Percepção: será que vemos as coisas como elas são ou vivemos em uma constate alucinação?

A capacidade de apreensão das coisas por meio dos sentidos é fundamental na formação do nosso conhecimento.Como garantir o saber objetivo e erigir uma teoria do conhecimento se a percepção envolve objetos subjetivos?

Por Daniel Borogni | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Nós conhecemos o mundo ao nosso redor por meio dos nossos órgãos sensoriais, de modo que a percepção sensível, isto é, a capacidade de assimilação das coisas por meio de visão, audição, toque, paladar e olfato, desempenha um importante papel na formação das nossas crenças e, portanto, no conhecimento. Por isso, a percepção tem sido discutida desde a antiguidade e inúmeros problemas filosóficos giram em torno dela. Podemos entendê-la como uma relação entre aquele que percebe e o  que é percebido, isto é, entre um organismo com capacidades sensoriais, como um humano, e os objetos e eventos do mundo. Na percepção, a pessoa informa-se sobre esses objetos ou eventos. Essa informação, porém, deve ser notada pela pessoa para que se possa dizer que ela tem uma experiência.

 

Considerando que quem percebe tem uma experiência, a percepção envolve uma fenomenologia, que é aquilo que aparece à consciência do sujeito na percepção sensível, e que, em Filosofia da Mente, denominamos caráter fenomênico das experiências perceptivas. Em outras palavras, é como as qualidades sensíveis aparecem à pessoa que as percebe, ou seja, o que é experienciado pelo indivíduo quando vê, ouve, etc. Para entendermos melhor, tomemos um exemplo: ao ver um tomate maduro, a cor vermelha aparece à minha consciência de uma determinada maneira,  ou seja, com uma característica qualitativa por mim apreendida subjetivamente. Posto de outra forma, quando tenho a experiência visual de um tomate maduro, o meu estado mental tem um caráter qualitativo que aparece de certo modo à minha consciência. Essa é usualmente denominada de consciência fenomênica.

 

Determinado o escopo da Fenomenologia, surge a questão: o que é o caráter fenomênico das percepções? Para a concepção ordinária da percepção, isto é, aquela que se refere à nossa visão comum de mundo, é a característica de um objeto, pois considera que aquilo que aparece à sua consciência diz respeito ao objeto externo. Contudo, existem argumentos filosóficos que defendem que as qualidades sensíveis comumente atribuídas aos objetos não são suas propriedades, mas propriedades intrínsecas das percepções, existindo somente no sujeito. Nesse sentido, a cor vermelha do tomate não está nele, o que implica que o tomate não é realmente vermelho, uma vez que a sua cor está na mente de quem o vê. Em contraponto, outros pensadores defendem que as qualidades sensíveis são propriedades dos objetos externos e, assim, se aproximam da concepção comum de percepção. Portanto, de um lado estão aqueles para os quais o caráter fenomênico das experiências perceptivas é explicado por propriedades subjetivas. De outro, estão aqueles que procuram explicá-lo por referência a propriedades objetivas. Portanto, não se tem uma explicação consensual e satisfatória sobre o que é esse caráter fenomênico e, assim, não sabemos qual a natureza das experiências perceptivas.

 

 


Os objetivos deste artigo são apresentar o debate travado entre subjetivistas e intencionalistas por meio de duas teorias filosóficas da percepção que representam estas duas concepções de percepção, e mostrar como o que é evidente ao senso comum pode ser posto em xeque. Abordaremos os argumentos que sustentam as explicações dessas teorias para a Fenomenologia envolvida em nossas percepções e alguns dos problemas que incidem contra aqueles. Ao longo do texto, veremos como elas convergem e divergem entre si e da concepção ordinária de percepção.

 

 

Subjetivismo

A concepção subjetivista tem predominado na Filosofia desde o século XVII e, de forma geral, defende que a percepção sensível envolve algo mental e privado, isto é, acessível somente por quem tem a experiência. Segundo Hilary Putnam (1926), desde então, esse “algo” foi concebido de diferentes formas, e teve denominações tais como ideias, impressões, sensum, etc. Nesta concepção de percepção, as qualidades sensíveis dos objetos não seriam propriedades objetivas do mundo, mas propriedades subjetivas e intrínsecas às experiências. No último século, um dos principais expoentes dessa teoria foi Bertrand Russell (1872-1970).

 

Russell pertenceu ao grupo de filósofos que denominou dados dos sentidos aquilo que aparece à consciência de uma pessoa quando tem uma percepção sensível. De forma geral, esses teóricos os consideram objetos mentais, privados e não físicos que dariam à experiência perceptiva a sua qualidade aparente e, portanto, seria isso que explicaria a fenomenologia das nossas percepções.

