Por que precisamos de um Deus?

Uma discussão acerca do aspecto negativo da Religião, que se caracteriza como a negação do homem, e o processo de devolução proposto por Feuerbach e Nietzsche por meio de um antropocentrismo

Por Matêus Ramos Cardoso* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Martin Heidegger (1889-1976), grande expoente da Filosofia contemporânea, afirma que “nenhuma época soube menos que a nossa que coisa seja o ser humano. Jamais o ser humano assumiu um aspecto tão emblemático como em nossos dias”. De fato, o ser humano é um ser reflexivo, e a reflexão determina nele um contínuo surgir de questionamentos e problemas. No entanto, o ser humano é sujeito e objeto da investigação, e percebe que não há problema no qual ele não esteja implicado. Ou seja, o interrogante é sempre colocado implicitamente em toda pergunta que faz.

 

Iniciando o sequestro: o vale das lágrimas

A visão de homem como pessoa é uma criação própria do cristianismo, o conceito cristão de pessoa parte da vivência histórica da parceria divino-humana, o homem é chamado por deus para participar de sua vida. Desde a criação, que fundamenta a dignidade humana, essa parceria é notada. Deus coloca o homem acima de todas as coisas criadas e o torna solidário.

 

A evolução do termo “pessoa” na Teologia cristã pode ser descrita da seguinte forma: persona, em latim, tal como o equivalente em grego prósopon, significava máscara de teatro e, também, rosto de homem. Ocorre que essa mesma máscara sufoca a liberdade da pessoa humana, em que ocorre o “vale de lágrimas”, no qual cada cristão deve caminhar com sua cruz e ainda agradecer a deus. Assim, a concepção de pessoa, num primeiro momento, é criada pelo cristianismo, que, depois, em uma espécie de sequestro, acaba retirando o ser humano de si mesmo.

 

Segundo o texto bíblico do Gênesis, no jardim do Éden deus passeava com sua criação, e nisso percebemos a necessidade que as religiões têm de mostrar como um ser superior está disposto a se encontrar com a pequenez da sua criatura. Contudo, a interpretação dessa relação custou caro a muitos ­fiéis. Outros, porém, nem notam o problema gerado por essa interpretação. É o que chamamos de sequestro da subjetividade. A imagem do sequestro pode parecer forte, mas é metodologicamente útil, porque as religiões também aprisionam pessoas. Mas as ideias, por não serem tão visíveis, tornam-se difíceis de serem analisadas em suas consequências. Entendemos melhor da seguinte maneira: quando uma pessoa é lançada para fora de suas relações, ela se torna impotente, fraca, porque é afastada de tudo aquilo que, outrora, lhe conferia sentido e força. Como quando há um sequestro, a pessoa é levada para um cativeiro, um lugar desconhecido, e para ela sem sentido algum, passando a viver a privação das suas vontades, das suas capacidades.

 

Segundo Nietzsche, o cristianismo concebe esse mundo como uma espécie de vale de lágrimas. Portanto, a felicidade somente poderia estar fora do alcance desse mundo, numa realidade eterna.

O mundo parecia, então, uma prisão, e o sentido não estava dentro dele. Muito embora, na história do conceito de pessoa, tenha surgido a necessidade de mostrar a unidade da pessoa humana, nem sempre tal explanação ficou clara, e isso custou caro aos seguidores cristãos. Auxilia nessa discussão a crítica que Nietzsche (1844-1900) fez à Metafísica e de certa forma ao cristianismo. Tudo aquilo que é terrestre recebe a marca de aparente e provisório. Segundo Nietzsche, no cristianismo há um ódio a tudo que é humano, a tudo que é matéria. Todavia, seus escritos demonstram uma espécie de devolução, que almeja recuperar as capacidade humanas. Assim, entendemos quando ele fala da vontade de poder, que nada mais seria reivindicar tudo aquilo que é humano, bem como a posição nietzschiana sobre o super-homem. Da mesma maneira, conseguimos compreender a posição nietzschiana, como o desejo de dominar independente de valores estabelecidos. Por esse caminho, volta-se o olhar para as capacidades humanas como sendo humanas e, quando ele fala da vontade de potência, percebe-se a necessidade de criar, sendo próprias de cada ser humano, e não influência de um deus supramundano.

 

Segundo Nietzsche, “quanto mais diminuísse o império das religiões (…) mais os homens se preocupariam realmente em eliminar os males”. Uma vez que, para ele, os líderes religiosos viviam da anestesia dos males humanos. Quando a vida religiosa se iniciava, “não se possuía conhecimento das leis naturais, e por exemplo, (…) quando se remava não era o remo que movia o barco; remar era apenas uma cerimônia mágica, pela qual se forçavam demônios a mover o barco”. Obviamente, isso não é especificidade do cristianismo, mas abre horizontes para a compreensão da Religião em Nietzsche. Segundo ele, o cristianismo eliminou a crença nas suas virtudes, nas capacidades que ele possui. Não se quer perceber a religiosidade como apenas uma criação humana, mas perceber como a Religião despovoou o homem de si mesmo, retirou ele de si, sequestrando-o e lançando-o num cativeiro anos-luz de si mesmo. Todavia, não se busca dogmatizar os pensamentos nietzschianos, mas retirar deles a colaboração para a construção do pensamento aqui proposto. Acrescenta a esse pensamento o seguinte: “O cristianismo nasceu para aliviar o coração; mas agora deve primeiro oprimi-lo, para mais adiante poder aliviá-lo”. Com isso, há uma espécie de poder anestesiante do cristianismo, que ora alivia, ora cria a dor novamente, para de novo voltar a aliviar o ser humano de suas mazelas. O ser humano não seria realmente humano, apenas um objeto para que a Religião se manifestasse, e mostrasse o poder de um deus.

 

Ciência e religião devem se misturar?

 

Parece haver uma espécie de sequestro, em que se explica sobrenaturalmente aquilo que poderia se explicar de maneira natural. O poder colocado sobre as religiões passa, necessariamente, muitas vezes, pelas capacidades retiradas da humanidade. É preciso considerar que determinadas realidades devem-se aos seres humanos, são próprias deles, da sua estrutura física e psicológica. Na mesma medida, pode-se pensar num cristianismo que promete a paz para um outro mundo. Não que ele expresse isso por meio de seus documentos, mas, por vezes, se encontra difundida uma imagem assim, que ensina as pessoas a sucumbirem nessa vida porque é preciso carregar a cruz, porque vida, mesmo, só na eternidade. Há nisso uma religião que nos projeta para uma realidade etérea. Isso acaba gerando em alguns cristãos a capacidade de justificação, porque repetem o que aprendem, justificam seus erros para outro mundo, a vontade divina assim o quis, ou foi o próprio inimigo da natureza humana, o demônio, que o influenciou a tomar essa decisão. Assim, o sequestro ocorre quando se joga para outro mundo a capacidade de realização, de felicidade. Todavia, se quer inclusive repensar a imagem de intervenção de deus. A função específica deste texto não é a de negar ou afirmar a existência de deus, mas de afirmar o ser humano.

Feuerbach e o caráter negativo da Religião

Ao analisar a contribuição do filósofo Ludwig Feuerbach (1804-1872) acerca do caráter negativo da Religião, percebe-se que há uma negação do ser humano, mostrando que aquilo que aparentemente é divino não passa de uma realidade humana. É exatamente dessa perspectiva que a Religião se alimenta, a saber: a falta de consciência genérica do homem.

 

O resultado desse estranhamento do homem em relação à sua essência é o surgimento de um ser estranho ao homem. O caráter negativo é de fato esse, o distanciamento do homem em relação a sua essência. Diante de deus e da Religião, o homem perde a consciência de sua essência, escondendo-a em ilusões e mentiras. Como o próprio Feuerbach afirma: “O carácter da religião é a contemplação imediata, espontânea, inconsciente da essência humana, como outra essência. Mas esta essência objetivamente contemplada num objeto da reflexão, da teologia, torna-se uma mina inesgotável de mentiras, ilusões, cegueiras, contradições e sofismas”. O distanciamento do homem em relação à sua essência é a causa da alienação, pois com a projeção da essência humana se estabelece a infinita diferença entre deus e o homem individual. Com isso, acaba-se afirmando o domínio de deus sobre o homem. O homem é dominado por sua própria ilusão, “deste modo, a origem da religião é explicada por Feuerbach como a projeção hipostasiada em um deus estranho, independente, todo ­poderoso e ídolo, tornando o ser humano um sujeito passivo e alienado”. O resultado dessa ação é que o ser humano se torna passivo e alienado, pois esse ser ilusoriamente independente que ele criou passa a determiná-lo. O homem não tem mais o poder sobre si, perdendo o controle.

