Qual o tamanho do mundo?

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O mundo de Tarcísio consiste em seus pensamentos sobre seus negócios e as dificuldades econômicas do País; suas idas e vindas ao trabalho; seu time de futebol; a vida em família. Raramente se afasta do habitat de seus pensamentos, de suas ocupações diárias, raramente se afasta do estritamente habitual.

 

– “Minha vida inteira, meu mundo caberia em uma vila daquelas com poucas ruas e pessoas. Bastaria acrescentar ansiedade, preocupações sempre, estresse” – afirma Tarcísio.

 

Como pode o mundo de Tarcísio ser assim tão pequenino, uma vez que ele reside em uma grande cidade, navega na internet com frequência, lê notícias e as discute. Como pode ser pequenino seu mundo? Tarcísio caminha por uma rua florida, outonal, com sacadas, crianças, um parquinho, sol e nuvens. Mas ele vivencia calçada, pensamentos com o escritório, ansiedade e o relógio que lhe avisa o atraso. Ele sabe que existe o Japão, a lua, as estrelas, sabe também que ao redor de seus passos há vidas microscópicas e macro… como as acácias. Mas esses e outros elementos são apenas distantes, pálidas referências para Tarcísio. Tarcísio estaria condenado ou apenas habituado a um mundinho muito pequeno?

 

A uberização da vida

 

No consultório, algumas pessoas lançam conjecturas quando tratam de paragens que vão além do mundo que edificaram: “como seria morar na Espanha sem conhecer nada, sem saber como são as coisas lá?”. É compreensível que os limites dos mundos de cada pessoa alcancem pequenas expansões e retrações, modificações, ao longo dos dias. Alguns poucos se aventuram nisso. Existem enormes variações e possibilidades. A pessoa pode chegar à Espanha e descobrir que o novo mundo era somente o prolongamento das coisas que havia nela, em seu mundo. Existiria uma recomendação sobre expandir as fronteiras de um mundo pessoal? O que acha? Se o seu mundo vai conforme suas premissas, seu caminhar, talvez usufruir o que tem se torne mais interessante do que prosseguir rumo a uma nova via marítima para as Índias. Mas e se usufruir significar precisamente expandir?!

 

Como cada pessoa lida com o que existe além de seu mundo pessoal? Teme, admira, imagina, deseja… etc.? Havia uma praça próxima à pequenina ponte do Rialto. Os venezianos chegavam ali para ouvir o que Marco Polo, seu pai e seu tio tinham para contar naquela Veneza de 1295. Quase 25 anos antes tinham partido e agora retornavam irreconhecíveis. Marco, Niccolo e Matteo apareciam em casa vestidos com farrapos. Os familiares pensavam que estavam mortos há muito. Dentro das vestimentas miseráveis, safiras, esmeraldas, rubis… E histórias imensas sobre os outros mundos. O mundo de uma pessoa pode retrair, encolher, enquanto a pessoa acha que está expandindo, crescendo? E isso pode acontecer sem que a pessoa saiba? Sim, isso acontece. Mas, em tal caso, como alguém que está diminuindo, talvez desaparecendo, ignore o fato? Como pode não reconhecer?

 

Há diversas explicações. Uma delas é que o barulho, o brilho, a efervescência, os calores dos eventos da vida podem mascarar o que se passa de fato. Não são poucos os que sucumbem logo após um brilho efêmero no qual o apogeu era a própria agonia. Em outros sentidos, o aparente encolhimento pode encobrir o fulgor de um novo fôlego para um desenvolvimento maior. Estas e outras lições podem trazer ensinamentos importantes. Observe que tais eventos podem ocorrer em experiên­cias complexas.

 

Sonhar novos modos de ser

 

Yanni nasceu amanhã sabendo que há coisas que pedem o cuidado dos momentos. Não podem ocorrer antes ou depois. Por vezes, delicadamente, ocorrem no durante.

“Coisas que se passam no ´durante´ podem mostrar-se em beleza e vida enquanto ocorrem. Elas não são o agora, não são o depois, não são o que foram, ainda que isso tenha sido parte delas” – diz a menina que nasceu amanhã.

Yanni disse amanhã que entendeu um dia, alguns anos antes de nascer, que em mundos similares ao nosso é usual que os aspectos vivenciados na intimidade, como elementos de identidade, tornem-se a interpretação da pessoa para as coisas do mundo.

– Mais ou menos como disse Schopenhauer? – perguntou a ela um filósofo.

E Yanni respondeu que somente conheceria Schopenhauer em breve. Yanni e uma anciã conversavam em uma enseada, em uma aldeia fora da zona mediterrânea. A anciã lamentava que estivesse morrendo sem nunca ter encontrado um pezinho de lavanda que fosse.

A menina disse que havia visto, em 2019, uma linda planície coberta de lavandas. Explicou para a velha senhora o que lembrava das plantinhas, contou muitas coisas, longamente.

– Uma planície, um lago de lavandas! Quando a brisa vinha, o perfume se espalhava até o início das colinas.

– Elas eram azuis?

– Eram azuis, eram violeta. O sol iluminava algumas partes da planície e as pequenas lavandas mudavam os tons. Havia matizes lindas.

– Sim, eu as vejo…

A anciã conheceu, assim, as lavandas, sentiu o perfume que exalavam, o modo como existiam nos campos.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 106

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br