Ocupação do regime estético sobre a representação

Uma representação no regime estético é o outro lado deste regime; representação é uma relação de dependência entre a vida e as artes e, portanto, uma ruptura com a promessa de autonomia estética

Por Yonathan Listik* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Estética e representação não são duas estruturas de conhecimento distintas. Em certa medida, elas são a mesma estrutura, pois o regime estético inclui a representação e eles não existem separados um do outro. A Estética do mundo moderno não é uma evolução ou a escalada da representação do passado, mas de fato cria a representação do passado. O regime representativo só existe a partir do regime estético: “Fazer uma distinção entre os regimes, então, não quer dizer que a partir de tal e tal momento em diante tornou-se impossível criar a arte da mesma maneira; que em 1788 fazia parte da arte do regime representativo e, em 1815, parte do regime estético. A distinção não define duas épocas, mas dois tipos de funcionamento; não de uma oposição entre dois princípios constituintes, mas uma entre duas lógicas, duas leis de composição, dois modos de percepção e de inteligibilidade; não entre dois princípios de exclusão, mas, sim, entre dois princípios de coexistência”.

 

Ainda assim, eles não são a consequência de um outro. Não é o caso que somente dentro do regime estético é possível um regime representativo como no argumento de que só dentro de uma certa perspectiva a alternativa é possível. Por exemplo, um argumento aceitável é que somente dentro de uma perspectiva tridimensional é possível até mesmo considerar perspectiva como um fator nas Artes e, portanto, a questão da planicidade. É possível argumentar que, até certo período de tempo, a perspectiva não era um problema nas Artes, mas em um determinado momento a profundidade foi “descoberta” e deste ponto em diante algo essencial sobre a visibilidade tornou-se conhecido. Esse novo regime determina/ordena nossa sensibilidade de maneira que não há retorno dele. Uma vez que a perspectiva é um dado, não há esquecimento dela. Por mais que nós nos esforcemos em imaginar uma estrutura do sensível que não inclui profundidade, isso não seria possível, já que a organização alternativa de visibilidade só existe dentro da nova estrutura. Essa tentativa seria um parasita da nova perspectiva.

 

O regime estético de Jacques Rancière (1940) não funciona dessa maneira, pois não absorve completamente a representação, que está sempre presente como diferença e até mesmo como uma proibição na Estética. Os outros regimes continuam presentes como uma sobra/excesso da ocupação estética. Ao mesmo tempo, é claro que outros regimes podem existir apenas dentro de suas relações com a Estética. O regime estético cria a condição que permite a representação ser um problema. Só dentro de uma divisão do sensível que se preocupa com uma determinada relação entre a vida e o mundo, a representação pode ser um problema. A representação é um problema apenas quando a Arte já não pode representar nada. A representação aparece apenas como uma proibição dentro do regime estético.

 

Como o entendimento intuitivo da palavra já demonstra, um “regime” é uma forma de organização. É a determinação de uma política que governa/coordena a ação, que regula as operações dentro de uma esfera específica como em uma configuração de um poder administrativo. Em sua força reguladora já está implícita uma relação de autoridade sobre um elemento estranho/oposto interno. Como foi anteriormente mencionado, fala-se de dentro do regime estético e é impossível falar de outros regimes separadamente da Estética. Em vez disso, pretende-se explorar o significado do regime no contexto do regime estético. O regime estético é uma série de axiomas que determinam o significado/sentido atribuído ao produto sensível da operação artística. É uma marcação/divisão/demarcação de uma política específica do sensível, uma divisão de espaço e tempo. É a articulação entre a visibilidade, o fazer/criar e a conceituação de ambos e também a relação entre estas operações. É uma organização das faculdades, uma ordenação ou desordenação da relação entre o conhecimento e a sensibilidade (Aesthetic dimension). Isto significa que não é uma escola ou ideologia específica, mas o espaço em que estas estruturas de conhecimento acontecem. Trata-se da possibilidade ou impossibilidade de se fazer alguma coisa visível ou invisível dentro de um contexto específico de conceituação desse processo. Trata-se da racionalidade a priori da interpretação.

 

 

Um regime é a consolidação de uma partilha do sensível em detrimento de outras. A partilha do sensível é a lei evidente em si mesma que rege o sensível traçando os espaços e formas de sua aparência. Esta distribuição cria o mundo comum em que as coisas podem ser inscritas e, por conseguinte, impõe um regime do sensível. Ela determina a participação no que é comum. Ela determina a participação neste mundo. O sentido básico da palavra já aponta nessa direção: a distribuição é tanto a partilha quanto a divisão de alguma coisa. É precisamente a união na separação. Como um contrato social que estabelece o espaço comum apenas por marcação das esferas internas. Isso significa que ele traça os fatos implícitos sobre o que é sensível. É a forma de inclusão ou exclusão do sensível. Sensível é o aistheton ou o que é capaz de ser percebido, as formas a priori de determinar o que se apresenta para a experiência sensorial e como ele se apresenta. A partilha do sensível é o que determina esta a priori da sensibilidade.

