexão ética de Jonas é a preocupação com os efeitos nocivos da práxis tecnocientífica na atualidade, configurando-se como real ameaça às condições de existência das gerações futuras. As nossas ações irresponsáveis que agridem o meio ambiente, termo que prefiro ao de Natureza, pois este me parece guardar apenas um resquício de romantismo e saudosismo, corrobora a importância da reflexão de Hans Jonas com a nossa desmesura com relação à utilização dos recursos ambientais. Esta desmesura pode ser ilustrada recentemente no assim denominado “acidente de Mariana”. Notemos que uma atitude comum de desresponsabilização, tanto por arte da empresa envolvida quanto pelos órgãos governamentais, em todas as dimensões de poder, demonstrou que outros interesses são colocados em primeiro plano, em detrimento da manutenção e cuidado com a vida em seu todo. Temos não só uma questão ética como também política com referência ao cuidar da preservação e conservação das condições de existência de todo o “ser vida hoje” no planeta, para a possibilidade de continuidade do “ser vida que virá amanhã”. A preocupação ética e política de Hans Jonas quanto à manutenção das condições mais vitais para as gerações futuras pode ser bem retratada nessa situação. Posso ressaltar também que a contribuição da reflexão ética de Jonas ainda se demonstra essencial para as questões tratadas no campo da Bioética.

 

 

FILOSOFIA • Poderia nos falar sobre as contribuições de Michel Foucault para diversos campos do saber incluindo o campo filosófico?

SEIXAS • A contribuição de Foucault é muito ampla, não se limitando ao campo da Filosofia. Por sinal, Foucault filosofa a partir de áreas diversas: História, Literatura, Psicanálise, Medicina, Educação. Possivelmente, o uso do pensamento foucaultiano é utilizado de forma exagerada, mas penso que o autor previu tal situação. Esta amplitude pode caracterizar a sua reflexão filosófica como não sistemática. É importante destacar que, diferentemente de Friedrich Nietzsche, por exemplo, seus escritos não ganham a forma de aforismos. Para Foucault, o exercício da Filosofia é a forma mais rigorosa para se deixar de pensar, e por consequência, agir sempre do mesmo modo. Deve- se mudar o modo de pensar, e logo, o próprio estilo de existência. Dessa forma, Foucault desenvolve uma história crítica do pensamento, voltada igualmente para uma atividade de problematização da subjetivação, naquilo em que um sujeito se constitui, tanto em relação a si mesmo quanto em sua relação ao mundo. Podemos perceber que esse exercício da Filosofia, enquanto uma crítica do pensamento, apresenta o contorno de uma atividade de diagnóstico crítico, quando se trata de problematizar o que nós somos na atualidade, que experimentamos ou o que estamos fazendo de nós mesmos hoje. Não se trata de uma problematização epistemológica. A atividade de diagnosticar em que nos constituímos no momento presente traz o desafio de deixarmos de ser o que somos para buscar criar outros modos de ser. Essa problematização envolve o ultrapassamento dos limites aos quais nos encontramos assujeitados e que nos tornam presos às identidades que nos mantém menores. Tal atividade de diagnóstico da atualidade, partindo da perspectiva foucaultiana, ganha contornos éticos e políticos importantes.

 

 

 

FILOSOFIA • Como você percebe a atual conjuntura política sobre a valorização dos professores? É muito deficitária ainda a política de formação de docentes no País?

SEIXAS • Infelizmente, a desvalorização intensificou-se e não sei se poderemos aguardar algum tipo de melhora. O investimento na Educação já é precário e, por sua vez, investir no docente também se precarizou. O grande déficit que inegavelmente se estabelece só causa mais desvalorização, e por consequência, acarreta em uma formação docente muito falha. A identificação do professor com o conhecimento é básica, fundamental, pois facilita esta mesma identificação também do aluno, com o processo de produção do conhecimento, possibilitando assim a sua autonomia, a sua independência no contexto de suas experiências formativas, constituindo-se em uma real formação cultural, que só tem condições de existir com indivíduos autônomos e críticos. O aprofundamento na compreensão dos nexos da atuação de ensinar, direcionada a uma educação emancipatória é fundamental nas discussões e reflexões relativas à formação de docentes, pois, pelo que vem se delineando atualmente, o docente, entre outras coisas, se converteu em um mero reprodutor e vendedor de um conhecimento deficiente. Além disso, em muitas situações, a atuação docente encontra-se apartada de qualquer atitude de fundo crítico e facilitadora de autonomia dos discentes e até sufocada em seu exercício.

 

 

 

FILOSOFIA • Em sua opinião, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff serve para o crescimento democrático no País ou é um retrocesso das instituições democráticas?