 

Em defesa dessa teoria é comum utilizar- se o argumento da alucinação: João está tendo uma experiência visual de uma árvore com caule marrom e folhas verdes, porém, nada assim existe diante dele. Então, João está tendo uma alucinação de uma árvore com certas características. Ora, se não existe nenhum objeto diante de João como aquele que aparece à sua consciência, os objetos da experiência visual de João não são externos a ele. Portanto, deve existir algo interno e mental que explica os objetos e respectivas propriedades que ele alucina.

 

No segundo passo do argumento da alucinação, devemos observar que percepções inverídicas podem ser qualitativamente indistinguíveis das verídicas, e que o caso de João é um desses. Por isso, quando João alucina a árvore, ele não consegue discriminá-la de uma visão real. Se a alucinação de João é introspectivamente indiscriminável de uma percepção genuína, deve existir algo que essas experiências perceptivas têm em comum. Desse modo, se o que se alucina aparece à consciência de alguém como se fosse uma percepção verídica, o subjetivista defende que essas experiências têm a mesma fenomenologia, isto é, compartilham o mesmo caráter fenomênico. Então, são objetos mentais e privados, os dados dos sentidos, que caracterizam o que aparece à consciência de um sujeito nos casos perceptivos verídicos e nos inverídicos. Isso implica que a Fenomenologia envolvida na percepção de João seria diferente se os dados dos sentidos fossem outros.

 

 

Se em toda experiência perceptiva existem dados dos sentidos do qual João é consciente e nem sempre os objetos externos estão presentes, tal como acontece na alucinação, diz-se que João é diretamente consciente de objetos mentais. Logo, na percepção genuína, ele é indiretamente consciente dos objetos externos que vê, pois existem dados os sentidos mediando a relação perceptiva de João com o mundo exterior. Ou seja, para essa teoria é como se existisse uma tela interior na qual os objetos que vemos são somente os objetos projetados nesta tela. Uma vez que, percepções inverídicas indiscerníveis das verídicas são caracterizadas pelos mesmos dados dos sentidos, conclui-se que a natureza dessas experiências é a mesma.

 

Por meio do argumento da alucinação, essa teoria coloca em xeque a concepção ordinária de percepção em dois sentidos: 1) Enquanto o senso comum atribui a objetos externos as qualidades sensíveis das nossas experiências, a teoria filosófica que vimos as explica por meio de dados dos sentidos, propriedades intrínsecas da experiência, cujas existências e naturezas dependem da consciência de quem tem uma percepção sensível e; 2) Contra o que é usual pensar-se, existiria uma espécie de interface entre nós e o mundo exterior.

 

Intencionalismo

Muitos  filósofos a afirmam que as teorias perceptivas que se baseiam em objetos mentais, tais como dados dos sentidos, qualia, etc., não explicam satisfatoriamente a Fenomenologia da Percepção. Neste grupo estão os intencionalistas, ou representacionalistas, que entendem as experiências perceptivas em termos representacionais, isto é, elas têm um conteúdo intencional que representa os objetos e eventos do mundo de determinada maneira. Para Gilbert Harman (1938), um dos representantes dessa teoria, esse conteúdo intencional seria suficiente para explicar o caráter fenomênico das percepções. Vejamos com mais vagar como esse  filósofo fundamenta a sua posição.

 

No entender de Harman, dizer que a nossa experiência visual possui conteúdo é afirmar que ela representa as coisas de certo modo. Assim, o conteúdo representacional de uma experiência é determinado por referência aos objetos percebidos. Nesse sentido, ser representacional é ser intencional, pois a experiência é sempre acerca de algo. Por exemplo, quando eu vejo um tomate maduro diante de mim, o conteúdo da minha experiência visual é o tomate, que é representado de certa maneira para mim, isto é, como um objeto esférico e vermelho que está a certa distância. Uma vez que a experiência perceptiva requer um conteúdo intencional, o que é percebido é tratado como um objeto intencional.

 

Harman visa mostrar a inadequação da teoria subjetivista à Fenomenologia da Percepção revisitando o argumento da alucinação e o confrontando com a tese da transparência da experiência, segundo a qual, na experiência perceptiva não nos tornamos conscientes de nada além do que os nossos estados mentais representam. Por meio dessa tese, ele defende que o subjetivismo comete um equívoco ao tomar as propriedades representadas como propriedades intrínsecas da experiência. Voltemos ao exemplo de João para vermos como Harman o analisa.

