O profano no campo do sagrado

As implicações filosóficas acerca do sagrado e do profano vão além das preocupações meramente acadêmicas, como também produzem seus efeitos na vida privada

Por Marcos H. Camargo* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Em Gênese, livro da Bíblia judaico-cristã, encontramos a lenda segundo a qual o homem teria sido criado pela divindade e habitado um paraíso até o dia em que toma do fruto da árvore do conhecimento e é expulso de sua condição edênica. Em resumo, o mito descreve justamente a saída do homem de sua condição meramente natural, para constituir a cultura, segundo seu próprio esforço de conhecer o mundo. Ao empreender esse êxodo do mundo natu- ral rumo à cultura, o homem evade-se do paraíso da inconsciência e desenvolve a linguagem e a razão, como modelos de pensamento capazes de transmitir conhe- cimentos aos membros do grupo social, deixando de depender exclusivamente do arbítrio das intempéries do tempo e do meio ambiente (independendo-se dos deuses).

 

O desenvolvimento de ferramentas de trabalho vão paulatinamente oferecendo mais controle ao homem sobre os elementos da natureza, de modo que o registro de imagens, construção de calendários, estabelecimentos de tabus, monumentos, totens, dentre outros artifícios, vão tornando cada vez mais complexa a nascente cultura, desenvolvendo o mundo profano, enquanto afastam a humanidade de sua origem obscura na noite do sagrado. Organizam-se as linguagens, emergem os lampejos da consciência, se estabelecem os costumes e a divisão de trabalho, na medida em que o homem abandona o nomadismo no início da agricultura. Desse modo, a humanidade cria seu próprio espaço em que se diferencia do lugar de onde viera – a natureza. Ao escapar de sua origem, o homem se torna profano, cuja etimologia (lat.: pro = avante, para fora; fanus = templo, lugar sagrado) indica “aquilo/aquele que está fora do lugar sagrado” – para longe dos laços que nos vinculavam à “inconsciência” natural.

 

Em sua trajetória, o homem não se esqueceu de sua origem no fundo das florestas e das savanas africanas. Devido àquele eco ancestral que sempre ressoa pelos labirintos de nossa própria carne, era preciso encontrar um meio, um lugar e um tempo para que o homem dedicasse um pouco de sua vida a recepcionar em sua sensibilidade os misteriosos conhecimentos provenientes de sua encarnação. Ouvir o instinto, dar vazão à intuição, assombrar-se com percepções insensatas, perder-se em imaginações fantasmagóricas e deixar-se invadir (entheos) por ideias que habitam um plano para além do cotidiano de suas vidas profanas. Este é o mundo das mais intensas sensações (aisthesis), e a técnica (technè) para lidar com esse plano da existência denomina-se aisthetikòs (Estética).

 

Mesmo com o desenvolvimento da cultura, o homem jamais deixou de ser um produto da natureza

 

Aqui, a Estética e o sagrado encontram seu espaço comum, onde se constitui a religião. Porém, é preciso recompor essa relação que, de fato, é bem diversa daquela que a Teologia ensinou à Filosofia. Muitos entendem, como Friedrich Nietzsche (1844-1900), que a Estética não deve ser confundida com uma Filosofia da Arte, mas considerada um conhecimento perceptivo-experimental. Por outro lado, nem sempre o sagrado está vinculado à religião, mesmo quando é causa de muito terror e devastação.

 

A atração da origem sempre é demasiado forte para ser simplesmente deixada de lado em favor do cotidiano, do trabalho e das relações sociais. Invasiva, sua presença inconstante convulsiona o caos da criação, motivo pelo qual precisa ser contida num lugar especial (templo), acessada tão somente num tempo específico e cultivada a partir de regras estritas (tabus e dogmas), de vez que seu extravasamento, seu transbordamento ilícito e irracional em meio à comunidade traz o perigo de subverter a ordem lógica e profana da cultura. “O sagrado é o lugar do indiferenciado, onde o bem e o mal, o justo e o injusto, o bendito e o maldito se confundem, e do que, em sua evolução, a humanidade se emancipou, sem, no entanto, poder suprimir o fundo enigmático e obscuro de onde se originou. (…) Do sagrado, o homem tende a distanciar-se, como acontece com aquilo que se teme, e, ao mesmo tempo, é atraído para a origem da qual um dia se emancipou”.

