Ouvindo vozes

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Não é a primeira vez que falo do psicólogo e filósofo Julian Jaynes (1920-1997) nesta coluna. Em seu livro The origins of consciousness in the breakdown of the bicameral mind (1976), Jaynes propôs uma das mais audaciosas teorias da consciência já formuladas até hoje.

 

Para ele, a história humana, e não apenas a evolução do cérebro, tem um papel fundamental no surgimento da consciência. Nossa consciência introspectiva, que incluiu um “eu” interior com o qual confabulamos o tempo todo, tem pouco mais de 3 mil anos de existência. A mente como confabulação, como comentário do pensamento sobre ele mesmo, é uma aquisição humana recente.

Relacionamentos pós-modernos

 

Jaynes sugere que o surgimento da consciência depende de um uso específico da linguagem que, em um determinado ponto de sua evolução, tornou possível a recursão, ou seja, a capacidade da mente humana de se referir a ela mesma, de poder pensar seus próprios pensamentos. A paráfrase e a metáfora foram operadores linguísticos importantes para que a recursão fosse possível.

 

Contudo, o operador fundamental para que a mente pudesse se referir a ela mesma foi possibilitado pela geração do pronome “eu”. O operador “eu” levou à criação de todo vocabulário mentalista que utilizamos hoje, que incorpora termos como “acreditar”, “desejar”, “ter intenção de” etc. Com esses termos, descrevemos um conjunto de estados que consideramos internos, isto é, que ocorrem somente em nossas mentes. A autorreferência possibilitou que a mente passasse a conversar consigo mesma, dividindo-se, assim, em duas. Há uma mente que pensa e outra que confabula sobre esses pensamentos. Essa mente, dividida em duas partes, é o que Jaynes chama de “mente bicameral”.

 

A arte de materializar o pensamento

 

Para escrever seu livro, Jaynes procura nos textos da Antiguidade os primeiros indícios do uso de um vocabulário mentalista que, por estar associado ao aparecimento da mente bicameral, permitiriam situar historicamente o surgimento da consciência. Povos nômades que viajaram pelos continentes, antes de inventarem a agricultura e a escrita e não tinham um eu introspectivo.

 

Os povos da Antiguidade também não tinham uma noção de “eu”. Jaynes baseia essa conclusão na análise de textos como a Ilíada e de outros textos da Antiguidade nos quais não há termos mentalistas. Tampouco no Velho Testamento ocorrem esses tipos de palavras. A mente bicameral só apareceu mais tarde na história.

 

O aparecimento do operador “eu” foi uma mudança radical no software linguístico humano. Mas, o que ocorria no período anterior ao aparecimento da mente bicameral? Os povos antigos viviam assombrados pelos fenômenos naturais como terremotos, enchentes e secas, que, para eles, se sucediam de uma forma praticamente inexplicável. Nessa época, era frequente algumas pessoas ouvirem vozes. Ouvir vozes era uma forma de estabelecer um contato direto com as divindades e, assim, receber instruções na hora de tomar decisões. Essas pessoas nunca julgaram que essas vozes fossem produzidas por suas próprias mentes, pois a mente introspectiva, bicameral, ainda não existia.

 

Lidando com a raiva

 

Hoje em dia, classificaríamos essas pessoas como esquizofrênicos com alucinações auditivas. Mas será que a ordem cruel de Yahweh (Deus) para que Abraão sacrificasse o próprio filho pode ter sido também apenas uma alucinação auditiva?

 

O período anterior ao bicameralismo deixou alguns fósseis psicológicos interessantes. Surgiram oráculos e feiticeiros em várias partes do mundo tentando reestabelecer o elo perdido com as divindades. Muitas vezes ouvimos pessoas se referindo a seus anjos da guarda na hora de tomarem decisões difíceis. Há, também, muitas pessoas que se utilizam de práticas heterodoxas, como a astrologia e o tarô, para estabelecer um contato com as divindades e, assim, tentar adivinhar o futuro.

 

A teoria de Jaynes hoje é considerada por muitos filósofos da mente e pelos neurocientistas como uma hipótese fantasiosa. Existem muitos preconceitos contra a ideia de ouvir vozes, embora saibamos que ouvi-las de vez em quando não é, necessariamente, um sintoma de esquizofrenia. No seu livro A mente assombrada (2012), o neurologista americano Oliver Sacks relata seu contato com vários pacientes que ouviam vozes, mas que não eram esquizofrênicos. Nem todas as vozes que ouvimos são patológicas e, frequentemente, elas são apenas indício de estresse agudo.

 

O que define nossa humanidade

 

Na nossa cultura, a tecnologia impõe que ouçamos cada vez mais vozes que vêm de fora. Ouvimos vozes que vêm de celulares e vários tipos de instruções vocalizadas por máquinas, como o GPS, as saudações na chegada dos estacionamentos de shoppings e as gravações dos elevadores que anunciam sua chegada em cada andar. Quando ouvimos essas vozes, simplesmente fazemos o que elas nos mandam. A tecnologia está se tornando nossa maior interlocutora.

 

Será que estamos regredindo para uma época pré-bicameral? Será que estamos perdendo a consciência introspectiva? O tempo que dispomos para confabular está desaparecendo sob a avalanche de e-mails e mensagens das redes sociais que preenchem nosso cotidiano. Cada vez nos distanciamos mais da imagem do homem nietzschiano, do animal primordialmente ruminante que masca suas próprias ideias a maior parte do tempo.

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar).
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Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 103