Rock’n’roll trágico

Shows de rock sempre apresentam algo de teatral, pois, assim como no teatro, há no Rock’n’roll uma segmentação por gêneros que se aproximam, se afastam e se mesclam, criando atmosferas condizentes com as histórias a serem contadas

Por Marcus Vinicius Monteiro Pedroza Machado* | Fotos: Wikimedia Commons | Adaptação web Caroline Svitras

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O dionisíaco, o apolíneo e o trágico

Um dos filósofos que pensaram o trágico de um modo bastante ­original a partir da abordagem iniciada por Schelling foi Friedrich Nietzsche, que pensou o trágico como uma tensão entre duas forças da natureza representadas pelos deuses Apolo e Dionísio.

 

No mito grego, os homens não suportariam ver a verdadeira forma dos deuses e, por isso, teriam de transmutarem-se em seres capazes de serem suportados pelos homens como aparece no início de As Bacantes, tragédia de Eurípedes (480 a.C. – 406 a.C.): “Chegado sou a esta terra tebana, eu, ­Dionísio, filho de Zeus, dado à luz pela cria de Cadmo, Sémele, partejada pelo fogo do relâmpago. Minha forma divina pela de um mortal trocada, eis-me aqui, junto às fontes de Dirce, defronte às águas do Ismene”. Segundo o mito grego, a mãe de Dionísio teria caído em uma armadilha tramada por Hera (esposa de Zeus): após a belíssima mãe de Dionísio pedir para ver Zeus em todo o seu esplendor e ter seu pedido prontamente atendido, fora fulminada por um raio, ou seja, sem a ilusão da aparência, os homens não suportariam a vida. O poder apolíneo garantiria uma mediação entre os homens e as forças cruéis, titânicas, esmagadoras presentes no mundo.

 

Segundo Nietzsche, o espírito trágico flutua entre essas duas forças da natureza; o papel da tragédia é mostrar ao homem esse mundo selvagem, terrível­, titânico representado por ­Dionísio, mas o homem não consegue vê-lo ­diretamente, necessita de uma mediação, algo que o faça ver esse mundo sem ser esmagado por ele. Segundo Roberto Machado, o espírito trágico é conseguido a partir da luta e da reconciliação entre os dois princípios estéticos, pois sem eles o trágico não consegue existir. Apolo pode garantir a beleza, mas não o sublime, ao passo que Dionísio pode garantir o horror terrificante e selvagem e a experiência do fim da individualidade no uno primordial, mas não pode levá-los até os homens sem a mediação apolínea. O sublime consiste em justamente conseguir reconhecer aquilo que há de terrível no mundo, mesmo sabendo que esse terrível nos escapa em grande parte. É a tentativa de criar imagens para aquilo que não tem imagens; em outras palavras, Dionísio necessita de Apolo para ser reconhecido como algo terrificante. Aristóteles dava conta de que a tragédia torna-se sublime quando consegue suscitar piedade e horror no espectador para purgá-lo; a filosofia de Nietzsche (que quase não usa esse termo) dá conta de que o sublime ocorre quando o horror torna-se visível, reconhecível não para purgar o homem de algum sentimento, mas para torná-lo consciente. Dionísio não é sublime. Apolo não é sublime. O trágico é sublime. A relação Apolo-Dionísio remonta à velha relação entre aparência e essência, ilusão e verdade, ser e não ser. Ela procura explicitar a ideia de que nem tudo aquilo que há no mundo pode ser entendido fazendo uso apenas da razão e da lógica. O mundo não é claro e nunca será, e isso não é um demérito, mas uma característica.

 

Seria “The Doors” uma banda trágica?