 

“Sagrado” (lat.: sacrum) é uma palavra de raiz indo-europeia que significa ideias acerca de separação, distinção e até oposição ao tempo, lugar, eventos e coisas da ordem humana do mundo. O sagrado refere-se, portanto, ao mundo estético da sensibilidade insensata que os humanos entendem como alheio à razão e, por isso mesmo o temem, ao mesmo tempo em que são atraídos para ele, como quem se vê magnetizado pela origem de sua própria criação. Dessa forma, os elementos ditos sagrados, da maioria das religiões, têm por função precípua gerir as relações conflitantes que frequentemente ocorrem entre o plano estético da vida e o plano lógico da cultura.

 

Por seu turno, o logos, como entendiam os gregos, significa tanto a manifestação da ordem cósmica quanto o fundamento (arché) da cidade humana (polis) e a base da linguagem capaz de comunicar essas ordens – o discurso e a Lógica. Contudo, embora a Lógica seja o instrumento por excelência do relacionamento do homem com a ordem do Cosmos, ela encontra seu derradeiro limite na medida em que se aproxima do campo do ilógico: daquilo que guarda a origem da ordem – o Caos primordial.

 

O sagrado, sempre exuberante e prolixo, se manifesta em meio à confusão de todos os sinais, na entropia e no próprio caos; é a indistinção entre o bem e o mal, a confusão do justo com o injusto e a interpolação da verdade com a falsidade. Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.) já afirmava que “o princípio de tudo é o indefinido, o informe. Um ser da natureza, que possuísse qualidades definidas, ele pensa, não poderia ser o princípio das coisas. É preciso que o ser originário seja o indefinido: somente isso garante a continuidade do devir”. Como todas as coisas existentes no mundo vinculam-se de algum modo a essa arché, também o humano detém em si algum nexo com o sagrado, que se manifesta em nós por meio da irracionalidade das paixões, dos sentimentos pulsionais e da presença da insensatez.

 

O sagrado e o estético provêm da mesma origem obscura e confusa do começo dos tempos

 

O Cosmos é a parte do mundo em que vigoram a razão, as leis gerais, o logos e o sentido atribuído pelas linguagens. O Caos, por sua vez, é o plano da estética e do sagrado em que habitam a entropia dos sinais, a indistinção e a diferença absoluta. Porém, o Caos é a origem do Cosmos. E a tenebrosa visão que o homem obtém dessa arché gera uma inominável angústia, devido à presença do abismo entrópico do sagrado no âmago de nossa ipseidade (individualidade, subjetividade).

 

A experiência desse temor provoca em nós a necessidade de uma separação entre o Caos e o Cosmos. Surge daí a tarefa da religião, a necessidade dos rituais, dos totens, das relíquias, dos encantamentos e dos deuses, inventados pela cultura e investidos de poder para mediar as relações confusas e obscuras entre aqueles dois níveis da realidade. Um dos grandes pesquisadores do campo do sagrado entende que “para viver no mundo é preciso fundá-lo – e nenhum mundo pode nascer no ‘caos’ da homogeneidade e da relatividade do espaço…”. De modo que para dar conta dos limites entre esses níveis da realidade em que o homem habita, o papel principal da religião é separar (gerando a experiência do sagrado) o plano insensato e caótico da entropia fundadora do mundo, do plano lógico e ordenado da cultura humana, apartando o indistinguível do distinto; afastando o indefinível do definido; distanciando o estético do lógico e o vir-a-ser (devir) do ser.

 

Habitantes da esfera do sagrado, os deuses eram entendidos como forças misteriosas que atuavam caprichosamente além e fora da ordem cósmica natural e social. Por esse motivo, quando agem sobre o mundo dos homens, as forças do universo sagrado não distinguem dor nem alegria, não medem seus atos pela justiça humana nem sequer reconhecem a medida racional da harmonia, da proporção ou do equilíbrio.

