O que significa educar?

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O que é educar? Vem do latim, possivelmente de dois verbos, educere e também educare. O verbo educere indica movimento. Ele está presente em conduzir, induzir, deduzir, seduzir. E ainda no horrível título do ditador fascista Mussolini, Duce, ou de seu homólogo romeno, Conducator, que em alemão se traduzia Führer. Pois, assim, ducere designa diferentes formas de mover. Já o “e” inicial é na verdade o latim “ex”, que indica um movimento de dentro para fora, como aparece em palavras como expulsar, extrair. Educar é, por isso, mover de dentro para fora. O latim tinha outra preposição para movimento, que era o “de” (como em deduzir), mas que designava um movimento que não começava de dentro do objeto e, sim, de sua fronteira, de sua divisa, de sua exterioridade. Com o “de”, o movimento é externo. Com o “e”, ele vem de dentro. Um dos grandes sentidos de educar é, portanto, transformar.

 

Daí, a grande característica da Educação: ela modifica, transforma – e, se tivermos apreço por ela, diremos que muda para melhor, que liberta, que emancipa. É diferente da instrução ou do treinamento. Quando instruo uma pessoa sobre alguma coisa, não a modifico nem pretendo modificá-la. Um treinamento não visa a mudar a pessoa treinada. Apenas lhe acrescenta informações. Não mexe com seu interior, com sua identidade.

 

A educação como objeto da Filosofia

 

Na verdade, a ideia de Educação, embora apareça já com este sentido em vários autores antes dessa data, expressa bem o espírito do iluminismo. É no século XVIII que vários autores, sobretudo franceses e escoceses, mas também o alemão Immanuel Kant, valorizam “as Luzes”, isto é, o conhecimento que permite arrancar-nos da ignorância e do preconceito que nos atrasam. Significativo desse empenho é que a Encyclopédie francesa (1750) contém grande número de ilustrações revelando os segredos dos ofícios produtivos que antes, na tradição medieval, eram mistérios resguardados pelas corporações. A ideia-chave é que o conhecimento é o grande fator para a libertação das pessoas. Daí, por sinal, que pensadores da escola de Frankfurt usem a palavra “iluminismo” para designar algo que vai além do século XVIII, estando ainda atual em nosso tempo.

 

Mas o quadro é mais complexo. Dei a impressão de uma educação harmônica, de pensadores coesos na defesa do progresso. Só que não! O principal pensador da Educação no século XVIII, e um dos maiores da História, foi Rousseau. Acreditava no poder da Educação. Sustentou que não era um processo só de instrução ou de informação. Mostrou que afetava as paixões, o lado não racional do indivíduo. Disse que cada idade da criança permite e requer certos conhecimentos. Por exemplo, só se deveria ensinar a criança sobre Deus e a religião quando tivesse a experiência da finitude, isto é, quando descobrisse a própria sexualidade e percebesse que não é autossuficiente afetivamente. (Uma interpretação maldosa dessa tese de Rousseau é que a religião entraria para conter as pulsões sexuais dos adolescentes). Mas Rousseau não tinha fé no progresso. Não acreditava que o homem estivesse melhorando, muito ao contrário. O máximo que esperava era que fosse possível deter a irreversível degradação da condição humana. Um de seus primeiros livros argumenta que as Ciências e as Artes, longe de melhorar nossa sorte, a pioram. Por isso, Rousseau é pioneiro, sim, na ideia de Educação, mas o conteúdo que lhe dá está a mil léguas do conceito, hoje tão usual, de que o acesso às Ciências formaria um ser humano melhor. O que só mostra uma coisa, mas relevante: que a Educação é uma grande área para a discussão. Precisamos construir convergências nela, quer para melhorá-la e melhorar os homens, quer para construir metas globais, como faz a Unesco, mas as concepções de Educação se confrontam constantemente. E não devem, jamais, ser reduzidas a um modelo só.

 

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*Renato Janine Ribeiro é Ministro da Educação e professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). www.renatojanine.pro.br

Adaptado do texto “Educar não é treinar”