Sonhar novos modos de ser

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Comentei na última coluna como, desde o século XVIII, se percebe que os seres humanos são diferentes no espaço, tema da Etnologia, e no tempo, foco da História. Durante muito tempo se imaginou, pelo menos no Ocidente, que as diferenças fossem apenas aparentes; a modernidade percebe que elas são mais profundas. Porém, uma coisa é dar-se conta disso, outra é notar que enormes possibilidades de ação se abrem para nós com isso. Torna-se possível sonhar novos modos de ser.

 

Esse novo enfoque sobre o mundo é particularmente visível na Política, e é o que permite a democracia. Se fôssemos todos sempre iguais, ou se nos reduzíssemos a um pequeno grupo de possibilidades, como os “caracteres” ou tipos psicológicos com que lidaram Teofrasto e La Bruyère, não teríamos a liberdade de mudar a nós mesmos ou a nossa sociedade. Ou seja, não se trata apenas de um fato: os seres humanos mudam; mas também de um projeto, de uma vontade, em suma, de muitas liberdades: podemos mudar o mundo. É claro que essa liberdade, ela mesma, está sujeita a limites.

 

Penso que é legítimo entender que a construção do futuro é a tentativa de substituir pesadelos por sonhos. No primeiro capítulo do Dezoito Brumário, Marx fala das imagens do passado que nos impedem de construir o novo. Por exemplo, o que limitou as revoluções inglesa do século XVII e francesa do século XVIII foi que seus líderes lutavam pelo que nunca antes tinha existido, acreditando que estavam restaurando o Velho Testamento ou a Roma antiga.

 

Quais são as disciplinas, as ciências, as teorias que abrirão caminho para esta tarefa? Insistirei em três. Uma delas é a Psicologia que, procurando conhecer o mundo de nossos afetos, propõe-se, de inúmeras e contraditórias formas, reduzir o sofrimento mental e, se possível, ampliar nossa capacidade de escolha livre. Não é fortuito que Freud desse tanta importância à interpretação dos sonhos, e que Jung visse na atividade onírica um dos principais focos de seu trabalho.

 

Outra é a Política, que proclama que o mundo no qual vivemos é construção nossa e, por isso, pode ser modificado. Aliás, é bom lembrar que ao longo das últimas décadas a palavra “política”, que antes tinha um sentido genérico dentro do qual cabiam como subdivisões a democracia, a aristocracia, a monarquia, a ditadura, foi sendo levada a se tornar quase que sinônimo de política democrática. Hoje, quando alguém define a Política como espaço em que a força bruta é substituída pelo diálogo, pela persuasão, em síntese, pela linguagem, o que está fazendo é definir um tipo só de política, a democrática, que pelo visto acabou se convertendo na única política digna de seu nome.

 

E, finalmente, a Educação. Já comentei que educar não é o mesmo que instruir. Um manual de instruções ou um tutorial limitam-se a descrever como funciona alguma coisa. Ora, o ser humano não nasce com tutorial. Precisamos constantemente aprender como somos, como são os outros, e aprender a lidar com as dificuldades – e oportunidades – da vida. É esta abertura ampla de possibilidades que caracteriza nossa espécie, sendo que o número de modos de ser aumentou muitíssimo de um século para cá. Educar é formar alguém para a diversidade da vida, e se possível para lidar com essa pluralidade – isto é, saber como fará para viver as relações a partir de suas escolhas responsáveis.

 

Tudo isso é um tanto novo. E não se impôs no mundo inteiro, haja vista os países em que a mulher é oprimida de forma bárbara ou, mesmo em nosso próprio país, o discurso de ódio que neste momento soa tão forte. Mas o caminho da liberdade, política tanto quanto pessoal, não tem volta.

 

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 117