Tecnologia e exclusão social

Por João Teixeira* | Foto: Shutetrstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quem costuma ler esta coluna sabe que não sou um especialista em questões políticas. Minha preocupação, ao discutir essas questões, concentra-se no modo como a tecnologia passou a interferir na vida política das sociedades, especialmente as redes sociais.

 

Há poucos dias, quando abri o Facebook, deparei com a foto de um prato de lagosta e frutos do mar. Ao lado da lagosta, havia um pouco de arroz selvagem. Tudo cuidadosamente distribuído para formar uma combinação agradável de cores, típica de um chef internacional. Logo abaixo, havia um pedido de desculpas do restaurante, lamentando a publicação e pedindo para outros clientes que não postassem fotos de pratos de comida tão caros.

 

Por que uma foto como essa causa tanto mal-estar? A resposta óbvia é que ela incita revolta e humilhação na maioria da população mundial, que mal tem o que comer ou que troca um dia de trabalho por um prato de comida muito pior do que o da foto.

 

Os últimos dados sobre a desigualdade no planeta são alarmantes. Apenas 62 arquimilionários detêm o equivalente à renda de 2 bilhões de habitantes. O cenário se torna ainda mais cruel depois que a internet trouxe à tona as desigualdades profundas entre países e classes sociais. O objetivo era globalizar o consumo, mas o tiro saiu pela culatra.

 

Um post como esse prato de lagosta revolta milhões de pessoas. Penso, no entanto, que a verdadeira causa dessa revolta não é a riqueza, mas a miséria. Será que ostentar um prato caro, um símbolo de desperdício enquanto tantas pessoas mal têm como se alimentar, seria ofensivo se não pressupuséssemos que o luxo de uns poucos é sempre o resultado de uma desigualdade extrema? Em outras palavras, se não houvesse miséria, será que o prato de lagosta causaria tanta revolta?

 

No século XIX essa situação desconfortável era contornada pela ideia de fraternidade, proposta pela Revolução Francesa, e, no século XX, se transformou em solidariedade. Certamente, a associação entre a riqueza de alguns com a miséria de muitos não desapareceu. Os pobres continuaram a invejar os ricos, mas conviver com a inveja era algo suportável. Como afirmou Bertrand Russell no seu livro A conquista da felicidade (1966), a inveja é a mola propulsora da democracia. Ela fomenta o ódio, mas também a luta por bens e direitos, por isso ela não é, necessariamente, maligna.

 

No século XXI esses ideais se transformaram em uma reivindicação pela distribuição equitativa da riqueza, algo cada vez mais utópico, o que tem nos tornado irremediavelmente infelizes. O igualitarismo passou a fazer parte da cartilha do que é politicamente correto e, por isso, um post como o do prato de lagosta se tornou algo intrinsecamente imoral.

 

Mas será que o igualitarismo, quando dissociado da miséria, é um bem autoevidente que dispensaria qualquer justificação filosófica? Essa é a questão discutida pelo filósofo Harry Frankfurt em seu último livro, Sobre a desigualdade (2015). Longe de ser um arauto neoliberal, o livro questiona nossa percepção habitual, que associa miséria com riqueza, e defende que o combate à pobreza extrema deve ser a prioridade de todos os governantes para diminuir a instabilidade das sociedades atuais.

 

No entanto, penso que o prato de lagosta continuaria a horrorizar, pois ele é um signo do desprezo que alguém pode ter em relação aos outros. Quem o postou na internet não considerou que ele poderia ter pouco efeito sobre uma pessoa rica, e não se preocupou com a possibilidade de ele ser visto por um paquistanês esfomeado. Tratar alguém com respeito significa não ignorar suas diferenças em relação aos outros.

 

O desprezo é uma das piores formas da falta de respeito. Respeitar significa, também, não conceder privilégios sem motivo. Em outras palavras, o respeito exclui a arbitrariedade e valoriza a imparcialidade, e é por isso que, muitas vezes, suas consequências coincidem ou são confundidas com os clamores pela igualdade.

 

Quando assistimos a noticiários na TV não é a falta de igualdade que nos indigna, mas a falta de respeito. É a corrupção impune, os políticos que usufruem de privilégios injustificáveis, o desvio de verbas, a sensação de que só nos sobram as migalhas de um lauto banquete. É pior do que ser desprezado, pois tudo se passa como se nós nem sequer existíssemos. Não há desrespeito maior contra um ser humano do que não ser percebido, de sua presença não ser sequer reconhecida.

 

Felizmente, a mídia descobriu que uma das melhores formas de aumentar e fidelizar sua audiência foi industrializar a indignação. Todos os dias vazam escândalos e catástrofes ambientais que refletem o descuido do governo em relação à população. Para atrair público, a mídia televisiva, um dos melhores instrumentos de controle da opinião pública, tem de mostrar o quanto somos um povo maltratado. O tiro começa a sair pela culatra.

 

As redes sociais também encamparam a indignação. Contra sua capacidade de mobilização elas são criticadas por não se basearem em fontes confiáveis. No entanto, a mídia não é ágil para convocar manifestações nem agrupar, rapidamente, coletivos. Mas no caso das redes, o tiro já saiu pela culatra, pois elas possibilitaram que grupos que odeiam a tecnologia se servissem dela para espalhar o fundamentalismo pelo mundo.

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

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Adaptado do texto “Tiros pela culatra”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 117