Quando o sentido é subvertido

Por Daniel Borgoni* | Fotos Divulgação e 123RF

 

O consumismo, isto é, a compra exagerada, a acumulação irrestrita e a substituição precoce dos bens de consumo é uma marca da nossa sociedade. A sedução e o efêmero orientam a frenética renovação do que existe e a criação de novas necessidades. Entre outros problemas, essa dinâmica gera a exploração predatória dos recursos naturais, o sofrimento dos animais não humanos, a naturalização do desperdício e a supressão da singularidade do indivíduo.

Conforme Gilles Lipovestky, em A Felicidade Paradoxal, a mentalidade consumidora atual infiltrou-se nos relacionamentos, na espiritualidade, na política e até na ordenação do tempo disponível. Assim, de modo geral, as pessoas têm suas vidas mercantilizadas, isto é, orientadas pelos princípios e lógica do mercado. Portanto, não é de se estranhar que elas busquem nos bens de consumo, dentre outras coisas, a resposta às suas questões existenciais.

Uma característica do ethos consumista atual é o que Lipovetsky denomina consumo experiencial. Três dos seus aspectos são: 1) a busca por aventuras em locais que prometem o inesperado sem abrir do conforto e da segurança; 2) a procura por sensações novas nas mercadorias; e 3) a conquista da harmonia interior sem esforço e de modo imediato. Entretanto, os produtos e serviços que se enquadram nesse tipo de consumo, quando não esvaziam o sentido do que é vendido, o subvertem. Para mostrar isso, devemos pensar a razoabilidade destes para além do viés empreendedor-consumista. Vejamos alguns exemplos.

Creio que todos já fizeram ou ouviram falar em piquenique. Pois bem, na cidade de São Paulo uma empresa pretende vender essa experiência sem inconvenientes e sem preocupações. Ela oferece ao cliente um ambiente com paredes decoradas, um teto feito com guarda chuvas, algumas mesas de madeira postadas sobre uma grama artificial, e a cesta de alimentos é fornecida pela própria casa. Mas será que este serviço entrega o que promete?

Neste espaço não precisamos planejar nada, não tomaremos uma eventual chuva, estaremos mais protegidos de um assalto e sequer nos preocuparemos com formigas que podem nos picar. Porém, é fato que isto subverte a experiência do piquenique, na medida em que a empobrece e a reduz enormemente. Ora, a graça do piquenique está nas descobertas que um ambiente não controlado proporciona, no planejamento do que levar, no pé na terra ou na grama real, enfim, é o contato com a natureza. Colocando de outra forma, esse tipo de serviço subverte a aventura real, pois o sentido desta conflita com o que é controlado e seguro. Desse modo, este não passa de um simulacro.

O segundo aspecto do consumo experiencial é refletido pela onda gourmetizadora, que chegou à pipoca! A sua versão gourmet tem diversos sabores, vem dentro de latas decoradas e custa bem mais que a convencional. É interessante notar que a criadora de uma destas marcas diz em sua página que pensou-se em proporcionar ao freguês uma experiência diferenciada não só na pipoca, mas por meio de uma embalagem que envolve e encanta o cliente.

Embora especiarias tenham sido adicionadas e a apresentação da pipoca seja diferente, isto não é razoável. Primeiramente porque você vai consumir um produto que não é fresco, pois não é feito na hora, e ainda vem frio. Além disso, ao criar-se uma atmosfera mágica em torno da pipoca, vende-se algo que esta não pode entregar, pois os signos e imagens a ela associados excedem as suas qualidades efetivas. Mais que isso, a versão gourmet não é superior à convencional, ela é apenas diferente. Desse modo, como na maioria dos produtos gourmetizados, o conceito excede o produto.

O mercado também atende àqueles que querem a solução dos seus conflitos e conforto psíquico de modo rápido e fácil. A proliferação dos livros de autoajuda nas livrarias, onde ocupam muitas prateleiras e tem um lugar de destaque, é um exemplo disso. Em geral, duas são as ideias implícitas nestes: a) receitas de felicidade e sucesso podem ser compradas e; b) seguindo o ensinamento destes livros, o sujeito, por meio da sua vontade, vai saber lidar e solucionar os problemas que o atingem.

Talvez os manuais de autoajuda sirvam como paliativos, porém, eles não podem entregar o que prometem, pois esquemas prontos não podem responder a singularidade do indivíduo. Pior, ao venderem a ideia que a conquista da felicidade só depende do leitor, eles desconsideram que o sujeito está imerso num contexto onde existem variáveis que atuam em sua vida e que não podem ser controladas. Por fim, estes não podem fornecer à pessoa a simbolização, o fortalecimento, etc, condições psíquicas necessárias para que ela consiga enfrentar as suas questões existenciais.

Em parte, o consumo experiencial explica-se como um sintoma de uma sociedade que almeja a euforia perpétua, legitima os simulacros publicitários, festeja toda e qualquer novidade mercadológica, quer saúde física e mental rapidamente e sem esforço, enfim, que procura a razão do seu existir no mercado. Contudo, vimos que estes produtos e serviços não têm razoabilidade, tendo em vista que, se apropriam de atividades e ideias e as subvertem, espetacularizam o banal, e vendem a falsa ideia que a felicidade pode ser comprada. Isso evidencia o empobrecimento subjetivo e a heteronomia do sujeito nestas relações mercantis.

 

 

*Doutorando em Filosofia pela Unifesp com bolsa da Capes. Autor de diversos artigos nesta e em outras revistas. Contato: dborgoni@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 120

 

 

 

 

 

 

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