Utopias buscam uma sociedade ideal, porem não perfeita

Por Lucas Vasques
Entrevista com Gregory Claeys

Claeys: “A maior parte das utopias literárias almeja melhorar vidas através da refundação da sociedade com um novo conjunto de normas”

Utopia é uma palavra que, ao longo dos anos, sempre esteve presente no imaginário dos pensadores como forma de se refletir sobre futuros alternativos em longo prazo, ultrapassando horizontes imediatos. Em um cenário mundial repleto de conflitos políticos, econômicos e humanitários, de que maneira ela pode ser observada nos dias de hoje?

O inglês Gregory Claeys, professor de História do Pensamento Político no Royal Holloway, na Universidade de Londres, se dedica ao tema no livro Utopia: a história de uma ideia, lançado no Brasil pelas Edições SESC-SP. Claeys coloca uma questão central em sua obra: “A questão mais importante atualmente é: será que ainda podemos conceber os objetivos utópicos como viáveis em um mundo em que a destruição ambiental, a superpopulação e a escassez dos recursos ameaçam a espécie humana com uma calamidade, talvez em menos de cem anos?”

O professor foi um dos participantes do seminário Utopia 500 anos, promovido pelo Centro de Pesquisa e Formação (CPF) e Sesc Vila Mariana, em São Paulo, em parceria com o People´s Palace Project, instituição de arte independente inglesa, e apoio do British Council. O evento discutiu a utopia em nossos dias, celebrando os 500 anos do clássico livro Utopia, do escritor inglês Thomas More.

  • Filosofia: Com base em seu livro mais recente, Utopia: a história de uma ideia, como considera que a utopia pode agir de modo a transformar a realidade?

Claeys: O conceito de utopia nos convida a pensar sobre futuros alternativos em longo prazo, dessa forma ultrapassando os horizontes imediatos da política e da mídia. E também nos convida a ponderar se algumas rotas para o futuro são preferíveis às demais; ou seja, nos convida a pensar sobre o curso que poderíamos seguir ao invés daquele que seguiremos  se algumas tendências específicas (políticas, econômicas, ambientais) desenvolverem-se de certo modo. O conceito também nos abastece de uma tradição histórica de pensamento sobre as formas alternativas de organizar a sociedade, e um catálogo de sucessos e fracassos.

  • Filosofia: Em seu trabalho, você aborda a influência da ideia de utopia na história, literatura, arquitetura, arte, política e religião. Em que medida elementos como mitos da criação, arquétipos de Céu e Inferno, eras revolucionárias, progresso tecnológico e distopias políticas e ecológicas influenciam na busca pela sociedade perfeita?

Claeys: Ao longo da história, nós sempre quisemos saber de onde viemos, como espécie, e qual seria nosso destino. Na maior parte das vezes, essas questões receberam respostas religiosas – mitos de criação para as origens, e ideias de Paraíso ou vida após a morte, para o futuro. A partir de mais ou menos o século XVI, entretanto, temos mais e mais respondido a essas questões de maneira secular (laica), conforme o ceticismo a respeito das antigas respostas oferecidas pela religião foi se tornando mais difundido. No século XIX, uma crença geral no aperfeiçoamento secular gradual, a ideia de “progresso”, já havia se tornado a visão mais comum sobre esse mover-se adiante da humanidade. Isso implicou uma melhoria de nossas condições de vida, uma extensão de nossa expectativa de vida, a promoção gradual da paz e assim por diante. No entanto, a partir do final do século XIX, vários elementos de ceticismo infiltraram-se nessa visão. Primeiramente, parecia que o progresso econômico favorecia a poucos, em detrimento de muitos. O Socialismo e, no século XX, o Marxismo, promoveram, então, uma visão alternativa do progresso que era muito mais igualitária. Em segundo lugar, o progresso do urbanismo, mecanização (especialmente do trabalho nas fábricas) e a modernidade em geral poderiam, na verdade, ser prejudiciais ou não. A Primeira Guerra Mundial marcou um ponto de inflexão agudo em nosso ceticismo sobre a modernidade, embora contrabalançado pela Revolução Bolchevique de 1917, que pareceu promover uma visão alternativa de uma sociedade comunista, na qual a modernidade, a igualdade e a paz pudessem ser reconciliadas. Não obstante, durante o século XX, visões distópicas do futuro tornaram-se crescentemente comuns – eu analiso esse processo em meu próximo livro, Dystopia: A Natural History (Oxford University Press, a ser lançado no fim de 2016).

