Será a longevidade boa em si?

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock |  Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Os transumanistas são um grupo de filósofos contemporâneos que defendem o aperfeiçoamento da espécie humana por meio da Engenharia Genética, da Robótica e da Nanotecnologia. Em 1998, os filósofos Nick Bostrom e David Pearce fundaram a Associação Transumanista Mundial e redigiram a Declaração Transumanista, na qual se comprometem com a reforma da natureza humana por meio da Ciência. Uma das grandes apostas dos transumanistas para a melhoria das gerações futuras é a manipulação do código genético e, com ela, melhorar e prolongar a vida humana.

 

No entanto, parece que a Medicina já se adiantou nessa tarefa. No século XII, um camponês europeu não vivia mais do que 30 anos. A partir do final do século XIX, passamos a viver cada vez mais, e a média de vida cresce a cada década. Por curar muitas doenças que antes eram fatais, a medicina fez que não apenas a população aumentasse, mas, também, a expectativa de vida.

 

Os transumanistas têm planos ainda mais ambiciosos. Eles pesquisam como desligar o relógio biológico que programa as células para se autodestruírem e, com isso, adiar, cada vez mais, a morte. Alguns experimentos envolvendo a modificação genética de alguns animais triplicaram sua média de vida. Mas será desejável estender essas técnicas para a espécie humana?

 

A população mundial está se tornando cada vez mais longeva. A Europa é um imenso continente de idosos. Nos Estados Unidos, muitas pessoas já vivem mais de 100 anos. Em breve, a China terá 100 milhões de idosos. Nas próximas décadas, a velhice será epidêmica também nos países em desenvolvimento, ameaçando seus sistemas previdenciários, que não estão preparados para essa nova realidade. Para agravar a situação, a população jovem, que trabalha e contribui para esses sistemas de previdência, está diminuindo. O número de filhos por casal é uma curva em declive. Para tentar evitar esse desastre anunciado, a China revogou a lei do filho único.

 

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Há, ainda, outro complicador. A tendência global é que os idosos e aposentados consumam menos. Os babyboomers, ou seja, a geração nascida após a Segunda Guerra Mundial, estão se aposentando e, com isso, milhões de pessoas com bom poder aquisitivo diminuirão seu consumo. A previsão é que uma nova recessão atingirá, nas próximas décadas, as economias da Europa e dos Estados Unidos, arrastando com ela muitos países em desenvolvimento.

 

A velhice globalizada é um imenso problema social, sobretudo quando muitos idosos, a partir dos 80 ou 90 anos, perdem sua autonomia. Muitos já sofreram quedas e perderam a locomoção, outros enfrentam o Alzheimer ou a demência senil. Quando a velhice ingressa nessa etapa, os idosos passam a depender de enfermeiras geriátricas e de outros tipos de cuidadores. Por isso, na maioria das vezes, são levados para instituições especializadas. As consequências são devastadoras. Esses idosos perdem suas casas e passam a viver em espaços restritos, uma longa fila de espera pela morte. A assistência se confunde com a segregação.

 

 

Essas dificuldades reacendem um antigo debate: será a longevidade um bem em si? Para os transumanistas, a longevidade é desejável, mas é preciso, urgentemente, melhorar a qualidade dos últimos anos de vida dos idosos e, nisso, a medicina tem falhado até agora. De que nos adianta viver 160 anos se nos últimos 20 não pudermos sair de uma cama?

 

A Medicina nos proporcionou um ganho quantitativo em longevidade, mas não qualitativo. Por preservar pessoas com conjuntos de genes humanos que, antigamente, não sobreviveriam nem tampouco se reproduziriam, ela inverteu a direção da evolução. Quanto mais cuidados médicos há, mais pessoas doentes sobrevivem e se multiplicam. E mais pessoas, apesar de estarem seriamente doentes, vivem cada vez mais.

 

Nossas sociedades reprovam, moralmente, a paternidade irresponsável. Reprovam os adolescentes que têm filhos sem as mínimas condições econômicas de sustentá- los e de educá-los. Pelos mesmos critérios, nossas sociedades deveriam também reprovar a longevidade irresponsável. Por que prolongar a vida se não são dadas as condições para que seus anos finais possam ser vividos com dignidade?

 

 

O raciocínio é o mesmo: ganhos quantitativos são irrelevantes se não forem acompanhados por melhorias qualitativas proporcionais. Por essa razão, Aubrey de Grey, um dos principais transumanistas que pesquisam nessa área, considera o envelhecimento uma doença, e propõe um pacote de vários tipos de tratamentos, o L.E.V., ou longevity escape velocity, destinado a recompor o desgaste dos tecidos.

 

A boa saúde não basta para que o envelhecimento seja suportável. O terror da velhice é a acumulação das perdas, que gera uma sensação de cansaço e de impaciência. No clássico O velho e o mar, Hemingway chamou isso de “cansaço da alma”. É o cansaço inexplicável, que só os idosos conhecem, e que não pode ser combatido com vitaminas ou medicação geriátrica.

 

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Para a maioria dos governos, a velhice é um problema contábil ou, no máximo, atuarial. Em muitos países os idosos se sentem moralmente constrangidos, como se estivessem vivendo mais do que deveriam, pois as aposentadorias são consideradas uma regalia, e não uma conquista. Em outros, como o nosso, para evitar o constrangimento, as pessoas ocultam a idade a qualquer custo e, quando a confessam, logo acrescentam que gozam de saúde perfeita.

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

www.filosofiadamente.org

Adaptado do texto “Longevidade responsável”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 116