O que define o êxito escolar?

Bourdieu desvela os aspectos ocultos que determinam os êxitos escolares, demonstrando que a posição social, o capital cultural, entre outras variantes, reforçam o destino escolar dos alunos. É preciso desmitificar a ideologia do dom ou da graça vivenciada no espaço escolar

Por Adriano São João * e João Henrique da Silva** | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A arte de educar traduz-se como atividade humana significativa para a gestação do novo ser que vem ao mundo. Esse ser será moldado, transformado e inserido no tecido social. Ele irá se socializar e construir a sua dimensão humana no seu corpo de animal mamífero. Nesse processo de inculcação de um saber coletivo e humano, o indivíduo torna-se “gente”. Todavia, o processo educacional não está isento de intenções e motivações dos gestores desse processo que carrega consigo expectativas, diferenciações, aprovações e qualificações ou desqualificações com relação aos estudantes, como agentes sociais.

 

A qualidade do ensino tem caído, como sugerem os discursos dos analistas educacionais. Mas não se sabe ao certo qual é a causa dessa crise educacional. Alguns dizem que é o governo, outros, os pais, ou a sociedade, ou a escola, ou os próprios alunos. Trata-se de responsabilizar alguém ou alguns pela culpa pelo não crescimento econômico do país.

 

Esse quadro complexo exige uma reflexão sobre as causas desses problemas. É necessário saber se os problemas educacionais não se referem a uma escola dominante que reproduz a estrutura social hegemônica, sob a qual a escola age de acordo com princípios neoliberais, capitalistas e massificadores. As pesquisas educacionais, após os anos 1970, retratam uma escola seletiva, excludente e marginalizadora daqueles que não alcançam o resultado esperado, sobretudo por causa das desigualdades sociais que se concretizaram também no espaço escolar.

 

 

 

 

Educação e desigualdade social
O êxito escolar não decorre somente das desigualdades econômicas. O peso da herança cultural é tal que se pode desfrutar dela sem ter necessidade de excluir, pois tudo se passa como se fossem excluídos apenas os que se excluem

O método e os conceitos de Pierre Bourdieu auxiliam a refletir sobre as experiências dos agentes sociais quanto aos fatores influenciadores para o êxito escolar, pois a escola não se encontra neutra em relação à configuração social preexistente.

 

Inicialmente, acrescenta-se que Pierre Bourdieu não foi um soció­logo da Educação no sentido de lançar-se diretamente aos temas educacionais, uma vez que sua análise se atenta, antes de tudo, ao social, aos aspectos relacionais da vida em sociedade. Mas o autor tem estudos com relação à Educação que se encontram nas obras A reprodução, escrita com Jean-Claude Passeron em 1930, e Escritos de Educação e nos demais artigos escritos e obras publicadas por ele. Além do mais, diversos trabalhos dão subsídios para iluminar o papel da instituição escolar na sociedade.

 

Na obra A reprodução, Bourdieu e Passeron têm como tese central que toda ação pedagógica é uma violência simbólica. Esta denota uma imposição arbitrária, dissimulada, que vela as relações de força. Assim, a ação pedagógica impõe um determinado arbitrário cultural estabelecido por uma concepção cultural dos grupos e da classe dominantes. O dominante inculca valores e normas no sistema de ensino.

 

 

O fato é que o sistema escolar, como fator de mobilidade social, oculta a função de fator para a conservação social, uma vez que “fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural”.

 

De acordo com Bourdieu, é preciso tratar todos os educandos, por mais desiguais que sejam, como iguais em direitos e deveres

 

Assim, o sistema escolar torna-se injusto porque obedece a uma equidade formal que protege melhor os privilégios sociais que a transmissão aberta dos privilégios. Nesse caso, a escola atua do seguinte modo: “[…] para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, dos métodos e técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades culturais entre as crianças das diferentes classes sociais. Em outras palavras, tratando todos os educandos, por mais desiguais que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura. A igualdade formal que pauta a prática pedagógica serve como máscara e justificação para a indiferença no que diz respeito às desigualdades reais diante do ensino e da cultura transmitida, ou, melhor dizendo, exigidas […]. Mas o fato é que a tradição pedagógica só se dirige, por trás dos ideais inquestionáveis de igualdade e universalidade, aos educandos que estão no caso particular de deter uma herança cultural, de acordo com as exigências culturais da escola. Não somente ela exclui as interrogações sobre os meios mais eficazes de transmitir a todos os conhecimentos e as habilidades que a escola exige deles e que as diferentes classes sociais só transmitem de forma desigual, mas também ela tende a desvalorizar como primárias […] e, ­paradoxalmente, como escolares as ações pedagógicas voltadas para tais fins.

