O sonho do neurocirurgião

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Na semana passada fui a uma reunião de amigos na qual tive a oportunidade de conhecer um neurocirurgião. Quando ele soube que eu estudava Filosofia da Mente, prontamente começamos a conversar. Ele me contou, então, sobre uma das últimas cirurgias que tinha realizado.

 

Era o caso de uma moça que sofria de um tipo específico de zumbido auditivo. Ela ouvia, dia e noite, o barulho de uma cachoeira, um ruído que tinha se transformado na trilha sonora que a acompanhava em todos os momentos de sua vida. Ela tinha tentado vários tipos de tratamento, sem, entretanto, obter nenhum alívio.

 

O neurocirurgião me relatou que, por semanas, examinou minuciosamente o cérebro de sua nova paciente. Usando neuroimagens obtidas por meio de ressonância magnética, foi possível vasculhar cada milímetro do tecido cerebral. Por fim, um dos exames detectou uma anomalia: uma pequena veia do córtex auditivo estava encostada em outra.

 

O passo seguinte foi realizar uma cirurgia para abrir um minúsculo espaço entre essas veias, isolando-as de qualquer contato. Depois de alguns dias na UTI, a paciente se recuperou e relatou que o ruído da cachoeira tinha desaparecido. Ela quase se jogou aos pés da equipe médica em agradecimento pelo ­alívio que buscara durante tantos anos.

 

Meu novo amigo, o neurocirurgião, me disse, então, que aquela cirurgia podia ser considerada um marco histórico no desenvolvimento da Neurociência. Se uma veia encostava-se à outra e produzia o ruído de uma cachoeira, a paciente, certamente, estava ouvindo o fluxo de seu próprio sangue. O ruído da cachoeira era como uma transcrição mental da corrente sanguínea que fluía pelo cérebro. Uma semelhança estrutural entre o evento objetivo do fluxo de sangue e a experiência subjetiva, privada, do ruído de uma cachoeira tinha sido descoberta.

 

A descoberta dos neurônios espelho

 

O neurocirurgião me disse, sorrindo, que esse era um passo inicial, mas decisivo, para decifrar o problema da relação entre mente e ­cérebro. Certamente, esse era um caso isolado, mas que deveria ser considerado um experimento crucial para os filósofos da mente. Essa analogia entre o fluxo de sangue e o ruído de uma queda de água abriu uma janela entre o físico e o mental, entre cérebro e mente.

 

No futuro, continuou ele, examinar o cérebro será como ler uma partitura. Quem conhece a linguagem musical pode deduzir a música que está escrita, mas não pode antecipar se os sons formarão uma peça agradável aos ouvintes. Da mesma maneira, examinar o cérebro permitirá antecipar, em grande parte, a vida mental de uma pessoa. Ficará faltando, é claro, saber como os estados cerebrais serão vivenciados na forma de uma experiência subjetiva. Ou seja, não há como prever se a sinfonia cerebral será uma experiência agradável ou o ruído incômodo de uma cachoeira que pode até levar ao desespero.

 

Entusiasmado, o neurocirurgião previa, também, usos clínicos dessa nova descoberta cirúrgica. Em breve, o desconforto dos esquizofrênicos que ouvem vozes poderia ser resolvido por meio de intervenções neurocirúrgicas visando reestabelecer o funcionamento adequado de circuitos cerebrais.

 

Contudo, foi no momento seguinte que o neurocirurgião arriscou sua hipótese mais ousada. Se formos capazes de controlar as alucinações auditivas de um esquizofrênico, porque não controlar outras vozes no interior de nossa cabeça? Afinal, todos nós ouvimos vozes interiores o tempo todo, e isso nossa cultura denomina como “consciência”. O importante, dizia ele, não é estancar essas vozes, como no caso do esquizofrênico, mas apenas esclarecer, definitivamente, sua origem cerebral. As pesquisas em Neurociência nas próximas décadas permitirão que a humanidade se livre de um incômodo problema filosófico: explicar o que é a consciência.

 

Ouvindo vozes

 

Contei, então, para meu novo amigo que desde meados da década de 1980, um casal de filósofos, Paul e Patricia Churchland, vinha se dedicando ao projeto de aposentar a Filosofia por meio da Neurociência. Esse projeto, batizado de materialismo eliminativo, se baseia na aposta de que a Neurociência superará a Psicologia e a Filosofia. É um projeto mais ambicioso do que o próprio reducionismo mente-­cérebro, pois superar não significa extinguir, mas tornar algo obsoleto. Na maioria dos casos, a superação não significa a extinção imediata, mas a desautorização histórica e institucional de alguns tipos de conhecimento, como ocorreu, por exemplo, com a Astrologia em relação à Astronomia e com a Alquimia em relação à Química. Será que a Psicologia será ­desautorizada pela Neurociência?

 

Embora não exista uma filiação histórica, a proposta do materialismo eliminativo se assemelha ao positivismo esboçado por Auguste Comte no século XIX. O filósofo julgava que o conhecimento humano passa por três estágios: o religioso, o metafísico e o científico. A Filosofia (e talvez também a Psicologia) desaparecerá, cedendo lugar à ciência. Na lição 45 de seu extenso e tedioso Curso de Filosofia positiva, Comte defende que o estudo da mente se tornará um capítulo da Fisiologia.

 

Talvez Comte e os materialistas eliminativos tenham razão. Nesse caso, o sonho do neurocirurgião, de explicar como o cérebro gera a mente, vai se realizar. Mas, como seria viver em uma cultura na qual não falaremos mais de mente e de consciência?

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 100