Perfis póstumos nas redes sociais

Se os egípcios enrolavam pergaminhos junto aos mortos, com instruções para a “vida pós-vida”, o sujeito moderno encontra nas redes sociais um espaço de registro para “atualizar” na Linguagem o memorial de um morto

Por Leonardo Goldberg* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Facebook, maior rede social mundial, provavelmente abriga entre 10 e 20 milhões de perfis de usuários já falecidos. Além disso, o assunto toma parte da curiosidade midiática mundial e levanta questões éticas sobre a continuidade de exposição do usuário falecido.

 

Diante disso, o Facebook criou um questionário para transformar os perfis póstumos em “páginas memoriais”, e estabeleceu uma ordenação diferente para, por exemplo, o perfil do falecido não aparecer como “sugestão de amizade” em espaços públicos da rede: “os perfis transformados em memorial não são exibidos em espaços públicos, como nas sugestões do recurso Pessoas que você talvez conheça, em lembretes de aniversários e anúncios.”

 

A preocupação em transformar os perfis dos falecidos em memoriais se deu a partir do incômodo relatado por usuários em se deparar com tais situações, entre outros recursos automáticos programados do Facebook. Além disso, um fenômeno bem específico que depende do meio em que o usuário estava inserido causa estranhamento: familiares continuam a atualizar o perfil do falecido, além de amigos e conhecidos que continuam se comunicando com o usuário por meio do mural de recados e de mensagens diretas.

 

Os egípcios não viam a morte como o fim, mas como o início de uma nova existência

 

Diante disto, é possível observar diversas transformações no campo da Linguagem e da escritura, e tecer um percurso que coloque em evidência a ideia de ciberespaço a partir das redes sociais e sua implicância na cultura, que talvez culminem em uma significação transformada do conceito de morte ou em diferentes formas de, como escreveu Sigmund Freud (1856-1939), “atitude perante a morte”.

 

O Facebook, rede social inspirada nos livros de formandos norte-americanos, que continham uma imagem de rosto em conjunto de uma breve biografia do estudante, é composto por imagens e escritos que, de forma cronológica e temporal (mas também editável), constituem o perfil de um usuário. Essa composição remete à cadeia de significações que envolvem imagem e escrituras, delineando cada usuário, sempre em relação ao outro usuário formando uma cadeia significante.

 

A historicidade da imagem está imbricada na sua relação com a morte. Regis Debray (1940) constrói uma história da imagem, do olhar e das transformações da relação do sujeito com a imagem na obra Vida e morte da imagem: uma história do olhar no Ocidente. O autor relembra que a imagem perpassa a ideia de morte, magia e religião. Na antiguidade, a ideia de imagem não era relacionada à comunicação terrena, mas direcionada aos mortos; “no Egito, em Micenas ou Corinto, as imagens postas a salvo deveriam ajudar os defuntos a prosseguirem suas atividades normais”. Serviam, em conjunto com a escritura, como “manual pós-vida”. Também a ideia de representação, que “em língua litúrgica […] designa um caixão vazio sobre o qual se estende uma mortalha para uma cerimônia fúnebre”.

 

Morte e Linguagem
A morte, segundo Epicuro, não significa nada, pois quando estamos vivos, a morte não está presente. E quando a morte está presente, nós é que não estamos

O conceito de morte na Psicanálise encontra um enclave categórico sobre a experimentação, bem trabalhado na direção de uma proposição ética de atitude perante a morte na filosofia epicurista. Em carta a Meneceu, Epicuro diz: “Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade”. Um problema de significação, a morte só existe ao vivo enquanto saber.

