O que é o homem?

A dificuldade de compreender a realidade humana que é, em última instância, resultado do nosso pensar e do nosso agir cotidiano

Por Cassio Donizete Marques* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Um animal que é ao mesmo tempo: corpo, alma, espírito; razão e emoção; físico e metafísico; singular e coletivo; objetividade e subjetividade; consciência e inconsciência. Enfim, um animal que é biopsicossocial e que cria, a partir da linguagem, um mundo simbólico, um mundo repleto de significados e signos, onde muitas vezes o fato acaba tendo menor importância do que o sentido e a interpretação dado a ele. Quer um exemplo: enquanto uns morrem por amor, outros matam em nome deste mesmo amor, ou será outro amor? Enquanto uns passam a vida sem entrar num avião por medo, outros viveriam dentro de um avião se fosse possível.

 

Uma das perguntas centrais da antropologia filosófica permanece muito atual em pleno século XXI: Quem é o homem? ou O que é o homem? Se você fosse cobrado a dar uma definição ou mesmo uma característica, a mais precisa possível sobre o homem, qual você daria? Seria a definição aristotélica, “animal racional”, a definição de Pascal, “caniço pensante”, quem sabe a de Kierkegaard “relação que se relaciona consigo mesma” ou a de Marx, “conjunto de relações sociais” ou ainda, se achar melhor, a definição cristã “imagem e semelhança de Deus”. Gosto muito da definição dada por Scheler “biologicamente o homem é um erro da vida; metafisicamente, é alguém que é capaz de dizer ‘não’, um asceta da vida”. Enfim, tenho certeza de que se você procurar com atenção encontrará uma que mais se aproxima com sua visão de ser humano. Mas, será que ela dá conta de toda complexidade humana, aqui lembramos duas velhas e boas canções de Raul Seixas: Metamorfose Ambulante e Ouro de Tolo.

 

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Você já tentou convencer alguém que detesta macarrão passar a gostar de macarrão ou vice-versa. Tentou convencer um palmeirense a ser corintiano e vice-versa. Quero partilhar mais um exemplo para ilustrar a complexidade humano. Se colocássemos à nossa frente um filhote de elefante, um filhote de formiga e um bebê e perguntássemos: o que falta para o elefantinho ser um elefante e para a formiguinha ser uma formiga? A resposta seria simplesmente crescer, mas penso que esta resposta não vale para o bebê, pois para ele ser um ser humano, não basta crescer, ou seja, ele irá se constituir conforme seu desenvolvimento cultural que se dá num tempo e num espaço preciso. Além do mais este mesmo bebê é muito mais complexo do que qualquer super computador que faça 1 bilhão de cálculos por segundo ou que seja capaz de armazenar toda informação do mundo. Este bebê traz em sua existência a marca da liberdade e podemos dizer, sem entrar numa discussão fenomenológica, traz o peso da consciência.

 

Na coletividade este mesmo ser humano constrói uma sociedade também complexa abarcando diversas dimensões como: econômica, política, religiosa, social, estética, ética, lógica, entre outras. Henrique Cláudio de Lima Vaz em sua obra Antropologia Filosófica I chama de pluriversal este encontro no ser de todas estas dimensões, ou seja, é o “ser que, ao interrogar-se a si mesmo, irradia a sua interrogação a todas as dimensões do Ser” (1991, p. 142).

 

Cada dimensão assume uma linguagem específica e tem sua autonomia ao mesmo tempo em que são interdependentes. Historicamente foi comum se defender que uma delas é a mais importante e que as demais caminham na dependência dela. Como exemplo podemos citar Karl Marx para quem a infraestrutura material, ou seja, o modo de produção é a base e a superestrutura é o conjunto ideológico e político de sustentação da infraestrutura. Enfim, quantas vezes em nome do coletivo e do bem social o ser humano é engolido e sufocado.

 

Voltemos aqui à pergunta central da Antropologia Filosófica para verificar qual é a melhor resposta: Quem é o homem? O que é o homem? O mais interessante é que qualquer resposta que seja dada é o próprio homem dizendo quem ele é. Você nunca viu um cachorro dizendo a outro cachorro lá vem o animal racional. Você nunca viu um gato dizendo a outro gato lá vem um cidadão. Aliás, quem o seu cachorro ou gato diria que você é? Vou fazer um recorte para encaminhamento de nossa reflexão e vou apresentar de forma sucinta uma resposta antropológica praticamente aceita por todos, entre várias possíveis. O ser humano é um ser de linguagem é ela que constrói o mundo humano, é ela que retira o homem da natureza e o traz para o reino humano. Quando digo que o homem é um ser de linguagem não quero dizer que os demais animais não possuam uma linguagem, isto a ciência tem demonstrado ao longo dos anos. Porém, a linguagem humana é específica e não está presente em nenhum outro animal.

 

Cassirer (1977) aponta uma tríplice concepção da função e do valor da linguagem: a mitológica, a metafísica e a pragmática. Ele diz que “A invenção da linguagem é a primeira das grandes invenções, a que contém em estado embrionário todas as outras, talvez menos sensacional que a domesticação do fogo, mas mais decisiva. A linguagem apresenta-se como a mais original das técnicas. Constitui uma disciplina original da manipulação das coisas e dos seres. Uma palavra é com frequência mais útil que um utensílio ou uma arma para a tomada de posse do real. De fato, a palavra é estrutura do universo: ela procede a uma reeducação do mundo natural que graças a ela torna-se a sobre-realidade, proporcional à nova existência que a suscitou” (MONDIN, 1980, p. 135).

 

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*Cassio Donizete Marques é professor de Filosofia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP).