Três livros para amar filosofia

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Há muitas formas de ingressar na filosofia. Vou sugerir três livros, afastados no tempo, bem diferentes nas ideias e até nos temas mas que serão uma boa porta de entrada na área. E não esqueçam: mais que dar respostas, a filosofia o que pode fazer é melhorar a qualidade de suas dúvidas, suas perguntas.

 

Primeiro: o Banquete, de Platão (380 a.C.). Como suas outras obras, é um diálogo – na verdade, uma conversa entre vários personagens, inclusive históricos, como Aristófanes, o maior autor de comédias na Grécia antiga. Sócrates é quem faz as perguntas, fiel a seu método de não expor mas questionar. Por que este livro é bom? Antes de mais nada, porque trata do amor em suas diferentes formas, do físico até o “platônico”. O amor platônico, aliás, não é o que chamamos usualmente, uma espécie de timidez ante a pessoa amada; é uma forma superior de amor, em que visamos o espiritual e não só o corpo. Um livro bom, também, porque Sócrates é o único grande filósofo a, primeiro, perguntar em vez de responder, segundo, morrer por suas ideias.

 

Outra obra é a Utopia, de Tomás Morus, de 1516. Morus imagina uma ilha na qual não há propriedade privada – e argumenta que esta última é a causa de todos os males sociais, de modo que sua extinção tornaria a vida coletiva bem melhor. O título do livro pegou. Hoje, chamamos de utópico o que é impossível, inviável (o que representa uma certa condenação das ideias de Morus) – mas também o que é ideal, muito bom. Não raro, o que hoje parece utópico depois de um tempo se realiza: a libertação dos escravos, a igualdade dos gêneros, a democracia.

 

Estes dois livros foram tão importantes que emplacaram adjetivos usados até por quem nunca os leu: platônico, utópico. Minha terceira recomendação é uma obra que não chegou a este sucesso, mas inspirou muito do pensamento atual sobre a ética: falo da Genealogia da Moral, de Nietzsche (1887). Como os dois outros, é fácil de ler. Não exige conhecimento prévio de filosofia ou de história da filosofia. Não é uma obra universitária, como as de Kant e Hegel, dois grandes pensadores de compreensão complicada.

 

Nietzsche questiona a ética tal como ela é entendida. Uma de suas ideias principais é que os valores não “existem”, não estão dados, eles são postos, afirmados pelo homem. Essa recusa de valores absolutos, ou doados por Deus, permite responsabilizar os seres humanos pelas éticas existentes. Nietzsche distingue a moral dos fortes e a dos fracos, o que foi mal compreendido (os nazistas tentaram colocar Nietzsche de seu lado), mas que em síntese é a seguinte: há uma moral que parte da palavra “malvado”, e em oposição a ela valoriza o bom, mas no sentido de bondoso; essa é a moral dos fracos, ou dos sacerdotes, que utilizam sua aparente mansidão como arma insidiosa para debilitar os fortes. E há uma moral dos fortes, que começa pelo “bom”, mas entendido como valoroso, valente, forte – e em oposição a ele constrói uma ideia de mau, que é o ruim, o de baixa qualidade.

 

Como disse, os nazistas se identificaram aos fortes. Mas essa leitura está errada: os mansos, os “fracos”, os sacerdotes na verdade efetuam um jogo de poder manhoso, perverso, justamente a fim de extrair a força dos que a têm. E esse enfraquecimento das pessoas pode inclusive ser um autoenfraquecimento, com os usuários dessa moral negando a energia que portam consigo. Muito material para pensar.

 

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Adaptado do texto “Três livros para se encantar com a filosofia”

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). www.renatojanine.pro.br