O sublime e o belo artístico em Hegel

Uma discussão sobre a questão do belo no sistema filosófico de Hegel a partir de um diálogo com os argumentos sobre a Estética de Platão e Kant

Por Delmo Mattos* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Uma consideração inicial sobre a Estética hegeliana deve pressupor a ausência de um interesse investigativo sobre as diversas belezas inerentes às variadas manifestações artísticas, pois tamanha diversidade, na visão dele, impossibilitaria edificar uma ciência com validade universal, tal como realmente propõe-se a fazer. Nesse sentido, o fundamento da sua discussão sobre a Arte está irremediavelmente centralizado na ideia de belo.

 

Na concepção de Hegel (1770-1831), o belo artístico é superior qualitativamente em relação ao belo natural, uma vez que se trata de uma produção do espírito, e o espírito “sendo superior à natureza, sua superioridade se comunica igualmente aos seus produtos, e por consequência, à Arte”. Na perspectiva de Hegel, o belo artístico existe assim por oposição ao belo natural, mas não o nega, apenas supera-o, na medida em que na beleza natural só se encontra o contingente e, na sua concepção, é pura exterioridade, isto é, não se observa nela a efetividade e a presença conciliadora do espírito absoluto. Ao contrário, o belo artístico, objeto único da Estética, não reflete essa palidez acidentária, limitada e imperfeita que é essa exterioridade natural.

 

Ao afirmar que o espírito e a sua beleza artística estão acima do belo da natureza, Hegel tem o cuidado de esclarecer que o termo apenas estabelece uma diferença quantitativa e exterior, porque leva a concluir que a beleza artística e a beleza natural estariam lado a lado, quando na verdade não se trata de algo relativo, mas de caráter bem mais significativo.

 

Não obstante, a exclusão do belo natural realizada por Hegel não pode ser interpretada como arbitrária, nem fruto de seu capricho. Trata-se, expõe o filósofo, da sua perspectiva da beleza, assim como a convergência do que se apresenta como diverso na unidade conceitual do belo. Isso porque o conceito estabelece a harmonia, a unidade e a ordem, a fim de estabelecer um discurso filosófico sobre o belo.

 

De acordo com Hegel, a Estética não pode ser uma kallística, pois não pretende ser uma investigação sobre o belo em geral, mas sim sobre o belo na Arte

Tal consideração pode ser explicada pelo motivo que, segundo Hegel, o fundamento da Arte relaciona-se diretamente com a necessidade que o homem possui de “objetivar seu espírito”, transformando o mundo e transformando a si próprio. Não se trata de imitar a natureza, mas de transformá-la, a fim de que, pela Arte, possa o homem exprimir a consciência que tem de si mesmo, o valor ou o significado da Arte é proporcional ao grau de adequação entre a ideia e a forma.

 

Assim, a beleza natural é apenas bela para quem concebe a beleza, e enquanto forma é bela apenas para si mesma. Para nós, para o espectador, essa beleza, diante de sua necessidade, aparece apenas como um hábito de quem a contempla, e esse hábito é apenas uma necessidade subjetiva. Esse caráter particular da beleza da natureza aparece como a primeira deficiência do belo natural, que conduz à necessidade do ideal enquanto belo artístico.

 

É mediante esses termos que Hegel inicia suas Lições sobre Estética proclamando a ruptura com o pensamento transcendental kantiano, para o qual não há nem pode haver nenhuma ciência do belo. Criticando a etimologia dessa nova Ciência, a Estética tornar-se-á em Hegel Filosofia da Arte ou, mais precisamente, Filosofia da Bela Arte. O belo já não será a partir de então restrito a um julgamento de origem subjetiva, como era em Kant (1724-1804), mas se configurará como uma Ideia que existe na realidade, em obras de arte reais e históricas; ele superará, pois, os limites do juízo subjetivo de gosto para tornar-se uma manifestação objetiva do espírito: Ciência da Arte. A história dessa superação conceitual do belo, no entanto, não se dará sem algum impulso proveniente do próprio idealismo crítico.

 

A Filosofia, o belo e a universalidade

Na perspectiva de Hegel, a relação entre Arte e natureza é a do “pleroma”, quer dizer, um aperfeiçoamento, uma complementação de algo que supostamente está em falta. A Arte preenche a carência das coisas, ela transmite duração ao que na natureza só é finitude, transitoriedade. Arte é um processo de infinitização do finito. Não é o objetivo nosso aprofundar o diálogo virtual entre Kant e Hegel acerca do valor do belo natural, mas algumas questões podem ser colocadas. Em primeiro lugar, não é uma grande pretensão racionalista reduzir a beleza das coisas a um reflexo, quer dizer, a algo dependente, que não tem valor por e para si, mas somente para o outro.