 

“Cassandra, no Agamenon de Ésquilo, procede à exposição agônica de uma visão quando no estado de entheos, invadida por Apolo. Se as palavras dela são ‘sem perfume nem adorno’, isso não acontece porque a visão típica que ela expressa fala de um desastre futuro, mas porque a experiência sibilina do enthousiasmos é ela mesma uma forma de sofrimento, uma espécie de violação ou estupro espiritual”.

 

Seguir extasiado em meio à zona do sagrado, flutuando em sua dimensão entrópica ou entusiasmado por um deus, conduz o homem e sua sociedade ao completo aniquilamento. O homem não pode viver por longo tempo na ausência de códigos, de modo que para sua sobrevivência e seu desenvolvimento a humanidade evadiu-se da esfera do sagrado (origem primitiva), por meio do desenvolvimento e da aplicação da racionalidade, tanto no pensamento como nas instituições sociais. A razão é a maquinaria cognitiva que instaura a ordem e inventa o ser das coisas para estabelecer, por exemplo, que uma garrafa é uma garrafa e não outra coisa. Mas para o sagrado uma coisa é ela mesma e também outra e mais outra ainda. Para o homem, a Lógica é o método desta razão que institui o ser, cujo princípio de não contradição diz que uma coisa é uma coisa e não outra.

 

Para as crianças, as coisas podem ser uma e muitas outras ao mesmo tempo. Brincar de “comidinha” ou de “caminhãozinho” é trocar a coisa por um signo, sem qualquer distinção de nível de realidade. “O devir é inocente e somente o jogo do artista e da criança pode manifestar esta inocência: uma criança junta montinhos de areia à beira-mar, diz Nietzsche, constrói castelos sabendo, e mesmo esperando, que o mar os derrube”.

 

As crianças que ainda não chegaram à idade da razão lidam ingenuamente com o plano do sagrado, porque não convivem segundo o princípio da não contradição

 

“E, do mesmo modo que a criança ou o artista brincam, brinca também o fogo eternamente vivo, construindo e destruindo, sem culpa – e esse jogo o éon joga consigo mesmo. Transformando- -se em água e terra, ele constrói – como uma criança que faz castelos de areia na praia – e destrói; de tempos em tempos, recomeça o jogo do início. (…) Apenas o homem estético vê o mundo dessa maneira. Pois o homem estético descobriu, no artista e na configuração da obra de arte, que a luta da multiplicidade pode, sim, trazer em si lei e direito”.

 

Os poetas também não lidam bem com o princípio lógico da não contradição. Para o poeta, a lua é satélite, mas também uma interlocutora romântica. Ao se fazer uma extrapolação do sentido lógico (uma oscilação do significado), se entende o papel da poesia. Já a criança sairá do sagrado na medida em que for sequestrada pela racionalidade da maturidade. O trabalho do artista, portanto, é bem mais perigoso, porque toda vez que ele entra no mistério do sagrado arrisca dele jamais sair, como o louco, exilado nos vales obscuros e confusos do sagrado e do estético.

 

A importância da razão resulta da permanência de suas regras, com o máximo de tempo possível sem transformação alguma – para a garantia das identidades. A razão é útil, porque ao definir os significados das palavras, colocar finalidade nas coisas e garantir que elas sejam o que são, pode fazer que os membros de um grupo social se entendam sobre variados aspectos da vida comunitária. É uma convenção que permite reduzir a angústia do imprevisível.

 

No terreno do sagrado, a dimensão da insensatez que apavora o homem é sempre o “mas, também…”. Quando uma coisa é ela mesma, “mas, também” é outra coisa, o sentido e o significado do mundo se perdem para a noite indistinta do sagrado, onde convive em tormentosa confusão toda a indiferenciação dos códigos. Por isso, os primeiros elementos, com o auxílio dos quais o homem começa a se separar do âmbito do sagrado, são os ritos, os totens e os tabus, que dão um sentido mais permanente àquilo que é permitido ou proibido, do que seria possível fazer ou não fazer, de modo a conter a dimensão estética do sagrado fora do contexto da tribo. No entanto, essas regras totêmicas não funcionavam para todas as comunidades humanas, não sendo possível traduzi-las de tribo para tribo, numa dimensão mais ampla.

