O pensamento Ludwig Wittgenstein

Pesquisador e professor Maurício Silva Alves traduz as ideias e propostas do filósofo austríaco, naturalizado britânico, que foi um dos principais nomes da virada linguística na filosofia do século 20

Por Fábio Antonio Gabriel e Edgar Melo | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O entrevistado desta edição, Maurício Silva Alves, é mestre em Filosofia pela PUC-PR, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, atuando nas disciplinas Estudos Filosóficos e Tópicos Especiais de Lógica. Nesta entrevista ele nos apresenta um pouco do pensador contemporâneo Wittgestein e de sua relevância no cenário da filosofia, abordando as duas fases por que transitou enquanto pensador. Vivemos uma crise ética? A essa pergunta o entrevistado responde que é necessário retomar a palavra ética no sentido cotidiano da nossa existência, deixando de lado seu aspecto metafísico. Maurício conversa conosco ainda sobre Deleuze, que entende a filosofia como criação conceitual. Nesta entrevista poderemos aprofundar um pouco mais nosso conhecimento sobre Wittgestein e perceber as indicações do entrevistado com relação a um possível estudo mais aprofundado sobre esse filósofo contemporâneo.

 

FILOSOFIA – Maurício, você é um pesquisador de Wittgenstein, filósofo contemporâneo, poderia nos falar da relevância desse filósofo no cenário da filosofia?

Maurício Silva Alves • Nos últimos anos temos visto o florescer de uma verdadeira indústria de publicações das obras de Ludwig Wittgenstein. Muitos já emolduraram a sua filosofia com uma aura mítica, outros ainda o veem como o destruidor da verdadeira filosofia. É inegável que, sendo uma figura extraordinária, Wittgenstein, além de ser um filósofo desconcertante por sua vida e obra, é um teórico singular que testemunha a experiência da filosofia do século XX que oscila entre a idealização de uma era de segurança e liberdade e o fascínio pelo que se conhece por decadência, tão própria do século passado, naquilo que podemos entender por oposição radical entre a tradição e o moderno e que perdura neste século.

 

FILOSOFIA – Qual a principal contribuição de Wittgenstein para o pensamento filosófico?

Maurício Silva Alves • Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena, Áustria (1889-1951), viveu na Inglaterra por um longo período e seu percurso filosófico pode ser dividido em duas fases: a da análise lógica influenciada pelo pensamento de Russell e configurada pelo Tractatus logico-philosophicus, e na segunda fase ele dá um giro de cento e oitenta graus, afastando-se da afirmação de que a verdade do mundo real está associada à verdade da proposição, e passa a afirmar que a linguagem não é o objeto e sim a atividade que determina, de certo modo, a realidade, esta fase é configurada pela obra Investigações Filosóficas.

 

FILOSOFIA – Em se tratando de períodos ou fases do pensamento de Wittgenstein, que períodos seriam esses e qual é a especificidade de cada um desses períodos?

Maurício Silva Alves • Como mencionei anteriormente, podemos caracterizar o pensamento de Wittgenstein em duas fases: a fase caracterizada pelo Tractatus logico-philosophicus, em que a linguagem é entendida como o espelho do mundo, e a segunda fase, cuja base centra-se na obra Investigações Filosóficas, em que a linguagem deixa de ser entendida como o espelho, este apenas reproduz os objetos que estão no mundo, e ganha conotação de atividade que adquire força, não mais na análise lógica, mas no uso social, no cotidiano.

 

Foto: Divulgação

FILOSOFIA – Deleuze é outro filósofo estudado por você. Na compreensão de Deleuze, filosofar é produzir conceitos. Como entender essa máxima de Deleuze?

Maurício Silva Alves • O meu estudo sobre Deleuze consiste em uma interlocução entre o que se convencionou em sua visão da filosofia como produção de conceitos e os jogos de linguagem de Wittgenstein que na obra Investigações Filosóficas propõe: “representar a linguagem significa representar-se uma forma de vida”. Mais adiante, “O termo jogo de linguagem deve aqui salientar que o falar da linguagem é parte de uma atividade ou forma de vida” (parágrafos§19 e §23)”, esses parágrafos me permitem afirmar que o produzir conceitos em Deleuze nada mais é do que uma atividade própria de quem domina a linguagem, e se dominamos a linguagem é porque ela está embutida em nossa vida, e a própria vida deve retornar.

 

 

FILOSOFIA – A operação “Carne Fraca”, desencadeada pela Polícia Federal, revelou um lamentável sistema de corrupção no setor de fiscalização, um setor que deveria garantir a qualidade da carne produzida no Brasil. Filosoficamente, como podemos entender essa situação? 

Maurício Silva Alves • Pensar filosoficamente essa operação, primeiramente posso afirmar que vivemos a era da chamada pós-verdade, isto é, somos induzidos a ter uma atitude de indiferença diante das verdades dos fatos. Na era da internet e das redes sociais, as notícias de todas as categorias se disseminam com enorme velocidade, com isso, também temos as chamadas mentiras on-line que são compartilhadas enormemente pelos cidadãos que confiam em qualquer órgão de imprensa e assumem uma aparência de verdade. A pós-verdade é uma visão que relativiza, que espetaculariza, que omite a chamada responsabilidade, por dedução lógica. A pós-verdade é algo que faz que o cidadão confie cegamente em um discurso sem uma análise crítica que embase essa “verdade”. A pretensa busca de imparcialidade na veiculação de notícias é a marca da pós-verdade, isto porque se cria um falso equilíbrio em seara ávida de notícias, sejam elas verdadeiras, ou inventadas, em que as emoções se evidenciam mais importantes do que os dados, as imagens são importantes à custa daquilo que se convencionou por verdade.

