Pensando o Existencialismo

Diversas são as correntes e doutrinas filosóficas que ao longo dos séculos tentaram transmitir uma determinada forma de falar do homem, ou melhor, de compreender o homem

Por Cassio Donizete Marques* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

As filosofias da existência nascem num contexto próprio, marcado pela crise, num mundo dilacerado por duas grandes guerras, onde o homem se vê com um poder sem igual nas mãos. A existência neste momento necessita de uma justificação, pois se o homem continua a viver é devido a uma decisão própria. Como diz Jean-Paul Sartre.

 

A humanidade inteira, se continuar a viver, não será simplesmente porque nasceu, mas porque terá decidido prolongar sua vida. Não existe mais espécie humana. A comunidade que se fez guardiã da bomba atômica está acima do reino natural, porque é responsável por sua vida e por sua morte; a cada dia, a cada minuto, será preciso que consinta em viver. Eis o que experimentamos hoje, na angústia (apud GARAUDY, 1968, p.4).

 

A vida parece sem sentido, a morte está presente de forma desumana a retirar os diversos valores até então presentes. Os valores, os princípios e até mesmo as ilusões, muitas vezes mantidos por correntes e sistemas filosóficos, ruíram, já não respondem mais às novas condições da existência humana. O mundo se encontra destituído da presença do próprio homem e mostra toda sua fragilidade. Como diz Gabriel Marcel “Nenhum de nós, creio eu, suspeitava a fragilidade, a precariedade desta civilização (…) a qual a contribuição de tantos séculos parecia nos ter conferido uma solidez tal, que teria sido um desatino, e mesmo uma impiedade, colocá-lo em dúvida (…) (apud GARAUDY,1968, p. 8). Neste sentido, as filosofias da existência vêm procurar dar uma significação à existência humana, recolocando o homem como ser existente e condutor de seus atos, como projeto a ser realizado através de cada opção. O homem se torna escolha que se compromete a si mesmo e aos outros.

 

Amplitude do tema

O termo existencialismo tornou-se tão amplo que é necessário tomar cuidado para não englobarmos pensadores que muitas vezes são colocados indevidamente nesta corrente. Se olharmos a história da filosofia constatamos que diversos pensadores se preocuparam em elaborar uma reflexão sobre o homem e sua condição humana, porém isso não os coloca como filósofos da existência.

 

A história do pensamento está sulcada por uma série de ‘iluminações’ existencialistas, que foram para o pensamento outras tantas conversões a si próprio, outros tantos regressos à sua missão original. É o apelo de Sócrates opondo às divagações cosmogônicas dos físicos da Jônia o imperativo interior do ‘Conhece-te a ti mesmo’. É a mensagem estóica, chamando ao auto-domínio, ao enfrentar do destino… É São Bernardo e a sua cruzada em nome de um cristianismo de conversão e salvação contra a sistematização da fé tentada por Abelardo. É Pascal, erguendo-se no limiar da grande aventura cartesiana contra aqueles que aprofundavam demasiado as ciências e pouco se inquietavam com o todo do homem, sua vida e sua morte (MOUNIER, 1963, p.11-12).

 

As filosofias da existência tomaram forma a partir da meditação essencialmente religiosa de Soren Kierkegaard, no século XIX. Ele forneceu os elementos fundamentais da reflexão existencialista e teceu uma série de críticas a diversos pensamentos filosóficos anteriores. Ele diz “se eu penso a existência, eu abulo-a. Mas aquele que a pensa existe. A existência encontra-se posta ao mesmo tempo que o pensamento (apud WAHL, s/d, p. 46).

A visita de Sarte ao Brasil

 

Como podemos falar objetivamente de uma filosofia que possui como valor primeiro a subjetividade? Ao falar dela e tentar defini-la não estaríamos fugindo de seu princípio? Por outro lado encontramos também a presença da subjetividade em outros pensamentos como o de Sócrates e mesmo o de Descartes. Por onde então começar a refletir sobre a filosofia da existência? Será que ela não é antes uma proposta de vida para depois ser uma proposta de reflexão? Mesmo diante destas interrogações me arrisco a colocar alguns conceitos sem os quais não haveria filosofia da existência, seja ela teísta (Kierkegaard, Marcel) ou atéia (Sartre).

 

Jean-Paul Sartre

Já foi colocado que o tema fundamental desta filosofia é a existência, entendida como o modo de ser próprio do homem no mundo. Esta é sempre atual uma vez que ela não é, mas cria-se a si mesma, projetando-se na temporalidade. O homem é sua existência. Mounier (1963, p. 11) caracteriza o pensamento existencialista como sendo “uma reação da filosofia do homem contra o excesso da filosofia das ideias e da filosofia das coisas.” Ela é a filosofia do homem antes de ser a filosofia da coisa. Tem-se uma valorização da subjetividade que vem se opor à objetividade. É Kierkegaard quem primeiro vai conduzir o indivíduo a seu ‘verdadeiro’ lugar, colocando-o como categoria essencial da existência. Um indivíduo concreto que vai, através da dialética existencial, apropriar-se da verdade mais profunda que está ligada à raiz da existência que é o próprio indivíduo. Existência marcada pela singularidade é característica apenas da existência humana. Com isso, a filosofia da existência passa a ser assinalada pelos sentimentos de angústia, faticidade, solidão, desespero, tensão, ambiguidade, liberdade, situação e outros que são vistos de diferentes formas por diferentes pensadores.

 

O existir em todas as suas dimensões se faz presente nas filosofias da existência e a existência muito mais do que um conceito é um sinal que vai além de toda objetividade e que se conhece a si própria através do próprio existir. A existência não é definível, é um constante ir sendo. Ela não é um atributo do ser, mas a realidade de todos os atributos, não é um estado, mas um ato. É a passagem do ex da ex-sistência para o sistere, ou seja, é um movimento de transcendência a partir da situação.

 

As filosofias da existência rejeitam a formação de sistemas e noções abstratas, pois estas retiram a liberdade e a responsabilidade do homem. Um sistema é conclusão, é ponto de chegada. A existência é ponto de partida que vai se dar, que vai se construir a cada decisão, a cada opção. Ao tratar do existente concreto, as filosofias da existência não podem deixar de lado a dimensão do mundo e do outro, a chamada situação. O homem co-existe (Heidegger) ele é comunicação (Jaspers) é o tu (Marcel).

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 12

Adaptado do texto “Pensando o Existencialismo: notas para uma reflexão”

*Cassio Donizete Marques é professor de Filosofia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP).