O que o filme A onda nos ensina sobre nós mesmos

Por Flávio Paranhos* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Há algum tempo, analisei o filme A onda (Die Welle, 2008) a partir de uma perspectiva existencialista, apropriando-me de algumas noções heideggerianas (o Das Man, o impessoal, Dasein “dissolvido” nos outros e, portanto, inautêntico). Agora, buscaremos outro ângulo, aprofundando o que já abordamos em outra oportunidade (quando discutimos Shadows and fog, de Woody Allen), com o que chamei de “alterfobia”, ou seja, a aversão ao outro.

 

Lembremos do que trata A onda. Um professor tem a inusitada ideia de propor a seus alunos que se vistam igual e ajam igual, de forma coesa e “acima” dos colegas  de outras salas. Queria dar-lhes uma lição sobre o fascismo, mas não contava com sua total imersão no papel. Eles mudam de atitude pra valer e passam a se sentir mesmo superiores aos demais. O professor acaba perdendo o controle  da situação por ele criada e acaba acontecendo uma tragédia. É muito interessante observar a mudança de comportamento dos alunos. A perspectiva heideggeriana a que me referi diz respeito ao paradoxo de, justamente por se vestirem todos iguais, agirem da mesma forma, enfim, formando um Das Man amorfo, eles se sentiam diferentes, autênticos. Mas não é isso que nos interessa hoje. O que nos interessa é a rapidez com que incorporaram o papel de coesão e espírito de grupo, e, com isso, o sentimento de superioridade em relação aos outros. Todos os outros que não  eram eles.

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Embora A onda seja inspirado em fato real, é ficção. Mais  interessante ainda é assistir de camarote algo real e muito semelhante. Uma professora com aspecto inofensivo conduziu um experimento em seus alunos na década de 1960, o que,  provavelmente, não seria aprovado em comitês de ética de hoje. A despeito disso, trata-se de um dos maiores “abre-olhos” da humanidade de que eu já tive conhecimento. Após ensinar a seus alunos (de aproximadamente oito anos de idade) que racismo era uma coisa ruim, que era errado julgar as pessoas pela cor da pele, ela propôs  dividi-los em dois grupos. Como eram todos brancos, ela os dividiu pela cor dos olhos. Naquele dia, os de olhos castanhos passariam a usar um pedaço de pano para identificá-los como tais, e os de olhos azuis nada usariam. Enquanto fazia isso, ela já começava a mudar sua atitude. Por exemplo, se um de olhos castanhos se sentasse de mau jeito ela já dizia: Estão vendo como os de olhos castanhos são? Não sabem nem sentar direito. Então, passou as instruções. Olhos castanhos tinham menos tempo de recreio, não podiam brincar com  os olhos azuis, não podiam isso e aquilo. Dirigia-se aos de olhos azuis de uma forma positiva e aos de castanhos, negativa.

 

No dia seguinte, ela começou a aula perguntando como foi. Ficou sabendo que um dos olhos azuis bateu num dos olhos castanhos e o xingou de… olhos castanhos. Perguntado por que havia chamado o coleguinha de “olhos castanhos”, ele confessa que foi para ser cruel (“mean”). Nesse mesmo dia, a professora inverte os papéis. Diz  que a partir daquele momento, os olhos azuis é que tinham de usar o tecido, e eles é que eram piores e não podiam isso, nem aquilo etc. E que não podiam brincar com os olhos castanhos.

 

Uma das tarefas realizadas pela professora com cada grupo tinha o tempo levado para ser realizada como indicador de sucesso. Os castanhos, quando estavam usando o tecido (portanto eram inferiores), saíram-se pior do que quando não estavam. Os azuis, idem. Ao final do experimento,  que durou poucos dias, a professora mandou todo mundo tirar o tecido e deu a mesma aula que havia dado dias atrás, só que agora os alunos, visivelmente aliviados, sabiam exatamente do que ela estava falando, quando dizia que era errado julgar as pessoas pela cor da pele. Como se o experimento não tivesse sido convincente e contundente o bastante, alguns pais das crianças tiveram uma reação que foi a pá de cal para enterrar de vez eventuais dúvidas quanto que a professora queria demonstrar. Aquilo foi uma crueldade, disseram, isso não se faz com crianças brancas, pois elas não estão acostumadas a esse tipo de tratamento. Como dizem os americanos, “I rest my case”.

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No experimento original, descrito acima, algo chama a atenção – as crianças tinham acabado de ser “avisadas” sobre o que estava por vir. A professora tinha acabado de ensinar que aquilo era errado, mas, ainda assim, entraram no papel. E mais: inverteram o papel com a mesma rapidez. Cérebros de crianças são muito elásticos. De adultos, menos. Quando a professora Jane Elliott (que, a propósito, é branca e tem olhos azuis) faz experimento semelhante com adultos, o que ocorre é algo diferente, mas não menos impressionante. Negação. Os adultos brancos (mesmo os de olhos castanhos) recusam-se a aceitar que exista algo hoje como o racismo. Tendem a compará-lo com outros preconceitos, como contra gordos, skinheads, tatuados  etc, o que não é, definitivamente, a mesma coisa. Esse fenômeno de negar que algo exista ou  aconteça porque não acontece “comigo” é semelhante ao que se conhece por “viés de  confirmação”. Tendemos a aceitar e acreditar em algo que nos agrada ou que já tínhamos como dado.  E se nos apresentam algo que contraria nossa crença já consolidada (ainda que não plena e conscientemente consolidada), recusaremos.

 

A rapidez com que seres humanos formam grupos e se fecham neles, carimbando imediatamente “os de dentro” e “os de fora”  é única. “Nós” somos mais inteligentes, mais éticos, mais honestos, mais disciplinados, mais aptos, mais bonitos do que “eles”. O que aconteceu com as crianças alunas da professora Elliott acontece o tempo todo conosco, sem nos darmos conta. As redes sociais são um bom terreno para checar isso. Quanta discussão idiota já aconteceu por conta de coisa miúda no  Facebook só porque alguém é contra isso e outrem, aquilo!

 

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A última eleição para presidente do Brasil é outro exemplo perfeito. O país se dividiu entre os petistas e os antipetistas, norte e sul, honestos e desonestos, éticos e antiéticos, os burros e os cultos. Mas quem, mesmo, são os desonestos, antiéticos e burros? Eles, claro. Eles quem? Bom, aí depende. Se você é petista, os desonestos são tucanos, que também são golpistas, rancorosos, direita raivosa etc. Mas se você for antipetista, então os desonestos são os  petistas, que também são mensaleiros, petroleiros, esquerdistas bolivarianos etc. E algo bizarro acontece se você declara não ser nem um, nem outro. Desconfiam de você, que passa a ser “outro” para ambos os lados.

 

Talvez a maior contribuição da professora Jane Elliott seja nos abrir os olhos (tantos os azuis quanto os castanhos) para uma realidade dolorosa. Não sabemos quem somos. Imaginamo-nos justos e sem preconceitos, mas a verdade é que somos o contrário.

 

 

 

*Flávio Paranhos é médico (UFGO), Doutor (UFMG) e Research Fellow (Harvard) em Oftalmologia, Mestre (UFGO) e Visiting Fellow (TUFTS) em Filosofia. Professor da PUC Goiás. Autor de Filosofia & Cinema (Kindle portuguese edition) e do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial).

Adaptado do texto “Você não é quem pensa que é”

Foto: Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 103