Relação entre nós e a tecnologia

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Nesta coluna, abordo um dos temas mais controversos da Filosofia da Tecnologia na atualidade: será que a automação está debilitando as habilidades cognitivas humanas?

 

Essa é uma questão antiga e ainda muito debatida pelos educadores. Anos atrás se discutia se alunos da escola elementar deveriam ter permissão para usar calculadoras nas aulas de Matemática, pois esses aparelhos poderiam prejudicar o aprendizado. Hoje em dia, a questão se centra no uso de notebooks, tablets e celulares em aula. Todos eles têm calculadoras, mas a preocupação é com o desaparecimento da caligrafia e com a perda do conhecimento da ortografia, que cede lugar ao uso de corretores de texto automáticos. Já existem, também, muitos aplicativos para orientar a redação. Será que, com o aparecimento dessas novas tecnologias, os adolescentes perderão algumas de suas habilidades? Como diz um ditado popular, “o que não é usado, atrofia”. Será essa dependência da tecnologia algo prejudicial ao ser humano?

 

Essas questões podem nos levar a dúvidas cruciais e até existenciais. Você viajaria em um avião intercontinental sabendo que ele é pilotado exclusivamente por máquinas? A ideia é assustadora. No entanto, na maior parte do tempo que um avião está em voo, ele é pilotado automaticamente. Pilotos humanos se encarregam apenas de algumas manobras, e a tendência é que eles se tornem caronas em seus próprios voos.

 

A ideia de um avião sem pilotos pode ser apavorante, e, no limite, se tornar até cômica. Quem não se lembra de uma das comédias mais populares dos anos 1980, dirigida por Jim Abrahams e os irmãos David e Jerry Zucker: Apertem os cintos, o piloto sumiu!?

 

Em muitas capitais mundiais, os trens do metrô usam condutores automáticos. Um carro com motorista automático já está sendo testado. Muitas pessoas relatam ter muito medo de andar nesse carro. Por outro lado, quase todas disseram, também, que ficariam mais à vontade para sair com os amigos, pois não teriam que se preocupar com a Lei Seca.

 

Mas voltemos à calculadora (agora no celular) nas mãos do menino na aula de Matemática. Ele não entenderia nada sobre os números que surgem na tela de seu dispositivo se não soubesse o que é adição, subtração e outras operações aritméticas. Em algum momento ele teve de aprender a natureza dessas operações. Ou seja, se por um lado as máquinas podem nos substituir em algumas tarefas, por outro temos a certeza reconfortante de que sempre poderemos fazer o que elas fazem. Em outras palavras, a qualquer momento poderemos aprender a pilotar um avião ou fazer as quatro operações aritméticas. Por isso, o temor de uma atrofia das nossas habilidades pela sua substituição mecânica progressiva não deve ser uma preocupação. A tecnologia pode nos substituir, e podemos até nos tornar dependentes dela por comodismo, mas nossas habilidades continuarão sempre existindo em potencial e serem retomadas quando nos convier.

 

Um dos pressupostos desse raciocínio parece ser que todos os inventos que substituem nossas ­operações mentais resultaram de uma criação exclusivamente humana e, por isso, sempre deteremos sobre eles pleno controle, garantido pelo conhecimento completo de como eles funcionam. Sempre haverá uma equipe, por menor que seja, que poderá ensinar os humanos a substituírem suas máquinas quando for necessário, sobretudo se o declínio das habilidades ­cognitivas humanas se tornar inaceitável.

 

 

Contudo, essa é uma meia verdade. Já faz algum tempo que os computadores se tornaram capazes de escrever a maior parte de seus próprios programas. Já delegamos essa tarefa, quase sempre demorada e penosa, às nossas máquinas. Por isso, estamos perdendo o privilégio de sermos os únicos seres capazes de gerar novas máquinas. Muitos programas gerados automaticamente são ininteligíveis e inimaginavelmente longos para nós. Muitas máquinas já podem gerar várias partes delas mesmas, e, com isso, uma boa porção da programação usada por elas pode se transformar, para nós, em uma caixa-preta. Como poderemos, então, replicar ou substituir a tecnologia que produzimos? E quais serão as consequências dessa situação para as futuras gerações?

 

Uma das consequências, que já sentimos hoje, é ingressarmos em uma era da competência sem compreensão, ou seja, uma era na qual as máquinas serão mais eficientes que nós. Não só perderemos o controle sobre elas como, também, deixaremos de compreender seu funcionamento, pois nossas habilidades cognitivas terão se atrofiado, pois nos dedicamos cada vez menos a aprender o que os softwares fazem. Um dos reflexos dessa nova situação é o desinteresse pelo conhecimento, que se tornou o maior problema enfrentado pelas escolas.

Tecnologia e qualidade de vida

 

Será que o homo sapiens entrará em declínio? Filósofos habituados a demonizar a tecnologia não hesitarão em concordar que suas novas formas têm um efeito deletério sobre a cognição.

 

Há também os utopistas, que apostam que a redução da musculatura mental do ser humano será compensada pelo aumento do tempo livre. Haverá, então, uma janela na história que permitirá às pessoas se dedicarem à cultura e às artes.

 

Mas, será isso possível? Quando estou em um avião (provavelmente navegando no piloto automático) só vejo pessoas diante de seus computadores, alguns exaustos, mas ainda trabalhando, e outros jogando video games.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 102

Adaptado do texto “Os pilotos sumiram!”

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org