Ódio e intolerância

Com o resultado das eleições presidenciais de 2014,instaurou-se no Brasil uma polarização política que foi potencializada pela massificação e intensificação das redes sociais

Por Rafael Lancelotte* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A intensa polarização no Brasil transcendeu o campo político e adentrou os lares, afetou amizades, cindiu famílias, e trouxe a tona uma faceta distorcida da democracia: a intolerância e o ódio.

 

Dentro do contexto iluminista, Voltaire indica que a intolerância seria fruto de uma irracionalidade dos sujeitos, que deixam suas paixões cegarem a percepção da realidade e silenciarem a voz da razão. Logo, a tolerância deve surgir do uso da nossa faculdade racional em refletir sobre o argumento do outro, mesmo que discordando profundamente de suas premissas, pois é assim que, pacificamente, constrói-se o consenso e evitam-se injustiças. Inclusive é curioso trazer o contexto em que sua obra, Tratado sobre a Tolerância é escrito, por dialogar com o momento político vivido no Brasil. A obra, escrita em 1763, foi motivada pelo acirramento de conflitos entre protestantes e católicos na França, que culminou com a condenação à morte do calvinista Jean Calas em 1762, acusado de ter matado seu filho que, segundo boatos, pretendia se converter ao catolicismo. O julgamento teve forte apoio da população católica e teve desdobramentos. Informado sobre os acontecimentos, Voltaire redige o Tratado sobre a Tolerância entre outubro de 1762 e abril do ano seguinte, discutindo os erros do processo e o clima de intolerância religiosa contra Jean Calas depois da morte por suicídio de seu filho Marc-Antoine Calas. Ainda em março de 1763 o caso é reaberto pelo Conselho do Rei. Dois anos depois Jean Calas é oficialmente inocentado e sua família indenizada pelo Estado francês.

A Ética no discurso político

 

Essa “cegueira da razão” traz à tona uma reflexão sobre o ethos do brasileiro discutido por Sérgio Buarque de Hollanda em sua obra clássica “Raízes do Brasil”. Nessa obra, Sérgio Buarque afirma que os traços mais marcantes da identidade brasileira seriam a cordialidade e o autoritarismo. Por cordialidade Sérgio Buarque entende o brasileiro movido pelos sentimentos e emoções e não pela razão. Com isso há uma confusão entre as dimensões pública e privada, desenvolvendo certa informalidade e desprezo pelas formas republicanas de relacionamento, produzindo como consequência um estranhamento à formação de uma democracia liberal plena.

 

Ódio e contexto

 

 

Nossos afetos tornam-se confusos à medida que nos entristecemos e assim passamos a odiar tudo aquilo que não apetece nosso ser. O ódio torna-se o elo entre um corpo e o mundo exterior que o afetou. Relacionamos de modo eficiente a tristeza a uma causa e elegemos vilões, pois não suportamos assumir a responsabilidade pela nossa tristeza. Dividimos, separamos e excluímos. O mundo de quem odeia é um mundo visto sem nuances, sem áreas de contato. Enfim, um mundo radicalizado e unidimensional.

 

O ódio dinamiza e libera a ferocidade e a violência: “Esforça-se por afastar e destruir a coisa que odeia” (prop 13, corolário). A tristeza potencializa a agressividade e faz nascer a desonestidade intelectual e o pensamento raso e acrítico. Difamamos, revidamos e fechamos os olhos para a pluralidade de posições e para a complexidade dos fatos. Acreditamos na verdade unilateral e dedicamos nossa empatia apenas àqueles que carregam nossa fé. Essa empatia seletiva é um recurso de proteção do próprio ódio, que se alia a mais profunda vontade de conservação, movimentando grandes demonstrações destrutivas sem nenhuma perspectiva de construção.

Lidando com a raiva

 

O ódio nos faz criar gosto pela negação e anulação do outro e assim afastamo-nos da política e da construção de uma pauta comum, do consenso e do melhor argumento. Provém daí a intolerância, atitude que inviabiliza a construção da democracia e do espaço público de debate.

 

Isso posto, como contraponto à constituição de um comportamento de intolerância, torna-se necessário compreender os fundamentos da tolerância e como ela pode ajudar na construção de valores republicanos e democráticos.

 

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Primeiramente, temos que compreender que a tolerância é uma virtude moral, logo se enquadra como atributo do indivíduo e, dessa forma, circunscrita à subjetividade do comportamento do sujeito. Porém, a tolerância não se aplica a todo e qualquer comportamento humano, mas apenas aquele que nos coloca frente a outro indivíduo cuja manifestação desaprovamos e que, de alguma forma, contraria uma forma de pensar, agir e se comunicar que julgamos corretas. Assim sendo, a tolerância pressupõe a existência de uma relação com outro indivíduo baseada no respeito à alteridade e regida por um esforço em sobrepor nossos afetos negativos ao exercício da racionalidade.

 

Como percebemos a tolerância se vincula com os valores democráticos, porém esses valores não são naturalmente internalizados, sendo necessária a constituição de uma educação para a democracia, cultivando nos indivíduos, desde a infância, a cultura da tolerância a partir do debate, da reflexão, do respeito à alteridade e à diversidade. Estimular a reflexão sobre os afetos e a organização do ego, permitindo uma compreensão maior do “eu” e garantindo ao outro o direito de existir e manifestar sua subjetividade. Em outras palavras, tolerar significa estender ao outro os mesmos direitos que reivindicamos a nós mesmos.

 

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*Rafael Lancelotte é graduado em Ciências Sociais pela USP e pós-graduado em Filosofia, leciona Filosofia e Sociologia desde 2004. Atualmente é professor do Cursinho da Poli, onde desenvolve projetos interdisciplinares com foco na construção do pensamento crítico dos alunos.

Adaptado do texto “Relações sociais modernas”