Transtorno Obsessivo Compulsivo

Como lidamos com isso que a Medicina dos homens denomina TOC? Algo que atinge milhões de pessoas, que não costuma recuar diante de uma argumentação convincente, que rotineiramente tende a colocar a pessoa em grave aflição

Por Lúcio Packter* |Imagens: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Em O homem que não conseguia parar, David Adam, um jornalista que sofreu muitos anos com transtorno obsessivo compulsivo (TOC), nos conta o caso do matemático Kurt Gödel: “colega e amigo de Einstein, viveu para a racionalidade. Seu teorema da incompletude se valia da lógica para explorar e expor os limites da própria lógica. Ainda assim, Gödel sofria com a ideia irracional e obsessiva de que seria envenenado acidentalmente, talvez por comida contaminada ou vazamento de gás da geladeira. Ele somente comia o que sua mulher experimentava antes. Quando ela adoeceu e não pôde mais cumprir a tarefa, o cerco obsessivo em sua mente fez que o matemático morresse de inanição”.

 

É provável que existam centenas de espécimes de TOCs ainda a catalogar, uma vez que ele está na prateleira das doenças em Medicina. Dessas centenas, é possível que somente uns poucos mereçam a atenção dos organismos de saúde mental pelos estragos, “estragos”, que trazem a determinados âmbitos da sociedade dos homens, que vão de suas privacidades a organizações familiares, que costumam reagir com terapia, remédios, tabelas de patologias diante de fenômenos que destoam da necessidade organizada. O sofrimento consistente de quem é acometido por estas formas mais específicas de TOC é um argumento decisivo quando relacionado aos impedimentos sociais.

Estudo mostra o que acontece no cérebro durante comportamentos

Há diversas explicações para fenômenos como TOCs específicos e estas explicações mudarão de forma, conteúdo, lugar, conforme uma série de elementos que encontramos em consultório. Um exemplo ocorre com David Adam. Em seu livro ele informa que seu TOC “começou com um pensamento invasivo, um floco de neve que caiu do céu de verão”. Ele saiu com uma garota. Ele nos conta: “Eu tinha transado com aquela garota? Não. Usamos camisinha? Não”. E então em uma noite abafada no agosto de 1991 sua mente despertou para o que ele chamaria de TOC.

Para algumas pessoas, o TOC pode ser atenuado em suas progressões e desenvolvimentos por medicação; algumas solicitarão expressamente por isso, independentemente de algum suposto benefício que possa o TOC trazer a elas

O TOC surgiu ali ou ali ele se mostrou em sua parte de sintomas? Ele constituía uma resposta a tudo o que David vinha vivendo, uma resposta que ele poderia indexar a princípios importantes de sua vida, ou surgiu como elemento de outra ordem? Como lidar com isso?

 

Em Filosofia Clínica, estas respostas são colhidas a partir da historicidade da pessoa, de seu contexto, sua estruturação interna. Para cada pessoa estamos diante de desafios distintos, ainda que se anunciem com o mesmo nome. Para algumas pessoas, por exemplo, o TOC, ainda que incômodo, pode ser uma resposta legítima a algo imensamente nocivo (que se se mostrar silencioso pode gerar dúvidas ainda maiores de sua periculosidade) e, em tal caso, talvez administrar o TOC, em vez de erradicá-lo, seja a questão a endereçar. Mas isso dependerá de fatores que raramente costumam surgir nestes momentos em nossos dias. É usual, protocolar, que uma poderosa indústria terapêutica, que flui desde a religiosidade até a terapia e a medicação, busque dedetizar a área infestada por TOC.

 

David Adam, por sua maneira de ser no mundo, tratou-se da seguinte forma, conforme era para ser com ele: “acho que a melhor forma de fazer isso é investigar estes pensamentos estranhos e obsessivos, ver como funcionam, de onde vêm e o que ensinam. Questionar como o cérebro, nosso principal aliado e maior trunfo em milhões de anos de evolução, pode se voltar dessa forma contra nós mesmos”.

É usual, protocolar, que uma poderosa indústria terapêutica, que flui desde a religiosidade até a terapia e a medicação, busque dedetizar a área infestada por TOC

Para algumas pessoas, o TOC pode ser atenuado em suas progressões e desenvolvimentos por medicação; algumas solicitarão expressamente por isso, independentemente de algum suposto benefício que possa o TOC trazer a elas. Alguns indivíduos pedem por outros caminhos, como uma administração e ajuste nas formas de expressão, como houve com Gödel. Entender o TOC como doença pode por vezes se configurar na maior “doença” em torno da questão. David Adam traz um exemplo em seu livro ao citar os ianomâmis, eles vivem entre o Brasil e a Venezuela: “… só bebem água que passa por cima de um vau. É uma atitude que hoje faz sentido, graças ao que sabemos sobre bactérias infecciosas”. O autor entende que determinadas compulsões feito esta podem ter garantido a sobrevivência de tribos inteiras. Buscar um relacionamento afetivo, procurar por estabilidade financeira, insistir em viver ainda que em situação de penúria, seriam formas de TOC? Talvez aceitáveis, talvez recomendáveis?

 

Um aluno me mostrou um pequeno e agudo texto de Georg Lichtenberg, na Faculdade Católica de Anápolis, no qual um trecho mostrava: “Há doenças graves de que podemos morrer; a seguir, há outras que notamos e sentimos sem muitas preocupações, pois que delas se não morre logo; por fim, existem também as que apenas se reconhecem ao microscópio, o que lhes permite conduzir-se de um modo verdadeiramente repugnante, e esse microscópio é a hipocondria. Acredito que se os homens quisessem, de verdade, dar-se ao trabalho de estudar as doenças microscópicas, teriam a satisfação de estar doentes todos os dias.”

 

E se em alguns casos o TOC for o mocinho e todas as estruturações familiares e sociais da pessoa forem o alijamento existencial contra o qual o TOC surgiu para defender a pessoa? Talvez o mocinho deste filme se mostre hostil e grotesco em demasia para os padrões dos nossos dias, o que pede alguns ensinamentos e ajustes. Eis algumas conjecturas em Filosofia Clínica a partir do que denominamos TOC em Medicina. Um dos prefácios ao tema.

 

 

Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia Clínica no Brasil. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Cuiaba e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br

 

Revista Filosofia Ed.116