Razão e fé em diálogo

Como viver em um mundo onde aqueles seguem uma crença ou religião geram discórdia?

Por Bernardo Veiga* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Parece absurdo que aqueles que pregam uma religião do amor consigam disseminar violência. Porém, não temos aqui uma postura de oposição à fé, pelo contrário, mas ela pode ser mal direcionada ou deturpada por posições ou comportamentos contrários aos seres humanos. Então, o que fazer? Como lidar com possíveis manipulações de discursos destrutivos em nome da fé? É possível manter um diálogo entre a fé e certos princípios racionais? Para tentar responder a essas perguntas, vamos considerar a posição de Tomás de Aquino, um pensador que buscou uma comunicação harmônica entre a razão e a fé.

 

Inicialmente, vamos expor como é possível, do ponto de vista das proposições, que haja uma abertura entre razão e fé. No século XIII, existia uma posição atacada por Tomás, chamada de averroísmo latino, que defendia que a fé e a razão possuíam caminhos paralelos, de modo que poderiam expressar coisas contraditórias e o que crê conviveria tranquilamente com essas posições, ignorando as implicações lógicas desse discurso. Por exemplo, na época, uma das grandes questões discutidas era sobre a eternidade do mundo. Alguns defendiam, segundo o raciocínio de Aristóteles, que o mundo era eterno, porém, pela fé cristã, defendia-se que o mundo foi criado, portanto teve um início, não era eterno. Dessa forma, essas posições são explicitamente conflitantes, ou o mundo sempre existiu, conforme a argumentação aristotélica, ou foi criado, segundo a fé. Mas no averroísmo latino, o crente poderia conviver com essa contradição, como se toda suposta oposição entre a fé e a razão devesse ser ignorada, ou aceita sem nenhuma objeção. Assim, não poderia haver um diálogo entre razão e fé, pois ambas estariam como em mundos paralelos, independentes, e não precisaria haver nada de objetivo comum às suas proposições.

 

Porém, o Aquinate, como também é conhecido Tomás, tinha uma posição diferente. Defendia que não era possível que a verdade da razão natural fosse contrária à verdade da fé, porque em última instância, se assim fosse, haveria uma contradição em Deus, que teria dado a razão e a fé aos homens. É necessário, então, buscar criativamente soluções para aparentes contradições, definir bem os termos, e considerar que não é possível absolutamente existir contradição, pois mesmo que fé e razão tenham, nos seres humanos, origens diferentes, natural e sobrenatural, não existem dois mundos, mas um só sobre o qual elas tratam. Portanto, ao considerar as visões opostas acima, de que certos argumentos racionais iam contra a fé da criação do mundo, Tomás diz que o mundo, de fato, é eterno, o que inicialmente satisfaria as opiniões dos aristotélicos, porém essa eternidade só se daria na mente divina, e então o mundo foi criado. Com isso, ele busca conciliar parte da visão aristotélica com a concepção de criação do mundo.

 

 

Questões

Podemos considerar outros problemas atuais, como a distinção de o mundo ter existido em conformidade literal com o texto bíblico, que alguns calculam em mais ou menos 6 mil anos, e uma interpretação baseada em fósseis antigos e testes químicos, que diz que a Terra teria muito mais do que seis mil, até mesmo mais de milhões de anos. E com isso teríamos um dilema, ou a razão está certa, ou a interpretação literal bíblica. Uma possível solução, baseada na harmonia proposta por Tomás, entre fé e razão, e se considerarmos a validade dessas pesquisas científicas, poderia ser uma interpretação a partir do gênero literário bíblico, de modo que, quando não é possível sustentar, por uma contradição explícita e absoluta, algo literalmente na bíblia, poderia haver uma interpretação metafórica de certos trechos, de modo que, por exemplo, os seis dias da criação poderiam simbolizar um período de seis eras. Até porque a bíblia não tem a pretensão de ser um livro estritamente científico. Nesse sentido, a razão pode auxiliar a compreensão daquilo que é próprio ou não à fé.

 

Assim, para esclarecer a posição de Tomás, para ele, há proposições que são atingíveis pela capacidade humana, independente de a pessoa aderir a qualquer credo. Desse modo, cristãos, judeus e muçulmanos poderiam aceitar determinadas afirmações sobre certas posições, por exemplo, sobre o mundo, as virtudes humanas e a atividade contemplativa. Contudo, há uma dimensão que está além das afirmações acessíveis pela razão, que apenas os que têm fé a aceitam; e, ainda que não sejam contraditórias, elas não são demonstráveis por si. Sobre elas “é impossível que a ciência seja possuída por algum homem, pois, antes, qualquer fiel assente às coisas desse tipo por causa do testemunho de Deus, pelo qual essas coisas estão presentes e são conhecidas”. Dessa forma, em um diálogo, é necessário ter em conta uma parte que seja comum aos interlocutores, e uma parte distinta, para que haja verdadeira troca e comunicação. A primeira o Aquinate a coloca como acessível a qualquer pessoa que usa racionalmente o seu intelecto, e a outra é da singularidade da fé que, mesmo que tenha suas particularidades de exceder os limites da demonstração, não é absolutamente contraditória.

 

Dessa forma, é necessário distinguir aquilo que é essencial à fé e aquilo que lhe é acidental e com isso estabelecer um limite até onde é possível ceder para desenvolver um diálogo. Nessa visão tomasiana, a harmonia entre as duas impele a uma busca de delimitar proposições compatíveis, sem descurar a destreza própria da razão e aquilo que é principal para a fé.

 

Para conferir o texto na íntegra garanta a edição 129 da revista Filosofia Ciência & Vida aqui!

Adaptado do texto “Razão e fé em diálogo”

*Bernardo Veiga é doutor em filosofia pela UFRJ (2016), realizou o pós-doutorado em filosofia na mesma instituição e é pós-doutorando em direito pela UCP (bolsista Capes). Coordena dois projetos de tradução de obras inéditas de Tomás de Aquino: “Questões disputadas” e “Tomás, comentador”. Também é autor dos livros: A ética das virtudes segundo Tomás de Aquino (Ecclesiae, 2017) e É impossível o diálogo inter-religioso? (IBFCRL, 2009).