Por que nos angustiamos?

Por Lúcio Packter | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Sofrer de si mesmo possui caracteres e dispositivos que podem ser identificados em muitos casos. Inicialmente, é importante que verifiquemos as bases do ambiente. São as pessoas, o trabalho, a família, o relacionamento, outros aspectos ambientais, os itens de relevância? Ou são eles participativos no padecimento, mas não diretamente agentes predisponentes? Por vezes os dados se mesclam de tal forma que é complexa a separação de itens e de como participam nos eventos da subjetividade.

 

Há quem atribua suas mazelas existenciais aos outros, sempre. Mudam de país, de sociedade, de costumes, de vida, mas seguem instrumentalizando a mesma queixa. Parece sempre existir um culpado para o infortúnio de algumas pessoas. Isso, eventualmente, pode traduzir uma verdade objetiva. No entanto, pode por vezes mascarar um sofrer de si mesmo que encontra nos outros uma ressalva. Longe disso, um ponto corriqueiro pode apontar para um discurso no qual, de outra forma, a pessoa passe a se responsabilizar por tudo; coloca sobre seus próprios ombros a chaga do mundo. As duas formas tendem a nublar a visão nítida em torno do evento, pois um sofrer de si mesmo traduz-se em diversas causas e desenvolvimentos, incluindo ainda essas.

 

Mas há ainda inúmeros modos de um sofrer de si mesmo ser considerado algo nocivo, ser levado a tratamentos médicos, quando ocasionalmente reflete um momento de nascimento, de parto, para algo pelo qual a pessoa anseia.

 

Virtual e real, sem separação

 

Um segundo aspecto é a observação, via historicidade e a constituição da Estrutura do Pensamento da pessoa, de como ela exercita a existência na condição de pessoa, de um ser que experimenta também subjetivamente o mundo. Uma disposição interna para a tristeza, o medo, os padecimentos pode ser uma resposta ao caminho, uma parte que conversa com elementos sociais e afetivos, uma procura, entre tantas outras possibilidades.

 

Certa ocasião atendi a uma senhora que tinha uma concepção peculiar sobre o assunto. Ela admitia que a maneira de se manter inspirada, romântica, afetuosa era cultivar um sofrimento de alma na forma de ausência, de falta. Ela promoveu um escambo no qual o sofrimento a nutria para o que ela possuía de melhor, segundo ela. Uma menção a Hermann Hesse, quando trata do trabalho de um indivíduo para construir a própria personalidade: “… aqueles que o conseguem, inevitavelmente descobrem que a luta pela personalidade envolve o conflito com as vidas normais das pessoas comuns e os valores tradicionais e convenções burguesas que defendem. A personalidade é o produto do confronto entre duas forças opostas, o impulso de criar uma vida própria, e a insistência do mundo que nos rodeia em que nos conformemos a ele. Ninguém consegue desenvolver uma personalidade a menos que esteja mentalizado para passar por experiências revolucionárias”.

 

Pessoas que descobrem que sofrem delas mesmas talvez compreendam que isso não se trata necessariamente de uma objeção, de uma restrição, de um impedimento existencial de alguém para sua própria identidade. Dimensionar quando isso deve ser minimizado, atenuado, afastado, tolerado, entre outras ações, nem sempre é tarefa simples. Fernando Pessoa, em sua autoanálise, evidencia algumas dificuldades em torno disso: “… nenhuma alma há tão solitária como a minha – solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau carácter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena ação interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena ação externa, a sua manifestação”.

 

 

Algumas pessoas sabem que sofrem delas mesmas. Conhecem como isso se processa em suas vidas, no cotidiano. Atendi diversas vezes pessoas em meu consultório que me explicaram como lidavam com essa manifestação em suas inúmeras faces. Desde a distração até um entendimento filosófico, como este exemplo de José Saramago: “O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em África, o obrigou a ser poeta em Paris”.

 

A arte de ouvir

 

Pascal advertia sobre excessos de trabalhos, cansaços, distrações. Sugeria que retirar estes elementos poderia propiciar um alento: “… Bastava apenas tirar-lhes todos estes cuidados; pois então ver-se-iam a si mesmos, pensariam no que são, donde vêm e para onde vão; e assim não os podem ocupar demais nem desviá-los. E é por isso que, depois de lhes terem preparado tantos afazeres, se têm algum tempo de descanso, os aconselham a em- pregá-lo a divertir-se, a jogar e a ocupar-se sempre inteiramente”.

 

Retirados determinados critérios e aspectos urbanos, a alguns sobraria um sofrer de si mesmo. Isso poderia levar ao retorno industrial das alienações necessárias, poderia levar a pessoa a trabalhar de fato com sua questão permanecendo nela, poderia tornar tudo outra coisa, muito distante. Talvez seja mais uma importante orientação ao assunto.

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia clínica no Brasol. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br

 

Adaptado do texto “Sofrendo de mim”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 117