 

 

Segundo Bourdieu, os sistemas de ensino utilizam uma diversidade dos processos para operar a seleção e fazer interiorizar os efeitos, desde a exclusão sem apelo operada pelo exame e, sobretudo, pelo concurso à francesa até “a eliminação suave”

Assim, o pensador francês busca revelar quais são os mecanismos objetivos que determinam a eliminação contínua das crianças desfavorecidas. De antemão, ele diz que geralmente as diferenças de êxitos são atribuídas às diferenças de dons. Porém, essa análise é errônea, porque a classe mais alta tem um privilégio cultural que leva seus filhos a já serem os detentores de um certo habitus exigido pela escola.

 

As diferenças decorrem porque “[…] cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, um sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui para definir, entre outras coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar”.

 

Nessa linha de pensamento, a herança cultural corresponde, nas classes sociais, primeira diferença inicial na escola a ser realizada, pois a renda não é o motivo determinante para o sucesso escolar, uma vez que a ação do meio familiar sobre o êxito escolar é quase exclusivamente cultural. Como diz Bourdieu, “[…] é o nível cultural global do grupo familiar que mantém a relação mais estreita com o êxito escolar da criança”, porque até mesmo um desnível entre o pai e a mãe pode mudar o êxito da criança. Sem contar também que o nível cultural global dos ascendentes e outros parentes da família influenciam no aprendizado do aluno.

 

 

Êxito escolar para quem?

Os êxitos escolares não surgem dos dons ou talentos naturais. A ideo­logia do “dom” utiliza estratégias e mecanismos para estabelecer uma cultura legítima. Ela é imposta por uma classe social dominante que visa à reprodução e à legitimação das desigualdades sociais.

 

Dessa maneira, revelou que se compreende o destino social e escolar das crianças e jovens por diversas variantes presentes na existência desses agentes sociais. Os habitus que carregam consigo interiorizam as vivências que são, por exemplo, o capital cultural da família, as condições socioeconômicas, os ambientes socializadores (amigos, lazer, espaços de educação não formais), as regras e valores da sociedade, as redes de ensino (aspecto externo e interno). Mas também exteriorizam tais práticas na vida social. E, consequentemente, analisa-se o destino escolar desses agentes sociais por regularidades, fundamentando-se numa sociologia prática.

 

A diferença entre estudantes de diferentes classes sociais não pode ser suprimida somente por recomendações ou relações entre a família, ajuda dos pais no trabalho escolar, informações sobre o sistema de ensino e as perspectivas profissionais

 

Portanto, o sociólogo Bourdieu revela que a instituição escolar sofre influências de uma classe dominante, que legitima um capital cultural específico, ainda que se defendam na contemporaneidade princípios democráticos e de uma escola inclusiva. As diferenças entre os êxitos escolares originam-se de inúmeras variantes condicionadas pela classe mais favorecida. As situações de “fracasso” e “sucesso” escolar provêm de uma escola reprodutora das desigualdades sociais que, inconscientemente, constroem uma visão dogmática de que todos têm as mesmas condições e oportunidades na vida social. O estudante “fracassado” ou “excepcional” representa, enfim, um sistema educacional tirânico, neoliberal e globalizador, que, em nome da igualdade para todos, põe em prática ações injustas e ­segregacionistas.

 

*Adriano São João é doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. asaojoao@yahoo.com.br

**João Henrique da Silva é mestrando em Educação pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). jhsilva1@yahoo.com.br

Adaptado do texto “Bourdieu: escola e dominação”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 95