O que é a intimidade?

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O que é a intimidade? Uma privacidade na qual a pessoa pode se despir dos tecidos sociais e viver sua respiração natural? Estar nu em casa, sossegadamente? O que acontece, se for isso a intimidade, com quem a vive? Para alguns, paz; para alguns, solidão; alguns mergulham em problemas; descanso, sono, leituras, distrações. Ela é agradável, é indicada, é apropriada a quais elementos? Há quem desgoste da intimidade? Será que realmente ela existe para todos? Intimidade, esse pedaço de alguns, o que diz da pessoa? A qualidade, a natureza, a forma da intimidade atestam alguma coisa? Sim, provavelmente informam um tanto do que somos e estamos quando em privacidade. Os conteúdos que então surgem podem indicar quais elementos da vida podem ser ali exercitados. Exemplo: para alguns, a intimidade é o lugar existencial onde a paz pode ser acessada.

 

A escritora catarinense Edla van Steen escreveu sobre o tema: “Eram tão raros os instantes de intimidade e tão bons. Conversaram sobre as crianças, os maridos, os filmes da semana. Davam-se maravilhosamente — Bárbara suspirou e se dirigiu à janela: viu telhados escuros e misteriosos. Ela adoraria ser invisível para entrar em todas as casas e devassar aquelas vidas estranhas. Costumava diminuir a marcha do carro nos pontos de ônibus e tentar adivinhar segredos nos rostos vagos das filas. Isso acontecia nos seus dias de tristeza. Alguma coisa em algum lugar, que ela nem suspeitava o que fosse, provocava nela uma sensação de tristeza inexplicável. Igual à que sente agora. Uma tristeza delicada, de quem está de luto”.

 

A intimidade pode ser um dos lugares onde a pessoa encontrará uma parte dela que se pronuncia quando a maioria das coisas se cala, quando o silêncio propicia que se explique conosco o que no  emaranhado dos eventos simultâneos da vida acaba por se perder. A intimidade pode requerer aprendizagem e orientação. Quais são os segmentos que uma pessoa vive nela mesma, dela mesma, quando a ocasião permite? Pensamentos sobre o que faz, sobre quem é? Ideias sobre o que tem feito de sua vida? Sensações?

 

“Minha vida é um grande desastre” — escreveu Clarice Lispector em um de seus momentos de intimidade. E seguiu: “É um desencontro cruel, é uma casa vazia. Mas tem um cachorro dentro latindo. E eu — só me resta latir para Deus. Vou voltar para mim mesma. É lá que eu encontro uma menina morta sem pecúlio. Mas uma noite vou à Secção de Cadastro e ponho fogo em tudo e nas identidades das pessoas sem pecúlio. E só então fico tão autônoma que só pararei de escrever depois de morrer”.

 

O que acontece com quem se olha ao espelho e não aprecia a própria face? O que acontece com quem não aprecia a privacidade na qual se encontra sozinho com as próprias coisas, pensamentos, sensações? Há pessoas que descobrem que são muito aborrecidas para elas mesmas, ainda que para os outros pareçam divertidas. Às vezes é um “fator ressaca”: de tanto viver pintado, ao tirar a tinta do rosto, na intimidade, alguns podem não ver graça alguma. Pascal advertia sobre essa possibilidade: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e no nosso próprio ser: queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária e, para isso, esforçamo-nos em manter as aparências. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar o nosso ser imaginário, e descuramos o verdadeiro”. Algumas pessoas precisam dos outros para que possam viver a intimidade. Parecem não conseguir ter privacidade quando estão sozinhas. Elas precisam de alguém para que possam falar do que se passa, para que possam sentir, precisam da outra pessoa para poderem ser como de fato são naquilo que se convencionou como intimidade. Por que isso ocorre? Entre as respostas, a pessoa pode ter aprendido a pensar e a fazer coisas, que, usualmente, ocorrem quando a pessoa está sozinha, na companhia de outra pessoa. Assim, para alguns, a maior parte de suas intimidades é vivida em público. Quais são as implicações disso? Veja um exemplo a seguir. É possível sabermos o quanto de nós flui em direção aos outros? Um dia o homem vai confidenciar algo para a esposa, algo que ele nunca sequer ousou pensar em seus momentos de reflexão; ela, então, pode causar surpresa ao dizer que já sabia, que já sabia de tudo. Ora, como poderia saber?! Por onde a informação fluiu que ele não a identificou? …Este é um dos possíveis caracteres desse modo de intimidade.

 

Leminski tem um poema chamado Parada cardíaca, um exemplo:

 

“Essa minha secura, essa falta de sentimento não tem ninguém que segure, vem de dentro. Vem da zona escura donde vem o que sinto. Sinto muito, sentir é muito lento”.

 

O tímido é alguém preso permanentemente à privacidade própria? Quanto mais tímido, maior a  intimidade vivida? Há tímidos que estão realmente tão completamente focados nos outros, no que pensam a respeito das coisas dos tímidos, que a timidez na verdade se reveste de uma vida social intensa, apenas discreta. Mas as tipologias morrem cedo em Filosofia Clínica. Como cada pessoa funciona de um modo único, possui impressões subjetivas únicas, a própria universalização em torno da intimidade traz uma vida curta. Os paradoxos se proliferam…

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia clínica no Brasol. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br

Adaptado do texto “Intimidade”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 94