 

 

O encontro com o sagrado

Édipo precipitou-se na confusão dos códigos: sua esposa era a rainha, “mas, também” a sua mãe; o rei era o inimigo que ele matara, “mas, também” o seu pai. Édipo não era só o filho, “mas,  também” o marido de sua mãe – a confusão dos códigos. É por isso que Sigmund Freud (1856- 1939) nomeou como “complexo de Édipo” o fenômeno do amadurecimento psíquico, em vista da transformação dos sentimentos do filho, cuja passagem à fase adulta demanda uma superação e  separação do sagrado que habita a infância do homem – pois a mãe não pode mais ser também sua mulher! Aqui se estabelece o tabu, o interdito que define a mãe como a mulher de seu pai.

 

Além de nossas raízes greco-romanas, outra fonte do caráter ocidental é o judaico-cristianismo, que se relaciona de modo semelhante com o sagrado. A lenda bíblica de Jó é um exemplo dessa relação absurda entre o homem e o sagrado. Jó se diz um homem justo, enquanto seus filhos e sua mulher o abandonam, seu gado adoece, seus amigos o evitam. Jó, então, invoca a justiça de Javé, questionando os fatos que lhe acometeram. Porém, não se pode tomar os deuses por seres razoáveis, porque eles se encontram muito além das regras racionais, das leis de recompensa pelo mérito – os deuses estão fora do cenário do razoável.

 

Segundo a narrativa do livro judeu, Javé responde a Jó de modo surpreendente: “Onde tu estavas quando Eu colocava as bases da Terra? Diga-me, se tens tanta ciência” (Jó, 38:4). Ao salientar o fato de que Jó não estava presente quando colocou a Terra sobre seus pilares, nem quando encheu o céu de estrelas e as águas de animais marinhos, Javé responde que aquelas indagações de Jó não estavam à altura de sua divindade. Ou seja, pela completa falta de proporção entre as questões que afligem os homens e a incomensurável atividade empreendida por Javé, entende-se que não há respostas a se buscar na entropia do sagrado, que saciem a sede do homem por sentido, significado e causalidade.

 

O principal objetivo da razão é sustentar um sistema de regras redundantes com o qual nós nos entendemos, mas de onde nada provém de criativo

 

Guardar a esperança de que os deuses respondam com atos de justiça é se esquecer de que eles não habitam o plano da razão humana, mas o indiferenciado campo do sagrado. É por isso que a cultura greco-romana entendeu que a sorte foge aos prudentes e está sempre mais ao lado dos insensatos e audazes, como lembra Virgílio: “Audaces fortuna juvat!“

 

Onde existe ordem, de fato, onde existe lei não existem deuses, mas mundo. As leis garantem a legibilidade do mundo, exatamente porque abole o mistério que se encontra além de qualquer possível leitura. Quando a imagem de Deus se torna legível, Deus já abandonou a cena, que imediatamente é ocupada por aqueles que, em nome de Deus, praticam a história como constituída de paz e guerra, como política e cultura, como moral e comportamento, presos a um tempo que não se descola de si mesmo e é desabitado por Deus”.

 

Da mesma forma como entre os judeus, o deus cristão é onipotente, ou seja, pode fazer todas as coisas e seu contrário também. Porém, com relação ao Cristianismo, o terreno do sagrado sofreu uma progressiva desabitação, um abandono sistemático. Porque se o sagrado é a confusão dos opostos; se é o bem e o mal, o justo e o injusto, então, o Cristianismo cindiu o universo do sagrado em duas partes inconciliáveis. Aos céus coube representar tão somente o bem, a justiça, a misericórdia; ao inferno coube todo o mal, toda a injustiça e iniquidade.

