Paulo Freire em debate

José Eustáquio Romão mergulha nas ideias e na importância de Paulo Freire para o debate pedagógico

Por Edgar Melo | Foto: Instituto Paulo Freire| Adaptação web Isis Fonseca

Paulo Freire

Os princípios e os referenciais teóricos formulados e defendidos por Paulo Freire não apenas continuam válidos como podem ser considerados essenciais, neste momento da contemporaneidade brasileira.

Para validar tal afirmação e esclarecer inúmeros e polêmicos pontos presentes em toda e qualquer discussão sobre o pensador e educador, convocamos o Diretor fundador do Instituto Paulo Freire, José Eustáquio Romão.

Para ele, as ideias de Freire podem ajudar na resistência ao mercantilismo que assola os sistemas educacionais, principalmente o subsistema de educação superior. Romão é graduado em História e Doutorado em Educação, pela USP. Hoje, é Diretor e Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (Doutorado e Mestrado), na Universidade Nove de Julho (UNINOVE).

Foi conselheiro do Conselho Nacional de Educação (2013-2016), além de ter escrito mais de dez livros, dos quais se destacam Avaliação dialógica (1998); Dialética da diferença (2000) e Sistemas Municipais de Educação (2010); e dezenas de outros artigos publicados em revistas científicas nacionais e estrangeiras.

Por desenvolver estudos sobre o pensamento de Paulo Freire, Romão é o nome certo para nos guiar nas próximas páginas em busca do real sentido dos conceitos freireanos.

Após os protestos de 2013 e a polarização intensa presente na política nacional, Paulo Freire voltou a ser debatido e questionado de maneira até agressiva. O senhor, de alguma forma, já foi alçado a questionar ou defender a obra de Freire?

Não tem sido frequentes as manifestações contra Paulo Freire. Pode-se dizer mesmo que Paulo Freire é quase uma unanimidade mundial. No Brasil, de vez em quando, surge uma oposição, aqui e ali, certamente porque é mais difícil “santo fazer milagre em casa”. Contudo, quando aparecem, as críticas, têm sido tão superficiais, que beiram o ridículo e, por isso, ao contrário de alguns colegas freiranos, sou contra qualquer resposta ou contestação a determinado tipo de crítica destrutiva, porque seria valorizar o ridículo.

Além disso, como você destacou em sua própria pergunta, em geral, as manifestações dos críticos de Paulo Freire vêm de uma “direita” enraivecida por seu suposto “viés esquerdista”, que não merece crédito. Diante dessas manifestações, fico muito tranquilo, porque desse tipo de pessoas, o estranho seria concordarem com Paulo Freire.

Se surgissem posições críticas mais consistentes, penso que deveríamos levar a sério, prestar muita atenção nelas e discuti-las, porque os freirianos não formam uma seita. Aliás, Paulo Freire insistia muito na ideia de que não queria discípulos, que ficaria muito incomodado se seus companheiros e companheiras de luta formassem uma igreja. Insistia, inclusive, que aqueles e aquelas que concordassem com suas concepções não deveriam repeti-las, mas reinventá-las em cada contexto.

Essa leitura que os conservadores têm sobre a filosofia da educação em Paulo Freire é equivocada? De que maneira jovens professores devem encarar suas ideias?

Penso que, numa discussão científica, o equívoco seria assumir uma posição de proprietário da verdade universal e absoluta julgando os demais como  equivocados”. Estou convencido de que a ciência é um processo e todo discurso científico, por mais objetivo que seja, é sempre construído a partir de um ponto de vista, portanto, marcado pelas trajetórias histórico-sociais de que o enuncia.

Somente os discursos auto-referenciados sentem-se no direito de afirmar que estão corretos e que os demais estão equivocados. O conservadorismo tende a se equivocar mais, não porque esteja contra Paulo Freire, mas porque seus seguidores se fixam nas estruturas, quando tudo é processo. Em termos mais simples, como dizia Piaget, não existe estrutura, mas processo de estruturação.

O conservadorismo trabalha, quase sempre, com o instituído, jamais com o instituinte, porque querem manter o status quo. Por isso são conservadores: querem conservar o que está instalado e legitimado pela opinião da maioria. Estou convencido que as oposições conservadoras a Paulo Freire se devem, fundamentalmente, ao princípio freiriano de que “o mundo não é; o mundo está sendo”.

Os jovens educadores devem estudar Freire e verificar se ele os convence. Sempre que determinada ideia, conceito ou categoria científico-epistemológica é contestada, devemos ir nos pensadores originais e verificar o que nos convence. Portanto, o melhor caminho para dar razão a Freire é lendo o próprio Freire. É o poder das próprias ideias de Freire que deve nos convencer, ou não. Não é pela “propaganda” de seus seguidores e amigos que se vai convencer a quem quer que seja sobre o valor do legado freiriano, mas a força de suas contribuições à ciência em geral e à pedagogia em particular.

Como é possível aplicar Paulo Freire para a educação superior?

Como é sobejamente sabido, Freire ficou mundialmente conhecido por suas contribuições à Educação Popular e, neste campo, à Educação de Adultos. No entanto, sua obra é muito mais vasta do que a criação de um método de alfabetização de adultos, como querem marcá-lo. O próprio Paulo Freire, quando indagado sobre a criação do “método”, dizia que “sim” e que “não”.

O chamado “Método Paulo Freire” era, e é, uma realidade, mas a obra freiriana não se limita a isso, ela é muito mais vasta. Eu costumo afirmar que Paulo Freire não é apenas um dos grande educadores e pedagogos do século XX, mas que se insere no universo dos grandes pensadores desse século. Suas ideias ultrapassam, inclusive, o campo da educação e das ciências sociais.

Por isso, é aplicado em várias áreas do conhecimento e da ação humana, como se pode compulsar na obra de vários pesquisadores da economia, da antropologia, da sociologia, da história, da física, da medicina etc. No caso da educação superior, estamos concluindo um levantamento de suas formulações teóricas e de suas intervenções nesse universo. Há muita coisa.

Logo publicaremos um livro sobre Paulo Freire e a Educação Superior. Pode-se adiantar que, pelo número de dissertações de mestrado, teses de doutorado, de projetos de pesquisa sênior, artigos e livros que relacionam as ideias de Paulo Freire com a educação superior de que temos notícia, mais do que nunca é necessário “reinventá-lo”, não repeti-lo, na educação superior, neste século, atendendo o reiterado pedido que o próprio Freire fazia em vida.

Adaptado de Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 132. Garanta a sua pelo site!