 

É claro que presença/ausência é um duplo significante posto em xeque pela leitura psicanalítica de Jacques Lacan (1901-1981), bem explicada por Barbara Cassin (1947) na descrição de uma univocidade aristotélica que se diferencia da concepção de equivocidade na obra lacaniana. Porém, Freud dedica grande parte do seu trabalho sobre essa relação do sujeito perante a morte e sua dificuldade de significação, mas de forma alguma endossa a declaração apologética de Epicuro em relação ao esvaziamento da significação a “nada”, mesmo tendo a concepção de que em nosso inconsciente não cabe a ideia da própria morte. Postula, em Considerações atuais sore a guerra e a morte, num contexto referente ao tempo (Primeira Guerra Mundial), que era um traço contraditório na atitude do homem primevo diante da morte: tratava a morte do outro como justa, “significava a eliminação do que era odiado”, mas negava sua própria morte, “rebaixando-a a nada”. E era nessa iminência de uma historiografia marcada por séries de matanças, que no contexto da Primeira Guerra, Freud escreve que a vida se torna suportável na medida em que preparamo-nos para a morte. Diante da realidade, sugere transformar a máxima latina Si vis pacem, para bellum (“se quer paz, prepare-se para a guerra”) em Si vis vitam, para mortem. “Se queres aguentar a vida, prepara-te para a morte”.

 

No mesmo texto Freud afirma que nosso inconsciente é inacessível à concepção da própria morte, “ávido por matar estranhos” e tão ambivalente em relação à pessoa amada (em especial aos que mantêm laços familiares) quanto era o homem primevo. E em contraposição ao que ele considera uma leitura da Filosofia, que a ideia da própria morte nasceria a partir da reflexão (lembremo-nos da polissemia da palavra reflexão) da imagem da morte; Freud considera que a própria Psicologia nasce do conflito de sentimentos, “por ocasião da morte de pessoas amadas e ao mesmo tempo estranhas e odiadas”, retomando a ideia da lei de ambivalência dos sentimentos.

 

A morte nos ensina a viver

 

A ideia de que o inconsciente não comporta a noção de morte também aparece no texto Luto e melancolia, no qual Freud faz a diferenciação do luto, trauer, que no alemão também significa tristeza, de melancolia. A proposição é de que o trabalho do luto envolve a tristeza normal da perda de um objeto amado. Um trabalho de reinvestimento libidinal, no qual os traços (ou noção que podemos aproximar da de significante) envolvidos de memórias e expectativas relacionadas ao objeto passam por um processo de redirecionamento pulsional, que conjugam tempo e despendimento de energia. Enquanto isso, existe uma continuidade do objeto perdido na psique.

 

Na melancolia, apesar de conservar traços análogos, existe um esvaziamento do Eu e incorporação por identificação desses traços do objeto amado, composto, nessa identificação narcísica, com um automartírio prazeroso. Tal concepção de melancolia é trabalhada posteriormente em O eu e o isso, no qual Freud escreve “foi-nos dado esclarecer o doloroso infortúnio da melancolia, através da suposição de que um objeto perdido é novamente estabelecido no Eu, ou seja, um investimento objetal é substituído por uma identificação”, acrescentando que tal substituição participa tipicamente na formação do Eu.

 

De acordo com Freud, o inconsciente não é capaz de crer em sua própria morte e, por isso, comporta-se como se fosse imortal

A ressignificação do luto diante de um memorial que não habita somente as lembranças, mas é constantemente atualizado por familiares no perfil virtual do morto. A substituição ou reinvestimento libidinal é acompanhada pelo frequente estímulo de um conjunto de significantes do sujeito que continua on-line, que pode (e é) acessado diariamente pelo seu meio familiar e de amizade. Mais que acessado, é atualizado pelos entes mais próximos. A experimentação da morte, sendo vicária, engendrada por um software do Facebook, que de forma automatizada, joga o perfil do morto em uma circularidade de escritura.

 

Sustentar uma analogia em relação a bonecos que podem ser manipulados e até emprestados a falar, vide os ventríloquos, não seria ideal. No caso dos perfis dos mortos, os traços biográficos que compõem a escritura são um conjunto de significantes do sujeito e de seus amigos e familiares. Ainda assim, os perfis provavelmente geram o que Freud chamava de sentimento inquietante, unheimlich, o “familiar não familiar”, que Freud exemplifica a partir da Literatura e da vida cotidiana. Entre os exemplos, Jentsch fala da angústia quando nos deparamos com o autômato, figuras de cera ou bonecos que devido à semelhança, nos confundem sobre o fato de estarem vivos ou não. Convicções abandonadas, tomadas como realidade por nossos “ancestrais primitivos”, que entre medo e desejo suscitam o inquietante quando carece da “prova da realidade”.

