Repensando a crise política

Em meio à atual crise democrática no Brasil, a ação política pensada e construída a partir do princípio da pluralidade motiva o despontar para um recomeço por meio da promoção da liberdade

Por Rogério Luis da Rocha Seixas* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Em nossa atualidade, podemos nos referir a alguns diferentes tipos de crise: a crise econômica, a crise de valores, a crise educacional e, claro que não poderia estar ausente, a crise da política entrelaçada com a percepção de uma grave crise na estrutura democrática, principalmente quanto ao seu aspecto representativo, isto é, quando se percebe uma duradoura e preocupante crise das instituições ditas democráticas.

 

Neste contexto, Hannah Arendt (1906-1975) desenvolve um importante diagnóstico crítico, referente à crise da “ação política”. Esta pensadora faz o trabalho filosófico de “diagnosticar o seu momento presente”, não praticando um mero denuncismo, mas problematizando e concretizando seus fatores e elucidando os seus acontecimentos. A reflexão de Arendt apresenta outro ponto muito peculiar: ao pensar a crise, vislumbra-se sempre um novo começo. Um recomeçar que só por meio da ação política, dimensão da condição humana que mais o humaniza, sendo necessário por este motivo, pensar novas formas de ação política, visando principalmente a cuidar do mundo.

 

Hannah Arendt não se perde em abstrações ou meras impressões do sentido de “crise” como algo irreversível ou mesmo como uma visão negativa

Por não estar em mero isolamento, mas por compartilhar com outros homens o mundo em que habita, o homem o faz em plural. Para a autora, a política possui apenas um fim e este representa a manifestação da liberdade na esfera pública por meio da ação política dos homens em conjunto, pois como afirma Arendt: “Os homens são livres – diferentemente de possuírem o dom da liberdade – enquanto agem, nem antes nem depois; pois ser livre e agir são uma só coisa”. Todas as atividades da vita activa (labor, trabalho, ação) estão relacionadas com a política, mas a ação é a atividade política por si mesma. E a liberdade da ação política só pode ser mantida e protegida da violência política, que cala a voz dos homens em plural, se estes em conjunto mantiverem a esfera pública para agirem. E se podemos enunciar uma crise da ação política, partindo das análises de Hannah Arendt, esta se faz cada vez mais presente, não apenas e necessariamente em ambientes com pouca ou nenhuma abertura para a ação política, mas se indica a diluição da esfera pública, mesmo em ambientes que se identificam como democráticos e livres. Desse modo, pode-se perceber a noção de uma participação de cidadania radical, implicada com a ação política, marcada pela participação política como o elemento constituinte de qualquer comunidade política e democrática. Por este motivo, Arendt alerta que a política não é matéria apenas para políticos profissionais. Algo comum em democracias no geral, inclusive e principalmente a brasileira, que agora demonstra sinais de constituição de uma esfera pública cidadã, embora sob a égide de um “antagonismo do ódio”.

 

Hannah Arendt e a ralé

 

Arendt demonstra como a concepção de política e liberdade encontra-se implicada. Sendo assim, é na ação política que se encontra a liberdade. O sentido de agir denota a importância da ação política, aventando-se que o essencial da ação política reside na pluralidade para a constituição das esferas públicas, apresentando-se como condição de formação da própria sociedade. Alerto para um fator importante: o sentido de liberdade exposto aqui e relacionado diretamente com a ação política não se configura como uma essência própria da condição natural humana. A própria política não é algo dado, como comumente interpreta-se, mas se constrói e assim a liberdade é exercida quando surge abertamente. No espaço público “entre-os-homens”. Ora, partindo desta capacidade de ação plural dos cidadãos objetivando o reconhecimento de suas vozes na esfera pública, o exercício dessa liberdade corresponde ao poder. Como afirma a autora: “O poder corresponde à capacidade humana não somente de agir, mas de agir em comum acordo. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e existe somente enquanto o grupo se conserva unido”. O poder de agir em conjunto se baseia no direito de associação e requer a comunicação entre as pessoas no espaço público e, portanto, o direito à informação.

 

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*Rogério Luis da Rocha Seixas é doutor em Filosofia pela UFRJ e docente em Filosofia Política e Ética da UBM-RJ, pesquisador da rede de biopolítica, coordenada pela School of Humanities, University of New South Wales e School of Social Sciences, University of New South Wales.

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 117

Adaptado do texto “Maus momentos, novas possibilidades”