Quanto você é?

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Há quem se considere assim: trabalhou 10 anos na Gerdau; 3 horas para chegar à praia aos domingos; 8 quilos acima do peso; 5 anos para se aposentar; a filha tem mestrado, fala inglês; comprou uma TV de plasma; IPTU é roubo; tem casa própria. E, na maior parte das coisas que vive, o “quanto” é importante; não tem uma conta certa, mas sabe aproximadamente “quanto vale” por se traduzir em números relacionados ao que fez, ao que faz, ao que sentiu. Amor, bem-estar, experiências possuem como fundamento e validação valores traduzidos em números, ainda que outros elementos participem. Esse é um primeiro exemplo sobre quanto uma pessoa é na versão dela para ela mesma. Para cada pessoa os vetores variarão.

 

“Quanto você é?” Imagine que por questões de autoestima, entre outras, a pessoa aceite e  desenvolva um fator que a promova enormemente no “quanto”. Isso parece promissor, razoável, indicado? Entender que vale muito, atrelar a própria vida a um valor de quantidade? Entre os possíveis problemas, em uma sociedade repleta de indexações flutuantes como a nossa, ao proceder daquela forma, esta pessoa pode se comportar como quem “vale” 100, enquanto o “mercado existencial” lhe confere apenas 15. O que acha que acontecerá, então?! Há problemas complexos também, pois a existência da pessoa pode passar a ser analisada e direcionada por um “mercado de ações existenciais”, uma vez que ela mesma inseriu sua vida em tal mercado; fez essa inserção quando começou a se considerar existencialmente pelo crivo do “quanto sou”.

 

Tornou-se, de certo modo, produto, coisa. Está sob as leis do mercado. Não é raro que pessoas assim tragam ao consultório questões típicas de um vendedor de automóveis que precisa negociar um carro antigo em mau estado; elas passam a reclamar dos valores e dos critérios do mercado, mas raramente se dão conta de que criaram e de que promovem a manutenção deste mercado. Como fazem isso? Fazem, por exemplo, reclamando dele, procurando “negócios” mais justos, segundo o que consideram justiça. A maioria parece não entender que se trata de uma guerra perdida. Poucos parecem sair contentes de tal batalha. Quem assina isso? A história e a historicidade da humanidade.

 

Virtual e real, sem separação

 

“Quanto você é?”. Observe um cálculo ilustrativo; o rapaz pega um lápis e papel e anota: deixo de ir ao boliche para estar com a minha namorada + sou fiel, mesmo podendo não ser + vou sempre até a família dela, quase nunca estou com a minha + gasto quase tudo o que ganho comprando coisas para casa + aguento desaforos dela = ela me deve muito. Ou seja. “Quanto ele é” para ela = ela me deve muito. Dificilmente a conta realizada por ela, a namorada, terá as mesmas variáveis e o mesmo resultado. Não é uma regra, mas raramente no “mercado existencial” temos uma moeda única; e a troca de moedas é usualmente problemática. Pergunta fundamental e reveladora: qual é o motivo de fazer tais contas? Elas indicam, explicam e mostram quais caracteres sobre a pessoa que usa mecanismos de “quanto sou”.

 

É amplo, mas não universal, que quem entra no “quanto sou” do mercado existencial apresente sintomas. Quais provavelmente seriam os sintomas? Disputar cabos de guerra em várias frentes, tornar-se cético, passar a sofrer de sintomas como rancor, mágoa, inveja, ciúme, medo, ansiedade, caça a miragens, comer e dormir, stress, mentiras desnecessárias (quase sempre em forma de justificativas), visão de ave de rapina sobre as coisas em geral, seriam alguns possíveis sintomas?

 

Certa ocasião, falando sobre esse assunto em uma aula, uma aluna perguntou se não teríamos também aspectos bons, positivos. Respondi a ela que esses aspectos citados eram os bons, os positivos… “Quanto sou?” deveria ter chegado à pele, aos sentimentos, à alma, à vida? Por que não ficou restrito a coisas como um quilo de feijão? Como foi mesmo que chegou ao quilo de feijão?! Como chegou a áreas da vida nas quais isso ocasionaria dilemas dolorosos? Por que isso foi permitido?

 

Entenda a ideologia por trás da moda

 

“Quanto você é?” Vamos a exemplos de quando se é pelo “quanto”, coisas que podem ocorrer. A menina se decepciona ao sair com o rapaz, fica sem jeito, pois ele aparece em um Ford Fiesta 2008; o rapaz desiste do belo colar de pérolas, ao saber que se trata de bijuteria que é adquirida na barraquinha do camelô por quinze reais; a garota declina de ir à festinha com as amigas porque não tem um sapato novo; o jovem se irrita porque o amigo incompetente ganha três vezes mais do que ele, fazendo a metade do serviço; implica com o garçom porque a conta veio um pouco acima do esperado, sente que está sendo roubado; acha certo se aposentar aos 55 anos, afinal começou a trabalhar aos 13 anos, e não quer saber de onde vem o dinheiro da aposentadoria, pois o merece… e os exemplos seguem em muitos sentidos e direções. Upton Sinclair tinha uma frase: “É difícil conseguir que uma pessoa entenda algo quando o seu salário depende de que não entenda”.

 

Um médico brasileiro ganha quatro vezes menos do que um médico norte-americano. Professores, publicitários, dentistas e outros ficam na proporção dos 4 por 1, sem falar na gama de benefícios que vão da segurança ao modo de vida. O que aconteceria se o nosso valor não dependesse dos nossos salários, dos nossos feitos, das nossas inteligências? O que aconteceria se fôssemos amados, compreendidos, aceitos e considerados pelo simples fato de existirmos? Seria possível? Utopia? Bem, e viver indexado a “quanto sou” não é utopia nociva?

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel.

luciopackter@uol.com.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 91