O segredo de Beethoven

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Um tema inesgotável sobre o qual se debruçam os filósofos da mente há décadas é a questão dos qualia. Por qualia eles entendem os aspectos fenomenais, intrinsecamente subjetivos de nossa vida mental. Como posso saber, quando digo que a parede é amarela, se esse amarelo é mais intenso para mim ou para você? Ou se minha dor de cabeça é pior do que a sua?

 

A existência dos qualia é, frequentemente, utilizada como uma refutação do materialismo reducionista. O problema é que um mesmo estado físico ou cerebral pode corresponder a uma sensação vivida de forma mais intensa por algumas pessoas do que por outras. A intensidade, que não pode ser quantificada, escapa da linguagem, o que corrói a possibilidade de construirmos uma descrição objetiva, ou seja, científica, da vida mental.

 

Existem vários experimentos mentais que discutem o problema dos qualia, mas o mais famoso é o da neurocientista Mary. Ela é uma neurocientista que vive em uma época futura, na qual se sabe tudo sobre o cérebro e tudo sobre o mundo físico no qual ela vive. Mas Mary mora em um quarto branco e preto, estudou em livros em branco e preto e tudo o que conhece acerca do mundo se deu por meio de televisores de televisores em branco e preto.

 

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Um dia, Mary sai do seu quarto e se depara com um tomate vermelho. Ela não sabia, apesar de todo seu conhecimento teórico de neurociência, como é experimentar a cor vermelha. Ela se assombra e percebe que seu conhecimento acerca do mundo era incompleto: faltavam-lhe os qualia. Porém, eles não podiam ser adquiridos pela expansão do conhecimento científico, pois não há como traduzir a descrição neurofisiológica em descrição fenomenológica, isto é, em estado subjetivo. Frank Jackson, que concebeu o experimento mental com Mary, afirma que a percepção do vermelho é, no caso, conhecimento novo. A linguagem da neurociência é incapaz de acomodar esse estado subjetivo que Mary não conhecia antes. Por isso, o experimento com Mary também é chamado de argumento do conhecimento.

 

Pobre Mary! Nunca se escreveu tanto sobre um experimento mental em Filosofia da Mente quanto sobre esse. Não seria exagero afirmar que foram escritos centenas de artigos sobre sua triste situação e até coletâneas que se tornaram clássicas na Filosofia da Mente, como a There is something about Mary (2004), de Peter Ludlow, Yujin Nagasawa e Daniel Stoljar.

 

No entanto, tudo o que li até hoje sobre o experimento de Mary, seja a favor ou contra as consequências que dele são derivadas, nunca me convenceu. Não acredito que o problema dos qualia possa ser resolvido. Mas e quanto ao experimento mental com Mary? Não haverá algo errado na maneira como ele é formulado?

 

Percepção: será que vemos as coisas como elas são ou vivemos em uma constate alucinação?

 

Um dos pressupostos de seu autor, Frank Jackson, parece ser uma postura realista sobre a existência das cores. Será que elas existem independentemente de nós? Já no século XVII John Locke sustentava que as cores eram qualidades secundárias dos objetos. Numa passagem do Ensaio sobre o entendimento humano (1689), ele afirma que “o que eu disse acerca de cores e odores pode ser dito de gostos e sons e outras qualidades sensíveis, pois, seja o que for que atribuamos a elas, não são nada dos objetos, mas apenas poderes que produzem várias sensações em nós e que dependem de qualidades primárias como, por exemplo, volume, textura”.

 

Imagine, agora, reescrever o experimento de Mary dessa perspectiva, ou seja, de que as cores não existem fora de nós e que elas são apenas o resultado da interação de nossos olhos com alguns objetos no mundo. O vermelho não estaria no tomate, mas na cabeça de Mary.

 

Nesse caso, tudo pode mudar. Se Mary sabe tudo sobre o cérebro, ela poderia ativar a região que no seu córtex visual corresponde à percepção do vermelho. Ou seja, ela poderia perceber o vermelho antes de ver o tomate pela primeira vez e, quando o percebesse, não haveria nenhuma novidade para ela. Não haveria, tampouco, acréscimo de um novo conhecimento que não pudesse ser descrito em termos físicos. Mas será, então, que isso resolveria o problema formulado por Frank Jackson?

 

É difícil saber. Grande parte da literatura sobre os qualia se concentra na discussão da natureza das experiências visuais. Por que não considerar, entretanto, outras modalidades de qualia, como, por exemplo, os sonoros?

 

Imagine, agora, reformular o experimento de Mary usando sons, em vez de cores. Não há dúvida de que quando os surdos de nascença recebem implantes cocleares, todos os sons que, passam a ouvir são novidades, um conhecimento novo. Mas será que eles ouviriam algo antes se seu córtex auditivo fosse adequadamente estimulado?

 

Uma situação semelhante à do experimento de Mary, construído com base em sons, é a vida de Beethoven. Ele começou a perder a audição a partir dos 26 anos, mas isso não o impediu de compor, quando totalmente surdo, a sua mais bela peça, a Nona Sinfonia. Beethoven nunca poderia ter sido como Mary, que sabia tudo sobre o cérebro e poderia, então, estimular áreas precisas de seu córtex para ouvir sons específicos. No entanto, não há como negar que Beethoven conhecia a linguagem musical, muita teoria da música e podia se lembrar de muitos sons que já ouvira. Mas será que os arranjos que ele compunha a cada nova peça seriam conhecimento novo, caso ele voltasse a ouvir? O que aconteceria se ele pudesse ouvir sua Nona Sinfonia pela primeira vez? Nunca saberemos.
 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-
-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org

revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 89