Política segundo Hannah Arendt

A partir de uma apropriação teorética da História e igual autonomia, Hannah Arendt defende a democracia, a liberdade (política) e a importância da esfera pública no tempo presente

Por Mauro Sérgio Santos* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A compreensão corrente que se tem da política, não raro, é a de que esse é o âmbito da competição, da falsidade, da mentira, da corrupção e do domínio. E este é um preconceito que se assenta na confusão entre o que seria o fim da política (o seu sentido) e a política em si, isto é, suas experiências concretas. No entanto, o preconceito contra a política não é um dado apenas do mundo contemporâneo; ao contrário, ele remonta às origens do pensamento político do Ocidente. O julgamento de Sócrates (469~399 a.C.) representa, para Hannah ­Arendt, a condenação do filósofo pela pólis; da Filosofia pela política. A tradição filosófica sempre concebeu a atividade política como meio, nunca como um fim em si mesma. Esse é, em geral, o eixo que sustenta os preconceitos em relação à política no pensamento (político) do Ocidente. E isso afere a pertinência da interpelação arendtiana acerca do sentido da política. Para Hannah Arendt, a resposta para a referida questão, como já mencionamos, é sobremodo simples: a liberdade é o sentido da política. Todavia, o questionamento é encetado por uma desconfiança. Essa radical, agressiva e desesperadora questão brota, segundo a autora, de duas experiências muito concretas. Primeiramente, o fato de que os modelos de governo totalitários fizeram com que a política tomasse todas as dimensões da vida dos homens, em detrimento da liberdade. Assim, a liberdade e a política, outrora idênticas, afiguram-se, doravante, aparentemente inconciliáveis. A segunda experiência diz respeito às possibilidades modernas de aniquilação detidas pelos ­Estados, isto é, possibilidades exclusivamente políticas.

 

Na esteira do pensamento de Arendt, Giorgio Agamben em Estado de Exceção alega que a segunda experiência está, de fato, ligada à primeira, na medida em que a transformação da excepcionalidade em regra aproxima a prática política das democracias hodiernas aos modelos (políticos) utilizados pelos regimes totalitários. O que, para Arendt, corroboraria a separação entre liberdade e política; e, por conseguinte, esvaziaria de sentido a esfera política.

 

Nestes casos a incompatibilidade diz respeito, especificamente, à relação entre a política e a preservação da vida, a continuidade da existência da humanidade. Nos governos totalitários, onde há política não existe espaço para a liberdade. E é a própria política, representada ou personificada pelo Estado, que detém as possibilidades de aniquilação da existência.

 

Para Hannah Arendt as experiências políticas básicas do século XX são as revoluções e as guerras: marcam a identificação entre ­política e violência, ação política e ação violenta. Entrementes, o espaço público se torna o lugar da força, esfera onde predomina a ação violenta: o agir político carece de sentido. A isto, soma-se o fato de que, na modernidade, o homem fora reduzido a animal laborans, conforme demostrado em A condição humana. Destarte, o que ocorreu, no tempo presente é que o sentido da política caiu no esquecimento.

 

Desde a Antiguidade nunca mais se considerou que a liberdade fosse, de fato, a razão de ser da política. Na Modernidade, com a ascensão da esfera social, a política se torna a maneira de garantir a satisfação das necessidades (manutenção da vida). O sentido da política passa a ser a preservação da vida. Paradoxalmente, a política se apresenta como a potencial possibilidade de aniquilação da existência. Sobre isso, diz Hannah: “Se é verdade que a política não é nada além do que é infelizmente necessário para a preservação da vida da humanidade, então, com efeito, ela começou a ser liquidada, ou seja, transformou-se em falta de sentido”.
 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 119

*Mauro Sérgio Santos é professor de filosofia, especialista em educação – ufsj, mestre em filosofia ética e política – ufu, membro da academia de letras e artes de araguari – mg e da união brasileira de escritores – ube. autor do livro Camaleão: Metapoesia. blog: http://banquetedeletras.blogspot.com. e-mail: mauro.filos@hotmail.com

Adaptado do texto “Filosofia da esperança”