 

Morte cibernética

O perfil virtual do morto que se apresenta como “sugestão de amizade” pode gerar o inquietante. Mas, mais que isso, apresenta um novo viés da Cibernética clássica e sua premissa e promessa de desincorporação. Norbert Wiener (1894-1964), um dos grandes precursores de uma Cibernética que desembocou na Inteligência Artificial, discute questões que concernem à esfera religiosa. Para o autor, o ciberespaço é a atualização do Golem de Praga: a lenda do imenso autômato de barro criado pelo Rabino Low para proteger a comunidade judaica. Desenvolvido a partir da escritura, “verdade” lhe emprestava vida (emet), quando retirava o “e” o boneco voltava ao seu estado inanimado: “met”, que significava morte. Os autores posteriores, principalmente a escola do Massachusetts Institute of Technology (MIT) emprestaram significativa importância à tentativa de produzir inteligências artificiais e descartaram a metáfora inaugural: a letra, a escritura que produzia vida.

 

A escritura, que Debray aponta como a primeira técnica e artifício do ser humano, conditio, enquanto técnica, para a criação de um monoteísmo, que habita na letra, terreno fértil que depende da escritura. Como aponta Alexandre Kojève (1902-1968), que tanto influenciou Lacan, só o texto que se desamarra da inscrição espaço-temporal permite a materialização do discurso.

 

Como bem descreve Slavoj Zizek (1949): “uma palavra falada é sempre minimamente a voz de um ventríloquo, sempre reverbera nela uma dimensão espectral. Em suma, deve-se dizer que a ‘humanidade’, enquanto tal, sempre-já foi ‘pós-humana’ – aí reside o ponto principal da tese de Lacan de que a ordem simbólica é uma máquina parasita que invade e suplementa um ser humano como sua prótese artificial”.

 

Entenda a cultura do corpo

 

Barbara Cassin, ao fazer uma releitura de O aturdito de Lacan, explica a utilização do den, provavelmente de denos, meden, ouden, o nada que é alguma coisa, um corte que produz um significante: menos que nada; que em Lacan retoma a inscrição da significância na letra, referência ao atomismo de Demócrito. Representação física do discurso, “que logos é a physis que se busca descrever”. De acordo com Cassin, “O aturdito tem mais motivos ainda para se deter em Demócrito, uma vez que, para representar fisicamente o discurso, Demócrito concebe seus átomos como letras. Nada além de ideias, mas inventadas e recriadas a cada vez pelo estilete, à mão – se o estilo é o homem, o traçado do estilete é o átomo”. O próprio Lacan, no Discurso de Roma, esclarece a ideia do significante como material, de forma bem clara. Diz, sobre o termo significante “ele é constituído de um conjunto de elementos materiais, ligados por uma estrutura sobre a qual indicaremos, daqui a pouco, a que ponto ela é simples em seus elementos, e até mesmo onde podemos situar seu ponto de origem”; e continua “mas, correndo o risco de passar por materialista, e no fato de se tratar de um material que insistirei primeiro para apontar, nessa questão de lugar que produz nosso discurso, o lugar ocupado por esse material – com a única finalidade de destruir a miragem que aparentemente impõe o cérebro humano, por eliminação, como lugar do fenômeno da linguagem. Onde poderia ele estar, de fato? A resposta é, para o significante: por toda parte. Sobre esta mesa, esta, mais ou menos disperso, um quilo de significante”.

 

A própria adoção do conceito de significante, conceito que em Lacan vai tomando características próprias que o distanciam da noção de Saussure, tal como a ideia de que o significante representa o sujeito para outro significante (formando uma cadeia); coloca em xeque a concepção de um corpo animalístico e dotado de consciência linear, e empresta à linguagem escritura, na estrutura do inconsciente, outro valor – o cogito cartesiano confrontado pela linguagem lacaniana. “Penso onde não sou, portanto sou onde não me penso”. Quem é que fala no Facebook?

