Terrorismo e ecologia

Por Rodrigo Petronio* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Walter Benjamin observou a grande inovação produzida pela utilização de armas químicas na Primeira Guerra Mundial. Chegou a defini-las como o futuro da guerra, como um elemento que, àquela época, estaria alterando o conceito de guerra. Brilhante, ao ler o presente à luz do futuro e não à sombra do passado, a intuição messiânica de Benjamin estava certa. E pode nos auxiliar a compreender pontos centrais das alterações do mundo no limiar do século XXI.

 

A despeito de suas causas, o aumento da temperatura mundial tem sido sentido por toda a humanidade. Em meio a um calor estratosférico, ainda há previsões de aumento de 4 a 8 graus no planeta nas próximas décadas. Os meios de comunicação tratam o fato com o prosaísmo anedótico que lhes é particular. Se o planeta é o cruzamento finito de biomas que interferem entre si em uma escala de grandezas, obviamente a causa é humana e geológica.

Será que Admirável mundo novo acertou sobre o futuro?

 

A polarização desses termos nasce de uma cisão ideológica cujo objetivo é satisfazer aos interesses de industriais e ecologistas. Enquanto isso, tornamo-nos insensíveis a um dos fenômenos mais graves dos últimos tempos: a expansão do terrorismo. Na chave de Hannah Arendt, se o mal se tornou banal, vivemos hoje a banalização universal do terrorismo.

 

Ao contrário do que rezam neoconservadores antissocialistas e piedosos humanistas antifascistas de plantão, o terrorismo não é fruto nem do nazifascismo nem das ideologias anarcocomunistas. Ele surgiu no âmago da capitalização da guerra. Baseia-se na descoberta de algo tão simples quanto decisivo: é preciso atacar o meio ambiente do inimigo mais do que o inimigo. A filosofia terrorista advém da descoberta das potencialidades bélicas do meio ambiente, com as primeiras guerras químicas de gás, nos fronts alemães de 1915.

 

Em termos dialéticos, um evento só se torna tangível como fenômeno a partir de sua forma negativa. Portanto, meio ambiente, ecologia, clima e atmosfera só emergiram como realidades a partir de sua iminente destruição, ou seja, diante das estratégias químicas da Primeira Guerra Mundial.

 

Virtual e real, sem separação

 

A guerra não é a suspensão da política ou seu avesso. A guerra é a continuação da política por outros meios. Com essa definição, no início do século XIX, Carl von Clausewitz dotou a guerra e a política de um novo sentido, levando-as ao paroxismo. Entretanto, apenas no século XX a acepção clássica de guerra se extinguiu e originou a sua forma atual: a guerra é a continuação do terrorismo por outros meios. Agora, com o fim da era clássica dos conflitos, o terrorismo não é mais a exceção da guerra. O terrorismo é a regra que define as diretrizes da política global na era pós-belicista.

 

Como percebeu com argúcia Peter Sloterdijk, o terrorismo é a tecnologia política que define o século XX. Toda a política do século XXI e do futuro imediato é e será uma política ambiental e uma guerrilha climática de raiz terrorista. Estamos ingressando na época do bioterrorismo, do atmoterrorismo e dos atentados climáticos. A diferença é que esses atentados se tornaram tão cotidianos e simples quanto o ato de respirar.

 

A essência da lógica terrorista consiste em devastar o planeta na mesma medida em que se criam tecnologias de climatização e redomas-bolhas artificiais humanamente eficazes. Os shoppings centers, as cidades-estufa e os ambientes virtuais são o começo de uma transformação reticular do planeta. A partir dela, uma das principais modalidades de exclusão social será a exclusão atmosférica. Os tristes cenários das câmaras de gás de Auschwitz, dos guetos de Varsóvia ou dos gulags soviéticos serão imagens fósseis de um passado longínquo.

 

Mecanismo de fuga do sofrimento em “A vida é bela”

 

Para lutar contra esse processo, o discurso ecológico se apoia no otimismo da simetria, ou seja, na crença de que os agentes da destruição, estando eles próprios dentro de uma mesma atmosfera que os pacientes da agressão, possam adquirir consciência ecológica. Quando finalmente a natureza começar a se voltar contra eles, os agentes destrutores do planeta passarão a investir em meios limpos de produção de energia.

 

O argumento é de uma ingenuidade comovente. Pois os ecologistas ignoram que o planeta não é uma unidade uniforme e homogênea. Há tantos mundos habitados quanto donos de mundos habitáveis houver. Além disso, o ar pode ser privatizado. A água é o investimento mais lucrativo do ­futuro. A Espanha está abrindo ­concorrência para a privatização da energia solar e a domesticação da luz natural.

 

A defesa da natureza guarda em si um problema lógico e ontológico. Nas primeiras décadas do século XX, o biólogo Jacob von Uexküll criou o conceito de Umwelt (mundo circundante). O Umwelt não é um hábitat, nem é a natureza em sua totalidade, tampouco é um meio ambiente. O Umwelt é um mundo. Por isso, há uma pluralidade infinita de seres e mundos. Quando falamos em defesa da natureza, precisamos dizer em nome de que natureza falamos. E em nome de quem defendemos a natureza que defendemos.

 

No momento mesmo em que surgem as primeiras expedições tripuladas para Marte e se desenvolvem velozmente projetos de colonização de outros planetas, a vida na Terra começa a ser comprometida. Isso não é ocasional. A possibilidade de habitar novos mundos torna mais tênue os laços de compromisso dos donos deste mundo com este mundo.

 

Enquanto a humanidade se autoexterminar, dividida entre os defensores e os destruidores da natureza, os donos do mundo estarão bem longe. Certamente, em um mundo melhor.

 

 

*Rodrigo Petronio, professor da pós-graduação do curso de Cinema da FAAP, da Casa do Saber e do Museu da Imagem e do Som, onde criou e coordena o Núcleo de Narratividade. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva (Editora É).  Coorganizador do livro Crença e evidência – Aproximações e controvérsias entre Religião  e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos – no prelo).

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 99