 

João está vendo uma árvore, então, o conteúdo da sua experiência visual é a árvore, que é representada de certa maneira para João, por exemplo, contendo caule marrom e folhas verdes. Seja nas percepções verídicas, ilusões ou alucinações, a árvore que João percebe apresenta-se para ele estando no mundo. Ou seja, quando João tem sua experiência visual, ele está consciente de uma árvore com certas características e que está a certa distância dela. Desse modo, o conteúdo representado em sua experiência é uma árvore, suas propriedades e seu entorno. “Então, a representação mental representa algo no mundo, não algo na mente”. Posto isso, Harman defende que aquilo que aparece à consciência de João na sua percepção é somente a árvore com suas características, uma vez que nenhuma característica da árvore é experimentada por ele como um objeto mental e interno. Ou seja, nada na experiência visual de João “lhe revela as propriedades intrínsecas da experiência em virtude das quais possui o conteúdo que possui”. Se somente as propriedades representadas nos são reveladas na percepção, nenhum objeto mental e interno que daria à experiência perceptiva a sua qualidade sentida nos é revelado. Se o que nos é revelado é apenas o conteúdo representacional, é esse conteúdo que determina o caráter fenomênico envolvido na percepção, seja ela verídica ou não. Nesse sentido, não são requeridos objetos externos para a determinação da Fenomenologia.

 

 

Se a percepção de uma pessoa for um caso verídico, o seu conteúdo representacional é verdadeiro e, tendo em vista que os objetos da experiência são objetos no mundo com as suas propriedades, o caráter fenomênico desta é dado por referência a propriedades de objetos externos. Desse modo, contrariamente ao subjetivismo, os objetos da experiência nos casos verídicos não são objetos mentais. Se a pessoa estiver alucinando, o conteúdo representado em sua experiência perceptiva é falso, embora possa parecer-lhe estar vendo um objeto no mundo. Uma vez que ter uma experiência requer um conteúdo representado e não a existência de objetos externos, explica-se também a Fenomenologia das alucinações indiscrimináveis.

 

O intencionalismo de Harman se aproxima da concepção ordinária da percepção na medida em que as qualidades sensíveis envolvidas nos casos verídicos são explicadas por referência às propriedades objetivas. A diferença em relação ao que é comum pensar é que, nesta teoria, o que determina o caráter fenomênico das percepções é o conteúdo representacional, não os próprios objetos da percepção, tratados como intencionais.

 

CONTRAPONTO A HARMAN
Vimos como a tese da transparência utilizada por Harman contra o argumento da alucinação objeta a existência de dados dos sentidos em nossas percepções. Entretanto, Christopher Peacocke (1950) contesta que as experiências visuais sejam transparentes de tal modo a nos apresentarem somente propriedades representacionais. No entender de Peacocke, o conteúdo representado nas experiências não apreende as qualidades sensíveis, portanto, não explicaria o seu caráter fenomênico. Para fundamentar a sua posição, vejamos um dos seus argumentos.

 

Vamos supor que estamos olhando para a aresta que une perpendicularmente duas paredes, ambas pintadas com uma cor amarela de mesmo tom, brilho e saturação. Uma delas está mais iluminada do que a outra. A nossa  experiência visual pode representar as duas paredes sendo da mesma cor amarela, mas também é um fato sobre nossa experiência que uma delas parece ter uma cor amarela clara e a outra parece ter uma cor amarela escura. Em outras palavras, temos consciência de que as paredes são da mesma cor, mas também temos consciência de que uma parede parece mais clara e a outra parede parece mais escura. A aparência de que uma parede é mais clara do que a outra é claramente um fato sobre a nossa experiência. Desse modo, além de representarem as propriedades dos objetos, as experiências perceptivas apresentam também suas aparências e, consequentemente, devem existir propriedades não representacionais. Isso contrapõe a tese de que o conteúdo representacional seria suficiente para explicar o caráter fenomênico envolvido nas percepções. Portanto, assim como objeções pesam contra a teoria dos dados dos sentidos, a teoria de Harman não explica a fenomenologia satisfatoriamente.