 

A separação entre o bem e o mal, realizada pelo Cristianismo, é, de fato, um desvio em direção ao mundo da racionalidade. Dizer  que o bem não é o mal, que o justo não é o injusto e que essas condições se diferem qualitativamente, significa evadir-se do âmbito do sagrado, que sempre será a indistinção dos sinais, ausência de valores e hierarquias, para adentrar o reino humano da razão e submeter-se a seu método, que é a Lógica. Assim, quando a Teologia cristã perpetrou a conciliação entre a fé e a razão, abandonou a dimensão do sagrado. “Não é casual que a cultura ocidental tenha elegido o diabo como metáfora do mal, o diabo (em grego: diabállein) é separação, parte amputada e removida de todos nós; e, pelo efeito dessa remoção, como diz Freud, está sempre a ponto de irromper: ‘O diabo não é mais do que a personificação da vida pulsional inconsciente removida’”.

 

Portanto, ao purificar o espaço do sagrado com a expulsão do diabo rumo às regiões infernais da Terra, o Cristianismo não apenas dessacralizou a religião, mas também tornou o cristão em um esquizofrênico, dividido entre a exigência de ser completamente bom e atormentado até com a menor manifestação de suas pulsões instintivas.

 

O Cristianismo também traz outra novidade que recalca ainda mais a dimensão do sagrado e reafirma a tradição cris- tã nos termos da racionalidade ocidental. Trata-se da encarnação divina. A religião cristã é a única em que o deus se torna homem. Por isso mesmo, permite inversamente que o homem cristão se torne também ele próprio um deus. Jesus disse: “Vós sois deuses.” (João, 10:34), “aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas…” (João, 14:12).

 

Se Deus se torna homem, os céus baixam à Terra e a transcendência se banaliza. Portanto, quando o Cristianismo assevera que todo cristão é filho de Deus (na época em que tal privilégio era restrito a heróis, soberanos e personagens excepcionais), traz para o mundo do homem ocidental a crença de que o deus cristão conhece cada alma de seus filhos, criando intimidade e confusão entre o sagrado e o profano.

 

Na tradição cristã o homem é tratado como o vértice da criação, semelhante à imagem do mundo divino; por crerem em sua imortalidade, os cristãos são desmedidos em sua insatisfação com a vida, alimentando sempre a esperança em uma vida melhor, em um mundo melhor. Instilar a fé no cristão acerca da uma vida imortal foi o que Nietzsche chamou de o golpe de gênio do Cristianismo. E este foi um dos grandes motivos pelos quais os cristãos venceram a  luta contra a cultura greco-romana.

 

A morte de Deus e a profanidade

Cento e cinquenta anos atrás, Nietzsche anunciava a morte do deus cristão. Mas se ele havia morrido era porque antes estivera vivo! Mas quando Deus esteve vivo? Deus era vivo enquanto “criava mundos”, isto é, no medievo, quando a Arte era sagrada, a Literatura era inferno, purgatório e paraíso, Deus estava vivo, porque fazia sentido naquela época, ao ponto em que se retirarmos a  palavra “deus” da era medieval, dificilmente se pode explicar aquele período histórico. Entretanto, hoje, se retiramos a palavra “deus” do mundo contemporâneo, ainda continuamos compreendendo sua dinâmica histórica. Desse modo, se o mundo de hoje não acontece mais da maneira como Deus deseja, se Deus não cria mais mundos, ele está morto.

 

O sagrado não tem significado lógico nem sentido, pois sua forma é estética

 

O otimismo cristão que se apoiava no dia escatológico do juízo final e da salvação eterna não alimenta mais uma promessa em que se possa crer. E quando o futuro deixa de ser qualquer coisa de cativante e desejável; quando o futuro não promete mais nada (sensação da qual os jovens da atualidade estão cientes), começam a faltar os objetivos, falta a resposta aos “por quês”; todos os valores desmoronam e tudo perde sentido.

 

Contudo, a desvalorização dos valores que experimentamos na atualidade não é um mal em si. Toda a história humana caminha por meio da desvalorização de certos valores. A sociedade francesa, por exemplo, era governada por valores nobiliárquicos, quando sobreveio a revolução, que a reorganizou segundo valores de justiça, cidadania e igualdade, ao menos formalmente. Neste caso, foram trocados os valores. Por outro lado, o niilismo ocorre quando se perdem os valores outrora vigentes e não se coloca nada no lugar. Em nosso caso contemporâneo, temos dificuldades de atribuir outros valores em substituição aos que estão colapsando, porque não soubemos ainda como  restaurar a confiança no futuro, que muitos desconfiam não existir.