Polfoto/Jan Persson

Pensar a banda The Doors como tendo um projeto de expandir a percepção de mundo a partir da música é um exercício reforçado ao se falar sobre o processo criativo da banda. Os relatos dos membros da banda falam de um processo caótico feito a partir da letra de Jim Morrison, que é originalmente poeta, e não músico. Se as letras em sua maioria eram de autoria de Jim, as melodias eram criações coletivas que modificavam o modo como a música era organizada; o importante era a música, e não cada um dos integrantes da banda. Nesse sentido, o processo de expansão da percepção pode ser associado a um processo dionisíaco de embriaguez e destruição individual. A partir do momento em que os indivíduos levam suas contribuições e as somam, criam algo que é diverso da soma das contribuições musicais. Outro aspecto da banda eram os improvisos, que ocorriam em gravações, shows ou durante a criação, incorporados ao corpo da música sem pestanejar. Novamente, contribuições individuais engolidas pelo todo, pela banda, pela música, que é por si só dionisíaca, pois é informe. Identifica-se, assim, um processo de criação da banda em que todos dão suas contribuições, as quais se desmancham na música.

 

Mas Dionísio necessita de máscaras para ser visto, e essa máscara é a imagem da banda de Rock’n’roll. Jovens, bonitos e charmosos: sem isso a música dionisíaca criada pelo grupo não apareceria, pois não teria corpo. E a banda ganhou corpo e rosto, uma encarnação: Jim Morrison.

 

Jim Morrison: herói?

Elektra Records

Ser um astro de rock é um movimento em direção ao apolíneo, ao ser individual, é aquilo que há de mais próximo a um herói. Jim é um receptáculo para a verve dionisíaca da banda, seu ímpeto. Jim é a máscara apolínea que permite que a música se manifeste por meio dele. Se a música da banda é dionisíaca, Jim Morrison é a máscara apolínea que o ator trágico deve vestir para encarnar o herói. A relação entre a música e Jim Morrison procura conciliar o dionisíaco presente na poesia com o apolíneo exigido pelo show business. Jim Morrison não sabia tocar instrumento algum, então, para conseguir fazer música, ele necessitava dos outros membros da banda, principalmente de Ray ­Manzarek, o principal interlocutor de entre Jim e os outros integrantes de The Doors.

 

Dentro da banda, Jim representava a força dionisíaca, enquanto os outros, a apolínea; se Jim trazia letras sem melodia, ou com uma melodia “capenga”, os outros a organizavam e a tornavam, enfim, música. Existia uma dinâmica Apolo-Dionísio no processo criativo da banda que se invertia no momento de apresentarem-se. Durante a criação, Jim era o Dionísio, que trazia uma torrente de força e vigor, e Ray, John e Rick eram o Apolo, que dá forma ao que foi trazido, que transforma aquilo em algo possível de ser apresentado. Durante as apresentações, Jim era a máscara de Apolo que aparecia em primeiro plano, ao passo que os outros músicos pouco eram percebidos. Em qualquer gravação de apresentações da banda, todos os outros músicos eram esquecidos e a câmera só “lembrava” de Jim Morrison. Naquele momento, The Doors era, enfim, uma banda trágica, na qual Apolo e Dionísio se fundiam em apenas um. Como foi declarado por Henry Rollins (1961), músico, autor e fã da banda: “O que me impressionou logo no começo foi a voz de Jim Morrison, o controle, a riqueza e como ele passava daquele controle e ternura para a ferocidade animalesca que ele tinha”.

 

Morrison usava seu próprio rosto como máscara, porém criava outras máscaras como a de King Lizard ou a de Mr. Mojo Risin. O Rei Lagarto é um alter ego de Jim, a sua outra máscara. Jim escolhera essa imagem porque ela representava o que há de mais primevo dentro do homem. Mr. Mojo Risin, um anagrama de Jim Morrison, aparece no fim da gravação de L.A. Woman, um momento de pura improvisação e espontaneidade. O que ele quis dizer exatamente? Não importa.

 

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed.

Adaptado do texto “Rock’n’roll trágico”

*Marcus Vinicius Monteiro Pedroza Machado, graduado em Filosofia pela UFRJ. Atualmente leciona na rede estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro e no EJA-Manguinhos.