Razão e emoção

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock |Adaptação web Caroline Svitras

Kinia ama uma pessoa que a maltrata, desfaz dela, promove joguinhos torpes, usualmente trai. Os amigos pedem a Kinia para que se afaste. Mostram a ela o quanto está padecendo nesta relação. Kinia concorda, admite que o razoável é evitar danos maiores. Neste mesmo tempo, o coração de Kinia objeta. O amor que ela experimenta a impede de um afastamento.

 

Colocado desta forma, quem decide um embate de tal natureza? Razão? Emoção? A razão de Kinia argumenta que a pessoa não vale sequer o sofrimento que ocorre. A emoção chama ao perdão, a compreender. Intui que muitos se modificaram pelo amor que receberam.

 

Em muitos âmbitos, razão e emoção não se conciliam, não se misturam, não conversam, ao menos em questões essenciais. Se em Kinia este embate é significativo, se existe um equilíbrio de forças, um esparrame para áreas da vida da moça pode ocorrer; às vezes, um dos vetores, como as emoções, ganha robustez e decide o que está em andamento. Para cada pessoa provavelmente será diferente. No entanto, há tendências, inclinações maiores em alguns casos. É oportuno que se considere, nesta primeira aproximação, que fatores cruzados possam ocorrer.

O que define nossa humanidade

 

Racionalizar as emoções não quer dizer necessariamente que elas serão vividas penteadas, no sofá, ao abrigo dos tempos de chuva. Algumas racionalidades simulam estados afetivos, são passionais. E temos combinações curiosas e episódios nos quais peculiaridades transitam, nos quais coisas como a emoção consegue acalmar de modo cartesiano razões contraditórias. Para o ajuste de um relógio mecânico e de suas delicadas peças: razão. Para o carinho com a pessoa amada: emoção. Será que é assim mesmo?

 

A filha está confusa entre fazer o mestrado ou uma gravidez. A mãe diz a ela: “siga seu coração”. Mas para algumas pessoas o coração tem apenas 9 anos, quando deveria andar pelos 30 ao menos. É infantil, mimado. Por que mereceria receber crédito em questões que pedem maturidade? Resposta: seletividade. Em algumas áreas, a acuidade e o conhecimento conferem ao coração a primazia sobre o que fazer; em outras áreas, não. Em alguns casos, a mãe, conhecendo a estrutura de pensamento da filha, poderia dizer: “deixe sua emoção longe deste assunto!”.

 

No entanto, existem pessoas que utilizam “emorracionalidades”, umas mesclas indistintas de elementos afetivos com outros elementos de racionalidades. Resultados curiosos são então admitidos.

 

O profano no campo do sagrado

 

William Paley foi um teólogo inglês que em 1802 justificou a presença de Deus com a analogia do relojoeiro, um argumento teleológico. Uma adaptação livre: uma pessoa encontra em uma enseada, no lago, um relógio. Um pequeno relógio próximo a uma planta arbustiva. A pessoa conclui que algo assim tão complexo somente poderia ter sido criado por Deus, pois o lago e os arbustos não sabem construir relógios; ou alguém perdeu o objeto ali. Por semelhança, também o Universo, muito mais intrincado e complexo, não nasceria de poeira e ­pedregulhos soltos aleatoriamente. Um relógio não se constrói por si mesmo, é óbvio; o Universo, bilhões de vezes mais afanoso, operoso, evidentemente exige a mão de um relojoeiro como Deus.

 

Paley estaria errado? Não se trata disso. Estamos ilustrando os eventos que podem ocorrer ao mesclarmos razão-emoção em porções difíceis de mapear. Do ponto de vista estritamente lógico, a argumentação de Paley se complica; do ponto de vista estritamente emocional, a argumentação de Paley se complica; mas quando misturamos formando um amálgama, isso ganha outras derivações.

 

Exagero meu argumento lógico apenas no intuito de caracterizar uma questão muito comum em consultório: a razão pode se apresentar vestida de emoção; a emoção pode se apresentar trajada de razão. Sem o exame apropriado de historicidade e estrutura do pensamento, isso pode levar terapeuta e partilhante a danças em armadilhas conceituais.

 

O problema provável é que a tradução (semiose) nesses casos encontra obstáculos e descaminhos curiosos, além de construir elementos e derivar funções. Muitas inadequações costumam então ocorrer.

 

O segredo da filosofia oriental para a felicidade

 

E quando razão e emoção são posteriores ao que vai em andamento? Quando entram para confundir e promover novos sintomas? Um exemplo, escrito por Bertrand Russell: “O homem dividido contra si mesmo procura estímulos e distrações; ama as paixões fortes, não por razões profundas, mas porque momentaneamente elas lhe permitem evadir-se de si próprio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar. Toda a paixão é para ele uma forma de intoxicação, e desde que não pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxicação parece-lhe o único alívio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, é o sintoma duma doença de raízes profundas. (…) A felicidade que exige intoxicação de não importa que espécie, é falsa e não dá qualquer satisfação”. Assim era para Russell. Não é assim para todos. A ideia aqui foi ilustrar um caso no qual as coisas vão longe, quando razão e emoção entram em certo assunto, as dubiedades e paradoxos em andamento as levam em redemoinho para situações dilemáticas outras.

 

Em diversos segmentos, o caminho não pode passar por razão e emoção. Elas pouco podem auxiliar.

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br