 

Continua necessária a comunicação coletiva com o sagrado. Contudo, o sagrado não fala a língua dos homens, mas profere sua gnose oracular em meio aos labirintos do inconsciente humano. O sagrado não se compreende, mas se sente e se prova. Por isso, a religião implica uma gestão da fronteira entre o sagrado e o profano. Porque a insensatez dentro de nós não cessa de emergir e se agita, porque se encontra no fundamento de nossa psiche.

 

Essa insensatez, que se apresenta como um vínculo com a esteticidade original do mundo, requer um relacionamento mediado por práticas que mantêm um pé no sagrado e outro na racionalidade  cotidiana. Por seu turno, a laicização – fenômeno de origem cristã, derivado da ideia do homem tornado deus –, quebrou o vínculo ancestral com nossa origem obscura e confusa. Desse modo, presa de sua própria insensatez e carente de um relacionamento com o sagrado, o homem contemporâneo tem de resolver sua religiosidade por conta própria.

 

Uma das principais causas do declínio do Cristianismo como instrumento de mediação entre o sagrado e o profano passa pela crítica à linguagem, típico tema do pensamento do século XX, que denuncia o uso abusivo do discurso de convencimento da religião. Palavras são veículos de ideias profanas, nada mais que isso. São signos da cultura que não conseguem refletir nem dizer o que está além da ideia humana. Palavras não podem representar as  idiossincrasias do plano estético onde habita o sagrado; as palavras não sabem dizer a experiência da insensatez oracular, não têm como  descrever o processo caótico da criação, não falam nada daquilo que está além da significação estabelecida pela cultura. Palavras são demasiadamente humanas!

 

Artistas, crianças e loucos habitam o terreno do sagrado e do estético – vivem sem conflito nem culpa em meio à confusão dos códigos

 

Portanto, não é possível encontrar em narrativas e nos discursos da linguagem algum elo com o sagrado. A linguagem foi desenvolvida pela cultura como um método de distinguir uma coisa de outra coisa, assim como também para compreender coisas num mesmo gênero, de modo a lhe atribuir sentido geral por meio de palavras substantivas. Mas como compreender o sagrado, se o sagrado é uma coisa, mas também outra e seu inverso?

 

O sagrado está fora da cultura, porque é incompreensível. A cognição que provém do sagrado é ininteligível – não pode ser substantivada, não pode ser nomeada, não pode ser dita, falada ou significada. Deus, portanto, não habita nos livros sobre o sagrado,  pois estes não são mais que visões antropológicas, coleção de ordenamentos, ritos e procedimentos cermoniais estabelecidos pelo próprio homem para conter sua insensatez longe da cidade (polis) humana.

 

Então, como lidar com o sagrado diante da falência das velhas religiões? Quem sabe possamos considerar alguns substitutos contemporâneos para suprir a ausência das antigas formas de contato com o sagrado: podemos nos envolver em atividades relacionadas à fruição da arte, à prática do esporte, ao prazer da aventura, às terapias da meditação, ao tempo do lazer, do entretenimento, do sexo e das drogas.

 

“Se é verdade o que disse Agostinho de Hipona – ‘não se entra na verdade senão através do amor (non intratur in veritatem nisi per caritatem)’ –, somente a Estética, que conhece os afetos e não se descuida de sua cognição, pode restaurar a importância do evento religioso que, diferentemente do filósofo ou do cientista, sabe colher a constituição originária da consciência, a qual, como reconhece Aristóteles, aprendeu a inquirir a partir da dor e do estupor, ou seja, por meio do regime dos afetos, e não daquelas ‘ideias claras e distintas’”.

 

 

*Marcos H. Camargo é mestre em Comunicação e Linguagens pela UTP (2003), doutor em Artes Visuais pela Unicamp (2010). Pós-doutor pela ECO-UFRJ. Professor do campus Curitiba II (UNESPAR), onde leciona Filosofia, Estética e Semiótica.

Adaptado do texto “O sagrado e o profano”

Fotos: Revista Filosofia Ciência e Vida Ed. 113