Politanatos, a morte política

Por Rodrigo Petronio* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O termo tanatopolítica foi criado pelo pensador sueco Rudolf Kjellén. Refere-se às apropriações políticas da morte. Michel Foucault o utilizou em sua teoria da disciplinarização e depois também em suas últimas conferências, relativas à politização da vida. Hoje em dia, a tanatopolítica e a politização da morte são analisadas por alguns dos expoentes da chamada Biopolítica, como Giorgio Agamben e Roberto Esposito.

 

Entretanto, é preciso fazer um aggiornamento, uma atualização desse conceito, porque vivemos o eclipse das políticas da morte. Em termos econômicos e bélicos, as políticas da morte encerram aos poucos seu ciclo de produtividade. Encontramo-nos no limiar de uma nova etapa: a morte da política. Como é possível pensar conceitualmente essa morte? Arrisco uma digressão.

 

Na Odisseia, o epíteto de Odisseu é polípode. Em grego, poli significa “muitos”, e podos, “pé”. Polípode é aquele que tem muitos pés. A centopeia é um animal polípode. Odisseu o é no sentido figurado, pois tem muitos recursos. Convencionou-se traduzir o termo polípode por astúcia. As aventuras de Odisseu são as aventuras da astúcia que vence a brutalidade de um mundo inimigo.

 

A morte nos ensina a viver

 

Por outro lado, o prefixo poli também designa todos os termos de raiz polis, referindo-se a política. A politologia é tecnicamente o estudo da política em toda sua abrangência. Por isso, proponho aqui uma inversão da valência da tanatopolítica. Se ela é a política da morte, chamarei de politanatos a morte da política e as diversas faces que essa morte tem começado a assumir.

 

Em que consiste essa morte? Em razão de sua natureza entrópica, o Universo se encontra em processo de morte térmica. Como observou Vilém Flusser, a morte do Universo se dá por meio de uma paulatina redução de improbabilidades a probabilidades. Só é possível dominar o mundo traduzindo a improbabilidade em probabilidade, transformando todos os eventos improváveis em prováveis.

 

Essa é a linha de ouro de toda tecnologia, das tecnologias da imortalidade da Pré-história à Biotecnologia do século XXI. Desde o advento da era da automação, com a Revolução Industrial, essa redução tem se transformado no cerne de todos os sistemas operacionais humanos e meta-humanos. O fim de toda redução de improbabilidade a probabilidade tem um nome: um programa. A sociedade midiática global é a realização desse programa.

 

A morte de Deus pela tecnociência

 

Não se trata de um projeto político, mas de um programa tecnológico de extinção da política. O que é isso? Cada vez mais o devir histórico, a transformação social, a emancipação, ou seja, toda liberdade humana passa a ser capturada por narrativas de sentido. Paradoxalmente, ao se dotarem de sentido, essas narrativas assassinam todo gesto livre. Inviabilizam a possibilidade de liberdade.

 

A História deixou de ser um devir revolucionário. A História hoje tem roteirista. E o roteirista não é um indivíduo, por mais poderosos que sejam os donos do mundo. O roteirista é um programa ­impessoal, instalado na nova ordem global, e que consiste na redução final das improbabilidades, ou seja, na morte da utopia. Na melhor das hipóteses, na realização final da utopia em seu oposto, uma realidade distópica.

 

As políticas da morte só serão produtivas à medida que estejam a serviço da morte da política. A morte entendida como destruição do tecido vital biológico dos indivíduos aos poucos perde sua razão de ser. A morte se realiza cada vez mais como esvaziamento de qualquer possibilidade de dotar a vida de um sentido e de promover a emancipação humana.

 

A morte da política não se manifesta como morte biológica. Manifesta-se como medo e melancolia. Medo do outro, medo de si, medo do futuro, medo da transformação, medo social, medo da doença, medo da saúde, medo da instabilidade, medo do amor, medo da amizade, medo da esperança.

 

Será a longevidade boa em si?

 

Por fim, e acima de tudo, medo da morte. Este, o mais sibilino dos medos, não nasce da falta de fé em um Deus, em forças transcendentes, em alguma imortalidade. A amplificação do medo da morte nasce da intuição subliminar de que nos extinguiremos biologicamente sem termos nunca vivido. Em nossos quartos, trancados no âmago de corações medrosos, choramos outra morte. E como diz o magnífico poema Drummond, “sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

 

Esta morte que choramos não é individual. Ela é intuição da morte coletiva que se instalou entre nós. A morte é o fantasma e a contraface do luto não elaborado de outro cadáver: o cadáver da política. O politanatos retém a dupla acepção do prefixo poli. É a morte da política, como acontecimento decisivo do milênio no qual ingressamos. E é plural, pois consiste em uma amplificação universal da morte como categoria fundamental dos seres vivos, esvaziados da possibilidade emancipatória fornecida pela polis.

 

A práxis politanática consiste em preservar o organismo vivo. Mas, ao esvaziar o sentido político da vida desse organismo, esvazia a possibilidade mesma de conceber a atividade de cada organismo singular como um fenômeno pertencente à ordem geral dos fenômenos vivos. Em outras palavras, o conceito de politanatos designa a capacidade de capturar a vida para além da dicotomia entre vida e morte. Não lhe interessa confiscar a vida da vida, ou seja, produzir a morte. Interessa-lhe retirar da vida a capacidade mesma de definir a vida como vida.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 98

*Rodrigo Petronio, professor da pós-graduação do curso de Cinema da FAAP, da Casa do Saber e do Museu da Imagem e do Som, onde criou e coordena o Núcleo de Narratividade. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva (Editora É).  Coorganizador do livro Crença e evidência –Aproximações e controvérsias entre Religião e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos – no prelo).