Qual a função da escola em tempos de internet?

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Mais uma vez me afasto dos temas tradicionais da Filosofia da Mente para falar da internet. Creio que ela é uma tecnologia fascinante e assustadora, e essa ambiguidade ainda não nos permitiu avaliar claramente suas consequências.

 

Podemos começar com algo que está diante de nossos olhos, mas que ainda custamos a aceitar. A internet implodiu a escola tradicional. Isso já foi dito por muitas pessoas e de várias maneiras, mas é um fato com o qual a maioria das pessoas ainda não se conforma. Do primário até a universidade, as escolas são organizadas em salas de aulas, nas quais os alunos se sentam enfileirados, uns atrás dos outros, e o professor fica na frente, falando e exigindo silêncio. É um velho modelo, herdado do início da Revolução Industrial, no século XVIII. Naquela época, a educação era para poucos e só as pessoas muito ricas podiam pagar professores particulares para educar seus filhos. A escola com salas de aula foi uma das primeiras tentativas de universalizar a educação básica. Mas, será esse formato ainda necessário?

 

Em tempos de computação ubíqua, com informação on-line disponível em qualquer smartphone ou tablet, já não faz muito sentido estabelecer um lugar fixo para acessá-la. Paradoxalmente, a sala de aula se tornou um dos poucos lugares nos quais é proibido acessar informação on-line, cabendo ao professor transmiti-la. Tudo se passa como nos tempos em que havia escassez de informação. E se hoje em dia a escola está cada vez mais desorganizada e os professores desvalorizados, isso ocorre porque ela se tornou uma instituição que parece contrariar os próprios objetivos. Por que passar horas preso a uma carteira, ouvindo alguém repetir informações disponíveis no Google? Pior ainda é saber que essas informações serão exigidas em testes, meses depois, e que quem não se sair bem neles não conseguirá uma vaga na universidade. Em outras palavras: saiba o que seu smartphone sabe; caso contrário você não será aprovado.

 

A internet lançou o maior desafio aos professores do qual se tem notícia até hoje. Como ensinar em uma sociedade na qual há hiperabundância de informações? Reagir contra a tecnologia insistindo em métodos tradicionais está nos rebaixando às máquinas criadas pelos seres humanos. O tiro dos humanistas sai pela culatra.

 

Foto: Reprodução/coolage.in

 

Não faz muitos anos, lecionei um curso de Lógica, considerada uma das disciplinas mais difíceis do curso de graduação em Filosofia. A prova final foi tensa, difícil. Não bastasse, no dia da correção precisei contar a verdade: há programas de computador, já disponíveis na internet, que resolvem problemas de Lógica melhor do que nós, da mesma maneira que calculadoras somam grandes cifras sem errar.

 

Nunca presenciei tanta indignação. Qualquer um, com toda razão, se sentiria humilhado ao saber que mal consegue imitar uma máquina. Ponderei, então, que nosso tempo teria sido mais bem utilizado se, ao longo do curso, estudássemos como esses programas são elaborados e o que poderíamos fazer para melhorá-los. Compreenderíamos melhor como funciona o pensamento humano e as estratégias que já foram inventadas para simulá-lo. Ou, em outras palavras, tornar as máquinas com as quais interagimos, diariamente, um pouco menos opacas.

 

Viver em uma sociedade com hiperabundância de informações nos coloca uma questão ainda mais difícil: o que ensinar? O que as pessoas esperam aprender ao ir à escola? Uma resposta imediata nos vem à mente. As pessoas precisam aprender não apenas a buscar informações como também a selecioná-las em meio à avalanche que qualquer pesquisa na internet retorna. De que nos adianta saber que uma mosca pode voar mais de 50 minutos antes de cair exausta? Vale a pena memorizar essa informação? Isso significa construir critérios de relevância, coisa que ainda falta às máquinas.

 

Jamais afirmaria que as pessoas não devem ir à escola. Certamente, há coisas que precisamos aprender, que precisamos exercitar com a ajuda de um professor para ganharmos uma musculatura mental que nos permita, ao longo dos anos, avançar no estudo com nossas próprias pernas. Mas não concordo que as escolas se limitem a ser estacionamentos de crianças nos quais se decora informação disponível na internet.

 

Recentemente, assisti a um programa de televisão no qual um senhor indiano propunha o uso da internet para filmar aulas de disciplinas básicas. Lamentei o fato de que ele esteja certo quanto à necessidade dessa estratégia para que o conhecimento chegue a lugares distantes do planeta nos quais não há escolas nem professores. Mas sabemos que filmar aulas tem o inconveniente de reproduzir a passividade com a qual o conhecimento é recebido na escola tradicional. Filmar aulas é fazer justamente o inverso do que a escola pode nos proporcionar, ou seja, a convivência e a discussão imprevisível da qual pode surgir algo criativo. Esse é o bem maior da escola tradicional, o seu benefício insubstituível.

 

Há muitos anos, uma amiga me presenteou com um manual de macrobiótica. Como não sou afeito a dietas, abri em uma página, ao acaso, e deparei-me com a afirmação: “O papel da escola é fabricar gramofones”. Livro antigo, é claro, pois gramofones estão, hoje em dia, em museus. Mas, escrevendo essa coluna, essa recordação me veio à mente, e pensei: uma escola que não forma gramofones deve ser um grande incômodo para governos autoritários.

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

www.filosofiadamente.org

Adaptado do texto “Paisagens da internet (parte II)”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 95