O segredo da filosofia oriental para a felicidade

Na China, três escolas de pensamento “Confucionismo, Daoísmo e Budismo” preocuparam-se em como trabalhar a mente para alcançar uma vida melhor

Por André da Silva Bueno* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O sinólogo francês François Jullien gosta de afirmar que o pensamento chinês é, antes de tudo, imanente. Não que os chineses não conhecessem o sentido de transcendência, mas sua preocupação fundamental sempre foi o “aqui e agora”, dar um sentido ao ato de existir. Daí porque essa  “imanência”: o objetivo das filosofias chinesas é alcançar alguma eficácia no plano físico, no curso de uma vida. Está tudo “imanente” – ou mesmo, presente – em nós mesmos e na natureza que nos cerca. Se há algo além disso, esse será o terreno da especulação religiosa, sobre a qual o pensador chinês tradicional reage, tradicionalmente, com um bocejo ou um sorriso. Facilmente a discussão metafísica cai no campo da especulação, que não ajuda muito a resolver os problemas do cotidiano. Talvez por causa disso, os chineses tentaram desenvolver um discursos de aspecto prático, ligado fundamentalmente ao exercício da vida. Isso deslocou os chineses do obscuro terreno da investigação sobre a alma para se aprofundarem naquilo que eles concebiam como algo absolutamente real e material – a mente (Shin 心). A mente, para os chineses, era representada pela palavra “coração” – na medicina tradicional chinesa, coração e cérebro formam um conjunto que divide as atribuições entre emoção e razão. Por se tratar de um processo absolutamente verificável – e, portanto, “real” – os pensadores chineses tentaram propor experiências para administrar a existência baseadas não na alma mas, sim, nos processos mentais. Essencialmente, pois, a manifestação do viver estaria ligada aos atos básicos de sentir e pensar. E, para viver de forma mais harmônica e feliz, as três principais escolas do pensamento chinês – Confucionismo, Daoísmo e Budismo indiano (na sua forma achinesada chamada de chan 禅, ou, no Japão, de zen) proporiam suas fórmulas (ou, seus dao 道) para administrar esses dois aspectos primordiais da mente. Como administrar o sentir? Como controlar o pensar? Como conjugar os dois?

 

Já conhecemos um pouco o confucionismo de matérias anteriormente publicadas aqui. Sabemos que essa escola tinha, na Educação, seu método básico de aperfeiçoamento individual. Para os confucionistas, viver é estudar. Conhecer o mundo pelo estudo é o meio de decifrá-lo e preparar-se, sempre, para suas mudanças. Aquele que se aprofunda no conhecimento aprimora-se no autodomínio das emoções e na compreensão do outro. A atividade contínua do ato de ler, estudar e exercitar o pensamento afasta o indivíduo das preocupações vulgares e coloca-o em níveis superiores de raciocínio e ponderação. Grosso modo, portanto, para os confucionistas, o segredo de uma boa vida seria ocupar a mente. O filósofo Lu Xiang 陆象 (1139-1193 d.C.) afirmava mesmo que “o universo é idêntico à minha mente, e a minha mente é idêntica ao universo”, ou seja, todo o mundo, toda a vida, toda o existir está presente dentro do próprio humano. A mente o apreende, o concebe e o decifra. Exercitar a mente constantemente, enfim, seria o segredo de uma vida saudável e válida.

 

No sentido oposto aos confucionistas, os daoístas representavam uma corrente filosófica fundamentalmente ligada ao desprendimento das coisas materiais e a prática de uma vida mais simples e harmoniosa com a natureza. Para os daoístas, era o apego ao raciocínio complexo, à cultura, à vida em sociedade que gerava as tensões e miasmas da existência humana. “Abandone as causas e não haverá problemas” seria um bom lema daoísta. Para os daoístas, é o ritmo criado pelo cotidiano das pressões sociais que destrói a natureza humana, afastando o ser humano de sua espontaneidade essencial. E como resolver isso? Esvaziando a mente. Afastar-se das preocupações mundanas e vulgares seria a única solução para se ter uma vida tranquila. A mente precisa estar livre para adaptar-se às situações, e não para se enquadrar às criações da cultura humana. Disse Laozi 老子 (aproximadamente no século VI a.C.), o principal pensador do daoísmo: “O sábio não tem conceitos inflexíveis; ele se adapta constantemente aos outros”. Somente uma existência desprendida pode permitir uma consciência tranquila: “Entregar-se ao desejo material, ao desejo de conquista, ao descontentamento com a simplicidade: não há dano maior do que esse”. E como esvaziar a mente? Dirigindo-a para a simplicidade. Deslocando-se das preocupações cotidianas. Para os daoístas, uma tarde de pescaria dispensaria muitas sessões de terapia…

 

Por fim, os budistas chineses: nem ocupar a mente, nem esvaziá-la. O segredo para uma vida ideal seria controlar a mente. “Somos o que pensamos”, diz uma frase budista antiga. O objetivo dos budistas, portanto, era o domínio do autocontrole por meio da meditação. Um esquecimento programado do mundo, tal como o sono. A meditação permitiria ao indivíduo atingir um estado mental isento de medo, receio, raiva, ira, paixão… Enfim, um estado de paz mental, cuja contemplação permitiria deslocar-se para um ambiente interior sereno e intocado. Como diziam os budistas: “É bom domesticar a mente que, de difícil domínio e veloz, corre para onde lhe agrada; a mente domesticada traz felicidade”. Ocupar, esvaziar ou controlar a mente. Qual das fórmulas  seria a mais adequada? Para esse pensamento chinês tão aberto às diversas possibilidades de existir, o caminho ideal é aquele que se adequa ao indivíduo. Cada um pode encontrar isso por si mesmo, se assim o desejar. Parece óbvio: mas esses discursos existem há milênios – e, no entanto, quem pratica algum deles?

 

 

*André da Silva Bueno é sinólogo, doutor em Filosofia e História, pós-doutor pela UNIRIO e professor da UNESPAR-FAFIUv (PR).

Adaptado do texto “O que fazer com a mente?”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 89