Produtividade X Metas Alucinadas

Como falar de produtividade em uma era de alucinada produção e interatividades?

Por Luz Maria Guimarães* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Produtividade e metas alucinadas

Hoje encontrar alguém que não tenha os três turnos ocupados é raridade, seja em função de trabalho, estudo, especializações e super especializações. É como se o mercado exigisse muito mais de nós, já tão exigidos como indivíduos.

Não basta trabalhar, chegar em casa e assistir Netflix com nossas pantufas. Existe uma imposição de ter resultados excelentes como profissionais, estar em constante processo de atualização, ir na academia, no cinema, fazer viagens, falar outra língua, ler muito, entre outras tantas demandas pessoais, ufa, que cansaço.

Até o nosso momento de lazer se tornou uma tarefa a ser cumprida. Lembro de um colega de trabalho, anos atrás, que tratava as atividades rotineiras como um check list, tomar banho (ok), estudar (ok), trabalhar (ok), assitir tv (ok).

É como se a sociedade tivesse transformado tudo em um produto passível de ser consumido. Assim, um curso de graduação deixou de ser uma escolha por aptidões, mas uma necessidade, o mestrado, o MBA, o inglês fluente, a viagem para a Europa… todos eles itens em uma grande prateleira de um wallmart qualquer, ao alcance do desejo de todos.

E a corrida não pára, conquistado, ou ainda, riscado um item da lista, já temos outros a cumprir, e ai de quem não conseguir alcançar um destes itens. Qualquer curso feito há mais de dois anos está defasado, e lá vamos nós atrás de mais estudo para engordar o currículo lattes, de EADs porque não queremos sair de casa, de uma lareira, porque afinal vamos ficar em casa mesmo, assim como uma máquina de café expresso e uma adega climatizada, entre tantas outras facilidades modernas.

Talvez, o que não é percebido, é que esse “mercado” que impõe tamanhas exigências, não existe como um ser em si, mas é sim reflexo de nossas próprias ansiedades.

Em um mundo onde nada é o bastante, a atividade alucinada surge como uma válvula de escape contra a reflexão, e o resultado acaba sendo justamente o oposto, como quem enxuga o gelo, fazendo as atividades por fazer.

Quanto menos refletimos sobre o que realmente faz diferença nas nossas vidas, menos resultados temos. Quem trabalha muito, gasta muito, como uma cobra que engole a si própria, sem refletir sobre as decisões e os caminhos que estão (não) sendo escolhidos, somente seguidos com a coletividade.

Claro que esse processo circular faz parte da própria estrutura econômica que estamos inseridos, valorizando o “ter” em detrimento do “ser”, onde o consumo é priorizado, e para consumer mais, devemos produzir mais.

Padrões da sociedade sobre a produtividade

E se, por acaso, alguém não se encaixa na dita “normalidade” da busca alucinada por mais, é apontado como louco, como acomodado, ou qualquer outro comportamento desviante.

Em tempos de aparente aceitação das diversidades, não se engane, uma fina casca de tolerância esconde camadas profundas de ódio contra o outro, contra o diferente.

É o discurso polido que inicia da seguinte maneira “não tenho nada contra, mas…”, e o que vem após este mas é a fala da normatização, seja ela profissional, sexual, ideológica, entre tantas outras.

Em função de uma formação como terapeuta em Filosofia Clínica, e um certo trânsito pelos ambientes terapêuticos, que no meu entender não diferem muito dos ambientes empresariais, somente o cenário é outro, tenho por hábito a escuta como instrumento de trabalho. E esta escuta acaba justamente por me fazer perceber o discurso por trás de alguns discursos da produtividade.

Adaptado do texto “Tempos pós-modernos” da Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 130

*Luz Maria Guimarães é graduada e pós-graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em Filosofia Clínica pelo Instituo Packter. Trabalha como terapeuta (filosofa clínica).

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