 

Para Feuerbach, o homem é quem cria deus, e não o contrário. Segundo o filósofo alemão, a Filosofia precisa se ocupar deste homem em sua completude, e não somente da razão que o compõe.

 

A alienação humana, para ­Feuerbach, é caracterizada como um momento de projeção, pelo qual o homem cria uma realidade que se torna estranha a ele, ou seja, a hipostatização. “Neste sentido, a religião é um processo de esvaziamento do homem, uma vez que a verdadeira grandeza humana, sua infinitude, é projetada num ser distinto do homem”. A Religião se torna um “autoestranhamento” de cada homem individual, pois ele não se reconhecerá mais como participante do gênero humano; ou seja, não se verá mais como um ser genérico, mas apenas como indivíduo. O homem religioso abre mão de sua humanidade, da essência genérica, atribuindo a deus os tesouros de sua interioridade. Com a alienação toda a sua riqueza passa a ser a de deus, ou seja, toda a infinitude da essência é atribuída a ele.

 

O sentimento de dependência do homem diante de deus o impede de amar a si mesmo, pois tudo fica mais fácil quando envolve um ser superior. Mas essa é uma consciência iludida, deficiente e provisória, segundo ­Feuerbach; que deve ser desfeita. Pois a dependência de deus se revela como a fraqueza do homem, conferindo a origem ao erro e ao fanatismo. Daí a importância da ­Filosofia para Feuerbach, que tem a tarefa de revelar ao homem a sua essência, ou seja, trazer às claras sua consciência: é necessário dar ao homem a conciência de si, retirando-o de sua alienação e propondo o ateísmo como caminho de superação e como forma verdadeira de vida, pois o homem é consciente de sua essência genérica. Com o fim da Religião, o homem passa a ter consciência de seu gênero, de sua essência e não necessita mais de um deus. Desse modo, deve-se amar ao homem, abandonar o além para dar atenção ao aquém, preocupar-se com o hoje, e não com a vida eterna.

 

Émile Durkheim: religião e socialismo

 

O processo de retomar a ­consciência não é simples, exige do homem um confronto com a Religião. Pois, no momento em que se vai afirmando a identidade do homem, no sentido contrário a Religião vai lutando em manter a distinção entre o homem e deus, para que a diferença não seja anulada. Para ­Feuerbach, existe uma íntima relação entre um grau de alienação e a perfeição da Religião. Quanto mais perfeita for a Religião, maior será a alienação do homem. É o que acontece com o cristianismo, que, para Feuerbach é uma das religiões mais perfeitas, por isso ela mantém o cristão num alto grau de alienação. “Com o cristianismo perdeu o homem o sentimento, a capacidade de pensar-se dentro da natureza do universo”. Tão grande a ilusão do cristão que não consegue mais compreender a sua verdadeira relação com a natureza.

O “sequestro” e o desaparecimento de deus

Nota-se, em muitos relacionamentos humanos, no qual se transfere a possibilidade da mudança não para o indivíduo, porque é realizado o roubo da decisão tão forte que ele não pode mais decidir sobre seu casamento, por exemplo, mesmo que esteja sofrendo, a ponto de a morte ter a palavra mais forte do que o que ele percebe. Pois, estando fora de si, suas decisões também estarão. Assim, o poder de decisão é lançado para fora. Deus tem que decidir, ou a morte. Isso não parece estranho a um deus que nos oferece inclusive o “livre arbítrio”? O que se propõe é um um processo de devolução. O objetivo é observar até que ponto não se tira das mãos humanas a decisão de sua própria vida. É procurar perceber quando o ser humano é privado de si mesmo. Devolver o ser humano a si mesmo, dar ele a si mesmo. Devolvê-lo às suas capacidades, levá-lo para dentro da sua própria casa, sua morada interior, em vez de lançar suas possibilidades a um deus distante e intocável. Por isso, a antropologia ­feuerbachiana colabora para essa discussão, uma vez que busca construir um homem concreto, afirmando sua centralidade no processo religioso. “Por isso, aos olhos de Feuerbach, a crítica à religião justifica-se pelo fato de ela, ao tirar de Deus as qualidades da espécie humana que lhe eram erroneamente atribuídas, enriquece e liberta a humanidade. Como todo o Iluminismo, também a filosofia de Feuerbach pensa poder realizar este ato de libertação, emancipação pela simples transformação da consciência”.