SEIXAS • Creio que devemos inicialmente esclarecer que a democracia em geral encontra-se em crise na maioria das sociedades. Nossa democracia, mais especificamente, ainda é bastante complexa, pois experimentamos práticas que usurpam o espaço público para a satisfação de interesses privados. As instituições demonstram deficiências preocupantes para a ampliação e consolidação do ambiente democrático. Carecemos, neste momento, de credibilidade dos nossos ditos representantes. Na atual situação de “crise”, a tese do impeachment ou do golpe expressam o antigo antagonismo entre os movimentos de esquerda, que buscam se reestruturar, e a direita, que busca se consolidar cada vez mais no poder. O mais grave é o desinteresse e o crescimento do preconceito contra a política, pois se confunde a ação política com a política partidária. Esta é importante para o processo democrático, mas infelizmente nos reduzimos a entregar as decisões de interesse público aos políticos profissionais e aos partidos. E sem dúvida, a queda de Dilma, as acusações de corrupção, comum a praticamente todos os partidos, compromete a ação de cidadania, essencial para a democracia participativa e fortalecimento da democracia representativa. O senso comum compreende política como o âmbito da falsidade, mentira, da corrupção e do abuso de poder. Retrocessos se fazem e farão presentes. Afinal, temos uma fração parlamentar mais conservadora e apoiada por aqueles que querem se manter no poder. Principalmente quanto aos direitos conquistados pelas ditas minorias. Talvez, o que possa ser apontado como positivo é a necessidade urgente de fazer política mais livre das instituições. Mais independente dos partidos ou, pelo menos, cobrando-se mais dos parlamentares. Os movimentos sociais serão obrigados a inventar novas estratégias de luta e criar espaços de liberdade para serem ouvidos e realizarem seus objetivos. Esta situ- ação não é inédita  e pode se intensificar. Enfim, fica difícil uma resposta definitiva. Temos que aguardar o que está por vir, mas não passivamente, e sim, na ação.

 

 

O “jeitinho brasileiro” explicado pela filosofia

 

 

FILOSOFIA • Como filósofo e pesquisador da Bioética, como você avalia a questão do aborto na sociedade em que vivemos? A legalização do aborto seria importante para evitar tantos atendimentos clandestinos que levam a morte de inúmeras mulheres?

SEIXAS • O aborto configura-se como uma das questões cruciais para a reflexão bioética. Esta temática envolve princípios importantíssimos para a discussão ética. A vulnerabilidade do feto, por exemplo, torna-se uma tese defendida pelos que são contrários à prática do aborto. Temos também a vulnerabilidade do corpo feminino, que devido às restrições referentes ao aborto, muitas vezes são submetidas a intervenções criminosas, irresponsáveis e inábeis, trazendo riscos de morte. A falta de formação educacional em nosso País influencia nesta questão do aborto, interpretado como uma prática anticoncepcional ou de controle de natalidade.

 

 
FILOSOFIA • A Filosofia retornou ao ensino médio no currículo brasileiro. Como você avalia a relevância da Filosofia para os adolescentes? Você acredita que as futuras gerações terão novos modos de enxergar a realidade a partir da experiência de ter aulas de Filosofia?

SEIXAS • É deste modo que a Filosofia se torna formativa, na medida em que ela permite ao jovem dar-se conta do lugar que ocupa na realidade histórica do seu mundo. Como ele se situa em sua real existência. Cabe à Filosofia, pois, ajudar o discente a compreender o sentido de sua própria experiência existencial, o situando em relação ao sentido da existência humana em geral.

 

 

Se pensarmos mais em uma filosofia enquanto um ato de filosofar e não como mais uma disciplina, que apenas acumula conhecimento, o papel pedagógico da Filosofia passa a ser o de subsidiar o jovem discente a ler o seu mundo e a se ler em como se encontra nele. Desta forma, o ato de filosofar em sala de aula visa estimular a reflexão do aluno sobre sua própria existência, trabalhando conjuntamente com outras disciplinas. A postura interdisciplinar é essencial para articular o diálogo e os diversos olhares sobre a realidade. Deve-se pressupor sempre que a Filosofia tenha no currículo o status de disciplina autônoma. Não se colocando como “dona da verdade”, isolando-se de outras disciplinas ou “instrumento de doutrinação” que não contribui de modo algum para a formação crítica e autônoma dos discentes. Nestas condições, relacionando as dimensões mais abstratas da Filosofia, necessárias à compreensão do sentido de sua existência, com os aspectos empíricos de sua inserção na realidade, levantados
pelas Ciências, essa forma de trabalho pode despertar maior atenção por parte dos adolescentes, facilitando sua compreensão dos problemas abordados. Talvez assim seja possível a formação de indivíduos com novos olhares, mais amplos e críticos sobre a realidade.

 
*Fábio Antonio Gabriel é doutorando em Educação pela UEPG. fabioantoniogabriel.com

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 122