O que define nossa humanidade

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Poucos temas, na Ética, são tão relevantes quanto os valores pró-tecido social. Entre eles estão a solidariedade e a compaixão. A solidariedade é mais racional. Lida com o interesse de cada um. Exige uma mente alerta. No limite, bem no limite, gera bancos de atendimento a empreendedores pobres, como o famoso que existe em Bangladesh.

 

Já a compaixão é mais da ordem dos sentimentos. Milan Kundera faz um belo elogio dela num capítulo da Insustentável leveza do ser. Depois de dizer que alguns a veem como um “sentimento de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor” (pois derivaria da piedade que um superior sente por um inferior, e por isso “amar alguém por compaixão não é amar de verdade”), ele parte em sua defesa: “Ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão designa a mais alta capacidade de imaginação afetiva – a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo”.

 

Dois séculos antes do romancista tcheco, Rousseau dizia que a compaixão – que ele chamava de pitié, piedade ou comiseração – era a capacidade de se colocar no lugar do outro, de se condoer dele, de compartilhar imaginariamente o sofrimento que qualquer ser vivo sentisse. Para Rousseau, está aí a humanidade. O homem não se define, como tantos filósofos quiseram, como ser racional. Ele se define por esse tipo de afeto. Não a razão, mas o coração distingue a humanidade (e por humanidade não estou pensando no gênero humano, em inglês humankind, mas no sentimento de humanidade, humanity). O antropólogo Lévi-Strauss ressaltará, em seu belo artigo Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem, que essa ética vai além do humano, pois se condói também do animal – de todo ser vivo, repito. E adverte ainda: um sentimento favorável apenas aos humanos teria alcance limitado. Porque, ao excluir quem não é “animal racional”, ele implicitamente há de excluir também os humanos ditos irracionais ou pouco racionais. Em suma, se você cindir a frio o homem do mundo animal, você prepara todos os recortes subsequentes, entre humanos de verdade e sub-humanos. Treblinka está ali, a apenas alguns passos de um recorte muito radical entre homem e animal.

 

Mas nosso ponto principal é negar que essa compaixão seja complacente, condescendente. Há, sim, uma piedade que se satisfaz dando esmolas, isto é, criando uma estrutura perversa na qual um se faz de benfeitor e outro de vítima. Disso, nada sai de emancipador. Nenhum dos dois quer se libertar – ou que o outro se liberte – de seus respectivos papéis. Mas a ideia de Rousseau, Lévi-Strauss e Kundera é de um sentimento pelo outro que vai muito além de se condoer. Otto Lara Resende tem a célebre frase sobre o mineiro que “só é solidário no câncer”; mas os homens não se compadecem apenas na doença, na dor; por que a compaixão não cobrirá também a alegria? O que está em jogo é, mais fundo que a semirracional solidariedade, um sentimento que estabeleça entre nós um vínculo forte.

 

Em suma, o laço social não é baseado apenas no interesse. É uma postura básica nossa em relação ao outro. Para Rousseau, não somos sociais, mas nos compadecemos do outro. Para Lévi-Strauss, a compaixão não tem fronteiras entre humanos nem entre nós e os animais. Para Kundera, não compartilhamos só a pena de quem sofre, mas também a alegria. É todo um roteiro, um itinerário que assim se desenha, para libertar o indivíduo de seu confinamento. (Relendo, vê que chamei dois textos de “belos”. São mesmo. Porque bela é a compaixão).

 

 

*Renato Janine Ribeiro é Ministro da Educação e professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).

www.renatojanine.pro.br

Adaptado do texto “A compaixão”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 109