Preconceito velado: o discurso da tolerância

Por Cinthia Falchi* | Fotos: Reprodução | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Quando trabalhamos com temáticas que geram polêmicas só por existirem, é muito comum nos respaldarmos nos discursos de tolerância, para assim conseguirmos, minimamente, controlar alguma violência explícita. No entanto, é justamente nesse ponto que nos comprometemos com as homofobias e transfobias. Ao aceitarmos um discurso de tolerância, utilizamos de uma muleta que será o “calcanhar de aquiles” posteriormente. A tolerância acaba por camuflar as diferenças, gerando uma suposta aceitação, quando, na realidade, o que se tem é apenas o normativo subjugando o “periférico”. Silvio Gallo (1963), filósofo da Educação brasileiro, diz que “as políticas educacionais recentes no Brasil têm lidado com a diferença, mas num registro filosófico que toma o outro como diferença em relação ao idêntico. Nesse registro, o outro pode ser assimilado, acolhido, incluído. Mas o preço é o pagamento de sua diferença radical, na homogeneidade de uma democracia que a todos acolhe, borrando os conflitos.”

 

A democracia que acolhe a “pessoa diferente” a partir dessa homogeneidade costuma causar o que se chama comumente de preconceito velado. Este tipo de preconceito tem gerado um silenciamento dos preconceitos, não pela não existência destes, mas em prol do politicamente correto e do receio de represálias. Portanto, é preciso nos precaver de trabalhar as temáticas homofobia e transfobia não a partir do binário homem/mulher como feminino/masculino e pênis/vagina, sendo um processo naturalizado e normatizado. Ao contrário, para que possamos buscar a erradicação das homofobias e transfobias é necessário gerarmos embates nessas leituras naturalizadas e buscar problematizar tais posicionamentos, que podem ser religiosos em sua maioria, mas que não deixam de ser políticos e sociais também. Esses posicionamentos têm como objetivo “explicitar os processos que criam sujeitos normais, adaptados, em suma, hegemônicos, apenas construindo também sujeitos ilegítimos, rotulados como anormais e alocados na margem da sociedade”.

 

Apenas homens pensam?

 

Assim, a última coisa que precisamos é reafirmar as homofobias e transfobias já tão evidentes em nossa sociedade. A importância desse primeiro documentário é justamente desmistificar e humanizar uma parcela de pessoas que a sociedade insiste em marginalizar.

 

De maneira direta, temos que ter claro o que significa a heteronormatividade que nas palavras da Richard Miskolci é “formar a todos para serem heterossexuais ou organizarem suas vidas a partir do modelo supostamente coerente, superior e ‘natural’ da heterossexualidade”. Esse ainda é o tipo de modelo que está presente em nossa sociedade ocidental em diversas esferas e precisamos treinar nossos olhares para podermos visualizá-lo cada vez com mais facilidade. Esta pode ser uma das estratégias para lutarmos contra essa hegemonia. Repare, hegemonia a partir de uma discussão de naturalização é um problema, não a heterossexualidade.

 

O termo transfobia caminha na mesma linha de raciocínio. A diferença é que trabalha a violência para com pessoas transexuais, transgêneros e travestis. No entanto, não há uma parede que divida as violências sofridas, logo, a mesma pessoa pode sofrer homofobia e transfobia. Esse é um quadro recorrente de violência e pauta de diversas lutas no Movimento LGBTTTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros, transexuais, intersexuais). O papel dos/as educadores/as é questionar as suas próprias posturas bem como as posturas que os/as estudantes demonstram em suas vidas cotidianas. Isso não implica em trabalhar contra ou favoravelmente a religiões, e, sim, formar a partir de problematizações que podem ser ressaltadas em seus próprios modos de vida.

 

Eu sou homem, dirigido por Márcia Cabral, é um documentário sobre o universo hostil que quatro homens transexuais precisam enfrentar por terem assumido sua identidade de gênero

 

Assim, em vez de priorizar as investigações classificatórias para a construção das identidades, é possível focar as aulas nos “processos sociais classificatórios, hierarquizadores, em suma, nas estratégias sociais normalizadoras dos comportamentos”. Deste modo, nos preparamos não para classificar todas as pessoas a partir de características biológicas ou comportamentais, mas, ao contrário, talvez seja possível revelar toda a engrenagem que se coloca a partir dessa relação de poder-saber para que tais classificações ocorram.

 

Questionar a hierarquia imposta nas orientações sexuais e nas identidades de gênero não faz que as classificações desapareçam, mas é um dos passos para que possamos compreender qual é o alimento que faz que tais classificações sobrevivam dessa maneira tão violenta e sufocante.

 

Para que seja possível trabalhar com homofobias e transfobias nas salas de aula, os/as educadores/as, primeiro, precisam repensar suas próprias posturas, atitudes e discursos.

 

Para que o ensino seja efetivamente de qualidade, ele precisa ser questionador, transformador. Sem essas características, os/as professores/as tendem a permanecer silenciados/as e seguidores/as das normas e saberes que já se encontram na ocupação das hegemonias atuais.
Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 107

Adaptado do texto “Sexualidades e identidades de gênero”

*Cinthia Falchi é professora da rede pública do Estado de São Paulo. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Educação da Unesp. Desenvolve pesquisa nas áreas de Erótica, Ética e Sexualidades na Educação. Email: cinthia.falchi@gmail.com