  • Filosofia: Você levanta a seguinte questão, em seu livro: a história do pensamento seria uma história das utopias? Poderia responder?

Claeys: Há muitos aspectos na história do pensamento que não têm relação alguma com a utopia – a maior parte da história da ciência e a história natural, por exemplo. No entanto, fica claro que alguma definição de utopia forma o conceito central de nossa ideia de ciências sociais ou humanas. Essa é a definição que vê a utopia como um interesse perene da humanidade e vê, por exemplo, a religião como um subtema da utopia e não o contrário. Desse ponto de vista, a busca pela boa vida torna-se um dos elementos mais importantes na sociedade humana, desde sempre.

  • Filosofia: Em sua opinião, as utopias são criadas com o propósito de buscar uma sociedade ideal? Isso é mesmo possível ou as utopias, por si mesmas, servem de motivação para aqueles que as criam, ou seja, para a sociedade?

Claeys: As utopias buscam estabelecer uma sociedade ideal, porém não perfeita – mas existe uma confusão recorrente entre essas duas aspirações. Na minha visão, “perfeição” é essencialmente uma categoria teológica – implica uma ausência absoluta de pecado, falhas, dor e até mesmo da morte. A maior parte das utopias literárias fica muito aquém dessas expectativas, e almeja melhorar nossas vidas neste mundo através da refundação da sociedade com um novo conjunto de normas que produziriam um melhor comportamento na sociedade. Geralmente, esse padrão melhorado de comportamento é atingido através do comunismo, ou alguma variante do comunismo. Mas nem todas as utopias são comunistas.

  • Filosofia: Poderia ser mais específico a respeito de sua afirmação de que “a utopia é uma variação de um presente ideal, de um passado ideal e de um futuro ideal, e da relação entre os três”?

Claeys: A tradição europeia ocidental principia com ideias religiosas de igualdade original, fartura e paz, nomeando: a Era de Ouro dos gregos e a ideia de Paraíso, integrada ao cristianismo. Ligadas a essas ideias, estão imagens de um futuro ideal, geralmente no além-vida (Paraíso). O presente ideal é concebido em termos de uma melhor organização da sociedade – uma cidade-estado. Esses ideais fazem referência a um Estado original – histórico ou mítico – que deve ser imitado, ou são defendidos com referências a conceitos teológicos do futuro. Assim, temos o conceito de Utopia como o “Paraíso na Terra”.

  • Filosofia: Por muito tempo, as utopias foram associadas às eras dos mitos e das religiões. Quando isso mudou? Foi durante o Renascimento, quando Utopia, de Thomas More, foi publicado, em 1516, trazendo este conceito para o pensamento racional científico?

Claeys: Representações da sociedade ideal existiam muito antes de 1516 – podemos pensar em Platão, ou nas discussões sobre os méritos e falhas das várias formas de governo na Política de Aristóteles. Entretanto, a grande contribuição de Thomas More foi possibilitar que algo como uma comunidade de bens pudesse ser alcançada por nações inteiras no tempo e espaço reais, e não apenas por poucos (principalmente em comunidades monásticas). Em fins do século XVIII, começamos a testemunhar a emergência de ideias de euchronia, ou os bons tempos por vir, que viriam naturalmente de desenvolvimentos do presente ou como um caminho específico a ser escolhido e trilhado. A Revolução Francesa é o evento chave que inspira a todos os posteriores modernos (chegando até Marx e Lenin) a conceber mudanças rápidas de modo a introduzir uma forma de sociedade substancialmente melhor.

  • Filosofia: Como podemos ter utopias em um contexto de incertezas quanto ao futuro da humanidade e nossa atual dificuldade em encontrar uma saída da decadência política, social e econômica?

Claeys: Se ainda podemos conceber os objetivos utópicos como viáveis em um mundo em que a destruição ambiental, a superpopulação e a escassez dos recursos ameaçam a espécie humana com uma calamidade – talvez em menos de cem anos –, é a questão mais importante que podemos nos colocar, atualmente. Claro que não há uma resposta simples. Mas podemos provisoriamente dizer que, na medida em que conseguimos estabelecer quais são os problemas que enfrentamos, podemos encontrar as soluções para eles. Então, se conseguirmos concordar que esses três problemas precisam ser resolvidos, podemos imaginar uma sociedade futura em que eles estejam solucionados e na qual estejamos vivendo em harmonia com o meio-ambiente. Se continuarmos a ignorá- -los, então certamente a distopia será o resultado.

*Crédito: Divulgação

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 120