 

A experiência do ciberespaço traz à tona a própria ideia de percepção e corpo para a Psicanálise. Mediada por significantes, percepção corporal sempre fora relacionada ao imaginário. Zizek ousa levantar a hipótese-questão de que “foi precisamente a psicanálise a primeira a tocar nessa questão-chave: o corpo freudiano – erotizado, sustentado pela libido, organizado em torno de zonas erógenas –, (…) Não é esse corpo (e não o animalístico) o objeto próprio da Psicanálise?”.

 

O Facebook pode ser usado como uma espécie de registro sígnico que sustenta o falecido no campo da Linguagem

 

A escritura sustenta a discussão sobre o cogito, na esfera cibernética. Tanto para Debray quanto para Jacques Derrida (1930-2004), a escritura se inscreve na ausência de um interlocutor, de um receptor. Essa ausência é marca da necessidade e autonomia da escritura. Porém Derrida tem uma noção específica de uma escritura que estaria inflada, abrangente e que excede a linguagem (a concepção derridiana de Linguagem), poderíamos pensar em escritura atlética, pictórica, musical, militar, política, escultural. Em relação ao “programa”, a programação cibernética poderia superar todas as discussões supracitadas, que interessam à localização de um conjunto paradoxal básico para iniciarmos e significarmos o que tange a uma filosofia ou psicanálise. Mas ainda assim, o que restaria seria a escritura em sua circularidade que tomamos a liberdade de estabelecer uma analogia à ideia de cadeia de significantes em Lacan.

 

De acordo com Derrida, “todo o campo coberto pelo programa cibernético será campo de escritura”. E é claro que escreve isso muito antes de pensarmos na escritura com alguma presença de receptor já anunciada. Hoje, tanto em softwares como o WhatsApp ou no messenger do próprio Facebook, o que digita a escritura sabe se o seu receptor está ausente ou não, se leu a mensagem ou não, ou o específico horário no qual o receptor acessou o dispositivo pela última vez. Essa presença indelével deflagra um Outro sempre à mostra, um receptor que já anuncia a leitura da mensagem somente ao acessá-la. Um Outro significado à concepção de Comunicação.

 

E Derrida segue, “(…) supondo-se que a teoria da cibernética possa desalojar de seu interior todos os conceitos metafísicos – e até mesmo os de alma, de vida, de valor, que serviam antigamente para opor a máquina ao homem, ela terá de conservar, até denunciar-se também a sua pertencença histórico-metafísica, a noção de escritura, de traço, de grama ou de grafema”, seguindo de uma nota de rodapé crítica em relação a Wiener, em que denuncia o autor por abandonar a dicotomia entre vivo e não vivo mas usar expressões como “órgão dos sentidos”. De outra forma, Wiener ainda utilizou uma metáfora (Golem) que criava a dialética entre “verdade” e “morte”, em um jogo semântico que tratava de neutralizar o autômato quando a “verdade”, pela inscrição da letra, tornava-se morte, e vice-versa. Porém, como aponta Derrida, o autor acaba se denunciando pela Linguagem, ao manter uma distinção clara entre o vivo e o não vivo em sua obra.

 

Se a circularidade da escritura nas redes sociais depende da combinação de um software com o meio em que o usuário está inserido, o conjunto de significantes que o rodeavam sofre um prolongamento que não depende do corpo animalístico de seu usuário. O perfil fica enquanto seu meio utilizá-lo e continuar a produzir significantes em seu entorno (e em seu Nome, como o ventríloquo). O software eleva a máxima de Arthur Rimbaud (1854-1891) “je est un autre” ao seu radical: “o eu é um outro” se transforma numa possibilidade de cogito. O que ele revela é uma nova forma do vivo lidar com a imagem da morte.

 

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*Leonardo Goldberg é psicólogo, psicanalista, mestre em Educação, Arte e História da Cultura (UPM) e doutorando em Psicologia Social (USP). leoaegoldberg@gmail.com

Adaptado do texto “Perfis póstumos nas redes sociais”