 

Estética e sensibilidade

Estética claramente não é apenas o estudo/interpretação da Arte. Ela não diz respeito somente à Arte e seus efeitos sobre a sensibilidade, não tem a Arte como seu objeto final. Estética é, de fato, pensando Artes como uma partilha do sensível, que impõe/assume-se Arte: “Isto não é uma questão de ‘recepção’ de obras de arte. Pelo contrário, trata-se do tecido sensível da experiência dentro do qual elas são produzidas […] Estas condições tornam possível que as palavras, formas, movimentos e ritmos possam ser sentidos e pensados como Arte”. Arte aparece como um conceito, como resultado da revolução Estética. Quando o regime representativo é questionado, o regime estético impõe-se em seu lugar. É uma revogação da subordinação das formas pictóricas às hierarquias poéticas. Isso não significa que abandonamos o poder das palavras; pelo contrário, a palavra torna-se a força de expressão em vez de o poder de representação pictórica. No regime representativo é possível discutir sobre o que as artes devem ou não ser, mas na Estética a Arte apenas é. Através de uma mudança na Linguagem, o representado se torna um estado da matéria com uma nova categoria de presença. Ele é presença autônoma e não uma presença que representa um objeto exterior a si mesmo. Um novo sujeito aparece na superfície, não é apenas uma mudança na forma de leitura. É uma nova forma de visibilidade ou uma nova configuração de idioma. Palavras já não podem prescrever o que a imagem deve ser uma vez que não há nenhuma relação com o mundo, em vez disso, elas criam uma presença de imagem viva que é o mundo. Estética opõe a representação com a promessa de um “jogo livre”. Ou seja, uma nova forma de arte e uma nova forma de vida.

 

Talvez exista um aspecto ilusório, pois não há conquista ou ocupação. Não há nenhuma transição para o regime de Estética uma vez que outros regimes são simultâneos a ele. Representação não estava lá antes. Na verdade, não existe regime representante por si só. Ele já é sempre parte da Estética, apesar de mal ser ele. Não existe um momento ou evento que marquem claramente a substituição de um regime pelo outro. Ainda assim, o meu argumento é que, apesar de serem simultâneos, os dois regimes não são iguais ou formam uma imagem coletiva. Eles não são dependentes/condicionados um ao outro. Eles não são complementares. Há ainda uma diferença irremediável entre eles, eles não formam um todo. Há também uma ocupação de um pelo outro, a proibição de um dentro do outro. Há uma relação de política/força entre eles no sentido de que ­estes são ­regimes de arte e vida e não apenas estruturas de interpretação. Os regimes dizem respeito a uma organização de vida e a sua união em atrito cria uma situação política. Neste sentido, este artigo aborda regimes como na política do sensível e não sobre períodos da História das Artes.

 

Dissenso é o conflito entre o senso e o sentido (no original, ambos são “sens” [sense]). Entre dois sentidos da mesma coisa que não se conformam um com o outro. É o conflito entre a percepção sensorial e a compreensão, um conflito entre o regime e o sensorial. É o atrito entre vários regimes/órgãos dos sentidos. Desta forma, Estética é o coração da Política. Há sempre a Política na Arte e a Arte na Política. Há sempre um projeto de vida dentro da Arte e um projeto artístico dentro da Política. Como o conceito de divisão do sensível já mostrou, a Política e a Estética são a preocupação com a determinação do visível e do invisível, ou, em outras palavras, com a organização do sensível. A noção de dissenso adiciona o elemento de disputa para a divisão. Ela mostra como a divisão não é uma partição clara e contundente, mas, sim, relação entre espaços que é sempre dissensual e não consensual. O dissenso significa que a divisão não é um senso comum, mas, sim, um sentido autoritário que deve apagar/proibir outros sentidos a fim de eliminar o conflito intrínseco entre sentido e sentido.

 

O sublime e o belo artístico em Hegel

 

O exemplo da Juno Ludovisi é emblemático: Rancière usa análise de Friedrich Schiller (1759-1805) para ilustrar o princípio por trás do regime estético. A estátua supostamente está para si mesmo (autocontida). Ela não tem nenhum propósito ou vontade. Em outras palavras, não é uma obra de arte, é uma aparência livre. Nesse sentido, ela cancela a relação de passividade/atividade e traz um “jogo livre” com o espectador. Torna-se uma forma de vida. A condição para que seja Estética, nesse sentido, é ela não ser uma obra de arte. Ela deve ser autossuficiente, mas não dentro de si. Em vez disso, ela traz a promessa de uma vida coletiva autossuficiente que não separa a vida da Arte, uma vida sem esferas de atividade (divisão do sensível), a vida total. O projeto é eliminar a dicotomia passivo/ativo da representação e substituí-la por uma Arte de celebração coletiva. Como um festival grego, que inclui todas as pessoas em uma multidão catártica. Ela é autônoma, ao mesmo tempo em que representa uma promessa além de si mesma.

 

Arte, se não se opõe ao mundo, não prescreve uma vida diferente, não é uma tentativa de subverter a ordem. Ao mesmo tempo, adota a postura de oposição à ordem das coisas. Ela se opõe ao comercial, à publicidade, à commodity. A palavra “resistir” aponta ao mesmo tempo para algo que se recusa a mudar (persistindo em seu ser), e para algo que se recusa a permanecer em sua situação. Mais uma vez, a promessa problemática do poder de autonomia da arte (automanutenção) em simultaneidade com seu poder de partida (autotransformação). Neste sentido, Arte no regime estético é um monumento. É um testemunho de uma vida sublime que nunca pode ser.

 

Adaptado do texto “Ocupação do regime estético sobre a representação”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 108

*Yonathan Listik é mestrando pela universidade de Tel Aviv, atualmente em intercâmbio na Science Po, em Paris. Sua principal área de interesse é o pensamento atual sobre áreas como a arte, a política e a relação
entre elas.yonathan.listik@sciencespo.fr