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Quando o sentido é subvertido

As nossas percepções parecem nos colocar em contato direto e imediato com o mundo ao nosso redor. Porém, um dos motivos de desconfiarmos delas é que podemos tomar um caso perceptivo inverídico por uma percepção genuína e nos enganarmos a respeito do que percebemos. O que a nossa experiência perceptiva nos mostra pode não existir no mundo, tal como acontece nos casos alucinatórios. Isso deu margem à teoria subjetivista que defende a existência de objetos mentais, privados e não físicos em todas as percepções e, assim, apreenderíamos o mundo de forma indireta, uma vez que existiria uma interface entre quem percebe e o que é percebido. Entretanto, como vimos, por meio da tese da transparência, os intencionalistas argumentaram que as experiências nos mostram somente o seu conteúdo representacional e, assim, o subjetivista se equivoca na medida em que, nas percepções não estaríamos conscientes de objetos mentais. Além dessa objeção, o subjetivismo traz consigo o problema de justificar as nossas crenças sobre o mundo a partir de objetos teóricos privados a uma mente.

 

Mas eliminar objetos mentais da Fenomenologia da Percepção não é tarefa fácil. Isso foi mostrado por Peacocke ao argumentar que o conteúdo intencional não é suficiente para explicar o que aparece à consciência de quem percebe. Portanto, mediante os problemas levantados contra as teorias  filosóficas que vimos, não existe explicação satisfatória para o que é o caráter fenomênico das percepções e, desse modo, sobre qual a natureza das experiências perceptivas. Serão estas constituídas por aspectos da realidade exterior apreendidos pelos nossos sentidos, como quer a concepção ordinária? As qualidades sensíveis são explicáveis por objetos não físicos ou por referência a propriedades objetivas? Responder a essas questões é fundamental para uma teoria da percepção que se pretenda  filosófica, pois esta não pode prescindir do que é vivenciado pelo sujeito que tem consciência fenomênica.

 

Uma terceira via

Embora subjetivistas e intencionalistas discordem sobre o que é o caráter fenomênico das experiências, eles concordam que alucinações indiscrimináveis de percepções verídicas compartilham a mesma Fenomenologia. Isso implica dizer que esses filósofos consideram que o que é experienciado pelo sujeito é suficiente para que se atribua o mesmo caráter fenomênico àquelas experiências perceptivas. Contra isso, surgiu o disjuntivismo fenomênico, tendo Michael Martin como seu principal representante.

 

No entender de Martin, a experiência de alguém não o autoriza a afirmar que o caráter fenomênico é o mesmo nos casos alucinatórios indiscerníveis dos verídicos. Ou seja, não decorre que, de experiências parecerem iguais à pessoa que elas têm algo em comum. Isso abre espaço teórico para o disjuntivista defender que estas situações não têm nada em comum, ainda que pareçam fenomenicamente indiscrimináveis. Portanto, essas experiências perceptivas seriam completamente diferentes. Daí tratarem- -na por uma disjunção: ou a pessoa viu de fato algo ou pareceu-lhe ver algo. Ou seja, alucinações indiscrimináveis de percepções verídicas são experiências perceptivas com naturezas diferentes. Essa posição permite a Martin defender que, nos casos verídicos, os “objetos são constituintes da experiência, ou que suas reais naturezas determinam o caráter fenomênico da experiência”.2 Desse modo, retorna-se à concepção comum de percepção ao tratar os objetos da experiência perceptiva nos casos verídicos como objetos no mundo, não como objetos mentais ou objetos intencionais. Mas o que dizer do que aparece à consciência de quem alucina?

 

Martin defende que a única caracterização que podemos dar à experiência alucinatória é o seu caráter de indiscriminabilidade. Não existiriam dados dos sentidos, conteúdos intencionais falsos ou outra coisa que a caracterizaria fenomenicamente, isto é, o que se pode falar sobre a fenomenologia da alucinação é a propriedade de ser indiscriminável das percepções genuínas.

 

Entretanto, negar que alucinações indiscerníveis ao sujeito compartilhem o mesmo caráter fenomênico das percepções verídicas é o principal problema enfrentado por Martin, pois “o que mais pode existir para o caráter dos estados conscientes da mente que a pessoa possa por si discernir quando ela reflete sobre eles?”.3 Ou seja, essa teoria é desafiada a demonstrar que nas percepções verídicas existe uma diferença experiencial em relação às alucinações, mesmo que esta última seja para a pessoa subjetivamente indiscriminável de um caso verídico. E isso é um grande desafio.

 

 

 

*Daniel Borgoni é Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Fez o seu mestrado na mesma instituição com a dissertação a Consciência Fenomênica. Sua pesquisa atual trata da natureza da Experiência Perceptiva.

Contato:danielborgoni@gmail.com

Adaptado do texto “Inventigando a Percepção”

Revista Filosofia Ciência&Vida Ed.117