 

Se o belo natural é reflexo, então ele apresenta uma história, ele pode refletir em diferentes épocas a respectiva sensibilidade de cada povo, de cada cultura. Quer dizer, não se trata nunca do olhar livre de todo conceito e significado como quer Kant. Uma questão mais radical seria: a exclusão da beleza natural da Estética não é um gesto pouco dialético. Porque a beleza da natureza não pode ser, segundo a lógica do conceito, aufgehoben (suspensa), quer dizer, conservada como um momento importante, embora inferior, no processo de realização do belo. Para Hegel, esse gesto de exclusão “vai nos parecer natural” porque nunca ninguém quis fundar uma ­Ciência que apresentasse sistematicamente as belezas da natureza. Isso se dá porque “a beleza natural nos faz sentir por demais no indefinido, sem critérios, e por si tal classificação apresentaria pouco interesse”.

 

Quando contemplamos com deleite uma paisagem, o prazer que aí sentimos é o prazer de admirar nossa própria imagem, reproduzida de forma ainda imperfeita na natureza

 

Hegel sacrifica o belo natural não em nome da Arte, mas em nome da Filosofia. A principal crítica que se pode fazer a Hegel é que suas justificativas para a recusa de integrar o belo natural na Estética baseiam-se em argumentos que não provam necessariamente uma carência conceitual da natureza, mas apontam muito mais para a incapacidade do conceito de apreendê-la.

 

O belo natural efetivamente não serve para a Ciência Estética, mas essa inadequação é o “traço do não idêntico no caminho da identidade universalizante”, sua indeterminabilidade é um espaço de liberdade que resiste a toda apropriação racional. O belo natural é a dimensão da sensibilidade em seu estado mais selvagem, ele pertence à dimensão do indizível e do impensável. Essa recusa do conceito no belo natural não deve ser vista como o ex-­estético, o fora da estética, o não estético, mas, ao contrário, talvez seja justamente a marca mais originária de toda experiência do belo.

 

A obra de arte é um constante convite à reflexão, ela nos interroga incessantemente, intima ao pensamento

Em termos gerais, Hegel não pretende demonstrar a ideia do belo, segundo os ditames da ­Ciência Positiva, que se baseia na verificação e experimentação do seu objeto, mas esclarecer que o conceito do belo e da Arte é um pressuposto dado pelo sistema da Filosofia, pois “a Filosofia da Arte constitui um capítulo necessário no conjunto da Filosofia”. Assim, importa defini-la enquanto parte da totalidade que compõe a ­Filosofia e como Ciência do belo artístico. Para elucidar essa questão, Hegel parte da seguinte problemática: “por onde iremos abordar a nossa Ciência que nos servirá de introdução na Filosofia do belo”, pois, para que a Estética seja afirmada como Ciência, precisa que sejam definidos seu objeto, seu método e sua fundamentação.

 

Nesse sentido, o objeto da ­Estética enquanto Ciência é o belo artístico que existe em obras produzidas pelo espírito e que refletem o seu conteúdo, esse objeto de ordem espiritual não encontra sua necessidade no imediatismo da existência puramente imediata como ocorre, por exemplo, nas ciências naturais. Se for assim, o belo artístico não se ocupa com o imediatismo, mas com algo que eleva o espírito a uma dimensão livre de toda necessidade imediata e transitória. Nesse sentido, o belo artístico é a ideia transfigurada em realidade efetiva.

 

A ideia é o ponto de encontro da racionalidade e da verdade, é ao mesmo tempo realidade e espiritualidade, na qual a ideia Absoluta é a totalidade, e a Arte, expressão da ideia; enquanto realidade configurada e em plena harmonia com seu conceito, é o ideal. Enquanto ideia, a Arte concilia o infinito no finito, representa o Absoluto numa matéria sensível ou plástica, presentifica o divino em elementos sensíveis, revelando-se a verdade da Arte. Nessa manifestação sensível, material, do espírito, a Arte contradiz sua própria forma, o que ela deve exprimir: seu conteúdo infinito, divino.

 

A Estética, assim compreendida, apresenta ligações com a Filosofia enquanto a Ciência que a antecede, uma vez que essa se ocupa do Absoluto, da totalidade e do ser, desse modo, a Estética encontra na ­Filosofia a sua fundamentação, enquanto um capítulo no conjunto da Filosofia. Só pensada nesse conjunto é que a Estética pode ser demonstrada e justificada a partir do caráter de necessidade que lhe advém da Filosofia. Nesse sentido, a ­Filosofia no seu conjunto possibilita o conhecimento como totalidade que se desenvolve a partir do conceito, em que cada uma de suas partes, ou seja, suas disciplinas, constitui um círculo que regressa ao conjunto da Filosofia.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 96

Adaptado do texto “O sublime e o belo artístico em Hegel”

*Delmo Mattos é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor responsável pelas disciplinas Ética e Responsabilidade Social, Conduta Ética e o Juiz e a Ética dos cursos de aperfeiçoamento da Fundação Getulio Vargas/RJ (FGV On-line). delmomattos@hotmail.com