O que o terapeuta enxerga?

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

“Resta-me indicar uma lição que aprendi e que está, talvez, na base de tudo que venho dizendo. Ela se impôs a mim ao longo  desses vinte e cinco anos em que tentei ser de algum préstimo para indivíduos com perturbações pessoais. A lição é esta: a experiência mostrou-me que as pessoas têm fundamentalmente uma orientação positiva. Nos meus contatos com indivíduos em psicoterapia, mesmo com aqueles cujos distúrbios eram mais perturbadores, cujos sentimentos pareciam muito anormais, a afirmação continua sendo verdadeira. Quando consigo afetivamente compreender os sentimentos que exprimem, quando sou capaz de aceitá-los como pessoas separadas em todo seu direito, vejo que tendem a orientar-se em determinadas direções. E quais são essas direções que os seus movimentos subentendem? As palavras que julgo descreverem com maior veracidade essa direção são: positiva, construtiva, tendente à autorrealização, progredindo para a maturidade e para a socialização. Acabei por me convencer de que quanto mais um indivíduo é compreendido e aceito, “maior sua tendência para abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida, maior sua tendência para se mover para frente” – escreveu em sua obra Tornar-se pessoa, Carl Rogers.

 

Quando se opina sobre a expressão humana, em seus devidos contextos, o que parece surgir é um testemunho essencial deste que opina com o receptáculo de sua opinião, em uma síntese que promove espelhos, complementos e outras derivações. Shakespeare via a pessoa habitada por paixões cujas características inóspitas declamavam o Mundo; Sartre intuía a totalidade do que a pessoa viria a ser, daquilo que ela não era, um horizonte sempre a ser feito desde aquilo que se apresentava; Rousseau admirava o ser, e chamava a atenção a uma educação, o ser que é dirigido pelo coração; Dostoiévski exclamava a propriedade segundo a qual a pessoa a tudo consegue se adequar; Aristóteles olhava a criatura com o ar domesticável da socialização; e o dicionário não terminará, pois as variações prosseguem sem um fôlego que lhes anuncie um final.

 

Na infinidade de considerações, onde está a pessoa? E, antes disso, estaríamos de fato escutando a pessoa? Para Mia Couto: “Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas”.

 

Se o terapeuta inicia sua consideração admitindo que a pessoa diante dele é um ser separado de sua existência, ou um ser participante dela, se a considera como um ser que deseja a felicidade, que traz uma patologia, que precisa de algo especificamente já escrito em um manual, qual o espaço existencial para a pessoa poder ser e se expressar?

 

A clínica seria o lugar no qual a pessoa seria uma outra, em relação a ela mesma, para reajustar algumas experiências de modo a prosseguir sua vida em bases que considerasse mais condizentes com seus anseios? Cecília Meireles, versada em alma, nos indica: “Sede assim — qualquer coisa serena, isenta, fiel. Flor que se cumpre, sem pergunta. Onda que se esforça, por exercício desinteressado. Lua que envolve igualmente os  noivos abraçados e os soldados já frios”. Talvez que a alma da pessoa emoldure e envolva o olhar do terapeuta.

 

Talvez que a vida surja na dança do exercício que se faz, talvez que o modelo de um método permaneça aberta para a transcendência que surge. Mas será assim, enquanto tantas vezes será do avesso. A alma saberá por lágrimas, aprendizagens e caminhos de tais variações. A escritora Daísa Rizzotto Rossetto mostrou em As flores do outro uma parte essencial do poema da alteridade: “Vou aos livros para aprender o que significa olhar para o outro. Viro páginas, sublinho palavras, escrevo comentários às margens do texto, troco de livros. Procuro termo por termo no dicionário, desisto. Então, fecho os olhos para ver. Vasculho os cantos do meu pensamento. Embaixo de qual tapete estariam as prisões do outro? Quando foi que promulguei a lei que diz como devo olhá-lo? E olhando o que devo encontrar? Na mesma forma e método, dei de cara com outras dúvidas. Afinal, quantas vezes me aprisionei, deliberadamente, no que concluía (precipitadamente) que o outro buscaria em mim, como se estivesse conferindo os itens de uma lista? E agora? Pensei. Devo me despir, perante tribunais ilegítimos – para não dizer meros delírios que se somam nas mentes de uma época? Sim, devo. Concluo prematuramente. Dispo-me então, não da roupa, dos trajes que uso em dia de festa, nem do jeans já velho, ou das botas gastas. Me pelo e num giro de 360 graus tento entrever a vergonha do meu ato. Dispo-me dos preceitos, da doutrina imposta e dos argumentos, tão os mesmos de antes, tão gastos quanto as minhas botas. Dispo-me de uma roupa já velha que todos usam escondendo sua verdadeira face, as cores próprias de si, a textura de sua existência. Tão único como a forma que meu cachorro me olha quando chego em casa batendo a porta. Tão singular que não se pode conjugar”.

 

O que a vida enxerga quando olha para você? Ou seremos uma única face discutindo seus assuntos?

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia clínica no Brasol. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel.

luciopackter@uol.com.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 122