 

A alienação humana

Pôr fim à alienação humana concedendo ao homem a humanidade que lhe é devida é a proposta de reintegrar o homem em si mesmo. E esse ato de libertação acontece pela emancipação da consciência, que estava perdida em deus, mas é resgatada pelo homem. Dessa maneira, segundo Feuerbach, o cristianismo tenta responder aos problemas da existência humana, mas o faz de maneira alienante. Diante do problema da morte, apresenta um deus imortal. Quando se mostra o problema da vida, indica um deus onipotente, estando, assim, apto para solucionar a contingência da vida. Na perspectiva do relacionamento humano, propõe um deus carregado de amor, afastando o mal do egocentrismo. Por isso é que se volta a afirmar que deus não passa de outra coisa que uma humanidade mitificada. E sob essa perspectiva é preciso negar deus.

 

O mesmo ocorre para ­Nietzsche, que trata a morte de deus como possibilidade de afirmação do homem. Assim, diante dos problemas como a morte, vida, convivência, em vez de buscar resposta num deus distante, é preciso enfrentá-los, uma vez que as capacidades para isso pertencem ao ser humano, estão nele, e não fora dele. Assim, o ser humano humano passa a ser proprietário de si mesmo e se torna capaz de enfrentar o mundo, desde que tome conhecimento das suas possibilidades e limites. Não precisamos de um deus que seja um peso à nossa humanidade. Ao contrário de Nietzsche, podemos dizer que deus não está morto, mas que precisa morrer, porque viver com a imagem de um deus que nos aliena de nós mesmos torna impossível nossa existência. É preciso matá-lo, eliminar a possibilidade de existência de uma divindade que aja dessa maneira.

 

O cristianismo, talvez por influência do platonismo, determina o mundo como lugar do pecado, e o corpo humano como uma prisão da alma.

 

A reflexão a que este artigo se propôs é uma revisão bibliográfica a partir das críticas feitas à Religião e a todo seu material ­teórico. Toda vez que a possibilidade de existir é lançada para uma realidade sobrenatural, temos o sequestro, o roubo da subjetividade. Com isso podemos refletir sobre como se explica sobrenaturalmente aquilo que de maneira tão fácil se pode explicar naturalmente. O que propomos aqui é tão somente uma devolução.

 

Passando por alguns pensadores, podemos perceber cada qual apresentando sua forma de ver a Religião, e nesta releitura, passamos a ver como cada qual percebia o que a Religião tirava, e a necessidade de uma devolução das capacidades humanas. Propomos com isso uma valorização daquilo que é estritamente humano, demasiado humano.

 

Não há deus que nos defenda ou demônio que nos influencie em nossas decisões. Somos senhores de nossas histórias, sem predeterminações. Múltiplos senhores de si mesmos. Voltando a nossa pergunta inicial: por que o ser humano precisa de deus? Por meio dos escritos dos filósofos vimos que o ser humano sempre luta para ser ele mesmo ou para se encontrar numa imagem divinizada de ser humano. Se podemos realizar um mundo, uma ética, ações totalmente humanas, por que seria necessário um ser transcendente?

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 94

*Matêus Ramos Cardoso é especialista em Ética pela Finon – Faculdade do Noroeste de Minas Gerais. Especialista em Ciências da Religião pela Universidade Cândido Mendes-RJ. Professor na Escola E. E. M. “Macário Borba”, Sombrio-SC. teus33@yahoo.com.br