Repensando os muros existenciais

Por Lúcio Packter* | Foto:  Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

John construiu um muro para afastar emoções de seu coração. Limpou uma área, retirou cuidadosamente a vegetação rasteira e o solo fraco; antes de fazer o alinhamento, demarcou com lascas de madeira o plano. Trabalhou na vala de fundação, calculou a profundidade pela altura do muro, pela maciez do terreno; como achou o solo cardíaco macio, pensou em cavar fundo, usou brocas.

 

Três anos depois o muro estava pronto, mas John permanecia insatisfeito porque as emoções continuavam passando, chegando ao coração. John foi consultar um filósofo clínico, especialista em construção de muros e afins, e descobriu algo muito importante: como ele ignorava a extensão do terreno cardíaco, acabou murando uma área pequena; deixou uma ampla área sem a alvenaria do muro por achar que ela não pertencia ao coração.

 

Esse é um dos aspectos que usualmente encontramos em quem edifica muros existenciais. Impressionados com a imponência das pedras, do concreto, dos adornos, alguns esquecem que deveriam ter pesquisado o terreno antes de alinhar as pedras, as valas, o muro.

 

Afastando-se da depressão

 

Em uma ocasião, ouvi o que segue de uma senhora: “Tinha toda a certeza de ter vacinado meu coração contra essa doença que se chama amor. Agora estou aqui, apaixonada e apavorada. Por onde essa coisa passou que eu não vi?!”.

 

Roberto Menna Barreto compilou na obra Berlim – um muro na cara, lançado pela Summus Editorial, algumas frases que berlinenses escreveram ao longo da muralha erguida em meio à capital alemã. Alguém esperançoso da queda do muro escreveu: “No próximo século, eu vou tocar seu coração”.

 

O muro de nossas casas serve de parede para a garagem? Foi feito para proteger, pois em cima dele há cacos de vidro espicaçados? É um anteparo para os vizinhos não saberem o que se passa do lado de cá da piscina? O muro de nossa casa é um anexo no qual a treliça de madeira, enfeitada pela trepadeira encordoada de flores, adorna a entrada da casa? O muro serve para que todos saibam onde começa a propriedade? Nada temos a ver com o muro, pois, quando a casa foi comprada, ele estava plantado entre as árvores e é complicado remover suas pesadas pedras de granito? Ou o muro é onde os ganchos que seguram as redes se hospedam solidamente?

 

Alzheimer e nossa confusão conceitual

 

Alguns muros se tornam invisíveis precisamente porque cumprem a função de silenciar o que existe do outro lado, de separar; é parte de suas funções não chamar atenção sobre si mesmos, sob pena de promover indagações sobre o que de fato eles fazem ali, se o que existe do outro lado é tão ameaçador quanto ameaçador é o muro… O muro, conto de Sartre, conta os momentos finais de alguns sentenciados a morrer, suas reflexões diante do inevitável fim, cujo emblema se torna o muro. No entanto, a experiência do muro faz que pareça um outro fenômeno. Mas há muros pequenos, por vezes invisíveis, como o meio-fio das calçadas, o sinal que toca na escola anunciando que as matrículas estão encerradas, o cinto que aperta a cintura, o nó que oprime a garganta, a mão que empurra quem abraça, os lábios sem amor quando amor é para ser nos lábios.

 

Como identificar onde está um muro em nossa existência? Uma das formas é caminhar… rumo aos endereços que decidimos conhecer, habitar. Os muros funcionarão como marcações nas encostas,  estradas, vilas, como marcos de contenção, de proibição, de restrição, de jornada. Poderão surgir em forma de colinas, vales, pessoas, emoções etc.

 

Eu, o outro e todas as pessoas

 

Ao falar em muros existenciais, muitos imaginam o muro lá fora, plantado onde o pátio termina e a calçada começa. O muro é aquela coisa de ferro trançado e pedra. Poucos pensam que também nós somos, em várias oca- siões, muros. Muros não apenas para outros, mas para nós mesmos. Para a sociedade, para elementos estruturais, pessoas servem como balizamento, como linhas de demarcação, como muretas de avanços e paradas para leis, crenças, Ciência. Para a sociedade, pessoas também podem ser muros. Mas como pode uma pessoa ser uma cerca, murada, muro para ela mesma? Isso pode acontecer, por exemplo, quando a pessoa sente que já não necessita mais se alimentar naquele dia (aviso), quando a pessoa constata que deve se afastar imediatamente de algo (proteção, resguardo).

 

Com quais elementos são cobertos os muros existenciais? Observe que a rudeza de um muro feito de tijolos crus secados ao sol, adobe, parece amistosa com as heras que lhe sobem pelo dorso com suas gavinhas. Paredes rústicas de barro, areia e cal, entre taquaras adquirem tons íntimos quando na proximidade de cerâmicos povoados de pequenas flores. Justificativas, intenções, volições, caminhos são alguns dos elementos com os quais os muros costumam ser cobertos. Assim se tornam em parte obra de alvenaria, em parte ingrediente humano. Isso por vezes causa questões curiosas. Exemplo: a pessoa ergueu sua murada por razões estéticas e notou que o muro a deixava incomodada, não propriamente pela presença dele (ela apreciava seus tijolos envelhecidos lavados e enrugados pelas chuvas no tempo); incomodava pelo que afastava: os pequeninos animais silvestres que se serviam dos jardins do casario.

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia Clínica no Brasil. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel.

luciopackter@uol.com.br

Adaptado do texto “Com o que são cobertos nossos muros existenciais?”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 92