SUS: mitos e inimigos

Por Arthur Meucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Há 25 anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) se tornou um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo e uma das mais importantes conquistas sociais do Brasil. Instituído pela Constituição Federal de 1988, ele substituiu o vergonhoso sistema de atendimento do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps) criado pela ditadura militar, em 1974. Sua criação já foi o primeiro ganho do país, pois desmantelou um velado sistema de extermínio da população carente e descontente com a elite brasileira.

 

Muitas ditaduras da América Latina levaram a cabo programas de limpeza social e racial. No Chile, o ditador Augusto Pinochet desamparou a classe média baixa e os pobres a ponto de os levarem à extrema miséria e a altos índices de mortalidade infantil, acabando com o serviço social do país. Na Argentina, criaram uma guerra nas Malvinas e enviaram os pobres, mulatos e negros para a linha de frente, munidos de baionetas, para servir de escudo humano. Já os militares brasileiros criaram um sistema misto: grupos policiais de extermínio na periferia e proibição do acesso à educação e saúde (para ser atendido pelo Inamps era preciso estar empregado com carteira de trabalho, logo desamparava os pobres e os trabalhadores informais). Na década de 1980, quando perceberam que a democratização era inevitável, sucatearam os hospitais públicos e tentaram privatizar todo o sistema.

 

Graças à Constituição de 1988, o sistema de saúde se tornou universal e um dever do Estado. Mesmo depois da democratização, o SUS passou uma década sem investimentos e recebeu sua atual alcunha, de precário e ineficiente. Hoje em dia, a realidade é bem diferente, apesar da má fama, que virou mito. Posso dizer, com conhecimento de causa, que a saúde pública em algumas regiões está melhor que o sistema privado, para desespero dos políticos neoliberais.

 

Há poucos meses, vivi duas situações que abriram os meus olhos para a realidade da saúde no Brasil. A primeira foi um mal-estar generalizado que quase me deixou em coma. Fui encaminhado para a emergência de um hospital conceituado na região de Higienópolis, em São Paulo, e lá fiquei durante uma hora e meia sem ser atendido, mesmo com a pulseira vermelha que representa urgência. Espantados com a demora, levaram-me rapidamente para um hospital particular de referência na região da Pompeia. Lá fui atendido em 40 minutos por um clínico que me diagnosticou com infecção bacteriana. Nesse hospital, fui contemplado com um remédio ao qual tenho alergia, mesmo com a prevenção da pulseira, que avisava sobre o caso. Passadas 12 horas, as dores voltaram com mais intensidade e com outros sintomas. Resolvi, então, ir a um terceiro hospital. Fui submetido a um eletrocardiograma e a um hemograma, cujos exames não entendi a necessidade. Novamente houve o diagnóstico de causas bacterianas e a tentativa da medicação a qual sou alérgico. Depois de outras 12 horas, passei a ter hemorragia e fui encaminhado para a emergência de um hospital público, que rapidamente diagnosticou um vírus e o controlou. Fui questionado pelo médico que descobriu o vírus sobre como poderiam não o ter notado após dois exames de sangue. Só então fui medicado corretamente e tive um estado de melhora em 24 horas.

 

O segundo caso foi o pré-natal e parto de minha filha. Os médicos de convênio pelos quais fomos atendidos só sabiam pedir exames e falar de cesariana, mesmo minha esposa tendo sido enfática na sua decisão pelo parto natural. Recebemos vários diagnósticos, de eclampse a diabete gestacional, sem nenhuma fundamentação. Queriam tirar a criança no sétimo mês de gestação em uma maternidade com “UTI Neonatal”. Paralelamente, minha esposa se submeteu ao pré-natal do SUS, cujo atendimento foi muitas vezes superior. Desmistificaram os diagnósticos alarmantes, criticaram o excesso de exames, ofereceram cursos para gestantes e sempre defenderam o parto natural. Chegando ao nono mês de gestação, optamos por ter nossa filha no SUS. Mesmo chegando com a pressão sanguínea levemente alta, minha esposa teve o parto natural sem complicação, e eu pude ficar ao seu lado durante todo o processo. Nossa filha nasceu saudável e no tempo certo, sem exames e remédios caros, UTIs e cirurgias. Saímos da maternidade sabendo dar banho, trocar fraldas, detectar cólica e potencializar o uso do leite materno – na maioria dos hospitais particulares dão mamadeira com leite artificial misturado com remédio para evitar cólicas logo que o bebê vai para o berçário. Não nos espantou ver mães de classe A tendo seus filhos por meio de parto natural no SUS – algo antes impensável.

 

Mesmo tendo um plano de saúde com muitos recursos e hospitais de referência resolvi passar a utilizar o SUS. Conseguimos um pediatra homeopata, fazemos tratamento de acupuntura, passamos em cardiologistas e nutricionistas para fazer check-ups preventivos de alta qualidade. Há problemas de agendamento, mas nada mais demorado que um mês. Um cardiologista, pelo meu plano, leva, no mínimo, dois meses para marcar uma consulta. Se o SUS está ruim, o sistema particular está péssimo.

 

*Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e história da Cultura pelo Mackenzie e membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor conferencista da ECA/USP e do curso de Ética e Meio Ambiente do PEC/FGV-SP e consultor do Espaço Ética. www.meucci.com.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 92