Sobre a Operação Carne Fraca, é oportuno mencionar que cabe, sim, à Polícia Federal investigar, isso é fundamental, e me parece que ela cumpre esse dever, investiga e pune quem subornou, ou mesmo, se permitiu subornar, mas, vivemos a era da pós-verdade, em que o Estado brasileiro é espetacularizado, em razão do desequilíbrio de funções. Não se sabe mais quem julga, quem pune e assim sucessivamente. Só precisamos despertar para a espetacularização dessa divulgação de dados da operação, pois há algo que está obscuro, quem realmente são os responsáveis pela operação. Por que está sendo divulgada somente agora? Quem eram os políticos envolvidos na operação? Será que realmente estão sendo punidos nos rigores da lei ou é apenas espetacularização? Por isso iniciei falando que vivemos na era da pós-verdade!

 

FILOSOFIA – Como estudioso de Wittgenstein e como professor de filosofia, de que modo você avalia o atual cenário em que vivemos com relação às questões religiosas? As questões transcendentais realmente perderam valor?

Maurício Silva Alves • Na contemporaneidade, parece muito mais coerente apresentarmos uma postura religiosa, que consiste em buscar respostas às perguntas sobre a vida e seu significado. Sobre isso, posso mencionar o parágrafo 6.52 do Tractatus de Wittgenstein: “Sentimos que mesmo quando todas as possíveis questões da ciência fossem resolvidas os problemas da vida ficariam ainda por tocar. É claro que não haveria mais questões; e esta é a resposta”. As questões transcendentais, neste sentido, não perderam o seu valor, apenas houve um redirecionamento do discurso, a saber: qual o papel de Deus/deuses para esta nova vivência religiosa que se configura na atualidade? De certo, há um choque quando queremos abarcar questões com o quesito deus institucionalizado, mas há um equilíbrio quando pensamos filosoficamente, no meu caso, como professor de Filosofia pelo viés wittgensteiniano, em que a noção de Deus destitui-se de aspectos transcendentais e personalísticos, como apresentado ao longo da história pelo viés institucional.

Sendo assim, a concepção de Deus na atualidade não está restrita a uma manifestação imanente, ao passo que não há uma relação que corresponda a de um Ser Superior, tipificado pelas características de onipotência, onipresença e onisciência. Com isso, a discussão deste conceito imanente como disposto em Wittgenstein e que pode ser relacionada com a nossa realidade do século XXI é a de que Deus estaria delimitado nas coisas do mundo, isto é, Deus estaria presente em todas as coisas.

 

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FILOSOFIA – Para quem deseja conhecer um pouco mais sobre Wittgenstein, quais caminhos você indicaria? Quais livros seriam interessantes para leitura a ser indicada a um iniciante?

Maurício Silva Alves • Livros como “A forma do Silêncio e a Forma da Palavra” do professor Bortolo Valle em que se analisam detalhadamente as razões que motivaram a interpretação dualista, afirmando que o próprio Wittgenstein chegou a acenar, no Prólogo das Investigações, à mudança radical entre “minha velha e minha nova maneira de pensar”. E outra sugestão é o livro: “O racional e o místico no Tractatus de Wittgenstein” em que o autor, Professor Urbano Zilles, demonstra que a gestação da obra se confunde com a vida de Wittgenstein e que não é possível acessar o místico pelo viés da lógica. Para o professor, Wittgenstein eximiamente conseguiu fundamentar que o místico mostra, e isto se dá na ação. “Sentimos que, mesmo que todas as possíveis questões científicas fossem respondidas, nossos problemas vitais não teriam sido tocados. Sem dúvida, não cabe mais pergunta alguma, e esta é precisamente a resposta” Tractatus (6.52) e “observa-se a solução dos problemas da vida no desaparecimento desses problemas” Tractatus (6.521).

 

FILOSOFIA – Por fim, poderia comentar para nós, uma máxima de Wittgenstein: “daquilo que não se pode falar, se deve calar”. Como está situada essa afirmação na obra de Wittgenstein?

Maurício Silva Alves • Na contemporaneidade, lemos, falamos ou ouvimos coisas consideradas de alta complexidade para o entendimento humano, porém, nem sempre aquilo que é de difícil compreensão, manifesta com propriedade ou constitui determinada coisa. A famosa proposição de número 7 do Tractatus “O que se pode em geral dizer, pode-se dizer claramente; e sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar” denota a audácia intelectual de Wittgenstein, pois ele chega a dizer que essa frase sintetiza a sua obra. Na verdade Wittgenstein através dessa proposição nos convida ao silêncio depois de estabelecer uma densa compreensão daquilo que é a linguagem enquanto estrutura isomórfica do mundo. Nesse sentido, o caminho mais seguro para se alcançar o silêncio, ou mesmo a dimensão mística, é a diferenciação entre dizer e mostrar. Partindo do seu escopo, a linguagem oferece a ponte da lógica à ética. A primeira como uma espécie de essência de tudo que se encontra no mundo; “daquilo que se pode em geral dizer”, e da ética como condição essencial; “se deve calar”, isto é, que se mostra no silêncio.

 

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Adaptado do texto “O caleidoscópio de Ludwig Wittgenstein”

*Fábio Antonio Gabriel é Doutorando em Educação pela UEPG, bolsista pela CAPES, autor de “Filosofia e Educação: um diálogo necessário” (Editora Multifoco) www.fabioantoniogabriel.com