O pensamento de Ortega y Gasset

Quando olhamos o pensamento orteguiano como um todo, encontramos uma trajetória de reflexão singular, inovadora e fiel ao próprio autor e sobre as mudanças do mundo

Por José Mauricio de Carvalho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Como é difícil ao homem de hoje tratar a vida como realidade em mudança acelerada, realidade onde novos problemas brotam com enorme rapidez do viver mesmo. Daí a insuficiência das crenças e verdades de nossos avós, que foram boas para eles, mas que hoje já não dizem muito. E temos de enfrentar esses novos problemas, que são parte da nossa circunstância na linguagem orteguiana.

 

Com o filósofo pode-se aprender que viver é um risco de não levar adiante o que se sonha e se projeta. Nesse sentido, a vida para Ortega comentada no livro mencionado anteriormente é sempre perigosa no sentido que Guimarães Rosa consagrou em Grande Sertão: Veredas. No clássico de nossa literatura, que está entre as mais importantes peças literárias do país, encontramos o sertanejo que jagunço na juventude se fez fazendeiro no final da vida. E na maturidade, ao recordar de suas andanças de juventude reencontra seus fantasmas. Publicado em 1956, um ano após a morte de Ortega y Gasset, o livro de Guimarães Rosa entra pelos caminhos e descaminhos da alma humana. O foco da narração é a vida de Riobaldo agora fazendeiro, que recorda de sua história de vida e dos tempos de juventude e jagunço. Na lembrança da sua juventude Riobaldo reencontra seus medos, suas dúvidas, e especialmente, suas crenças e seu amor por Diadorim, um amor vivido em conflito. A viagem ao passado nasce do relato feito a um interlocutor cuja presença pode ser deduzida dos diálogos com Riobaldo. Viver por uma crença é afirmação orteguiana autêntica, ele diz que é a crença que nos move.

 

Grande Sertão: Veredas é um livro que, como deseja Ortega y Gasset, mergulha no universo humano e assim o entenderemos se soubermos deixar os fatos da superfície, a vida de jagunço de Riobaldo, suas lutas contra Hermógenes, o assassino do chefe do bando que ele substituiu. Para além das perseguições a Hermógenes e seu bando, que alimenta a trama narrada, há a profundidade literária de Guimarães Rosa expressa na frase (2001, p. 26): viver é muito perigoso. É perigoso, não porque o perigo apareça aqui ou ali no encontro com uma onça ou uma cascavel, mas o viver mesmo é perigoso. É do mais fundo da vida que vem o perigo, pois é aí que está aquilo que nos faz viver, o que nos mostra os riscos da vida, onde moram as dúvidas, os sofrimentos íntimos, os desafios, as angústias, todos os riscos e o maior de todos que é o perder-se de si mesmo. Essa intuição poética e literária de Guimarães Rosa foi o tema principal da primeira fase de Ortega y Gasset.

 

E como, na obra de Ortega, o viver em risco é apresentado ao leitor? Como necessidade de vencer a circunstância sob pena de ser tragado por ela. E há muitas outras considerações esclarecedoras sobre o que é a vida como está no terceiro capítulo da obra: vencer a circunstância é necessário quando ela impede de ser a verdade que somos; a vida real é a que temos entre as muitas possíveis por nossas escolhas. Diz ainda o filósofo que a vida deve ser conduzida de modo constante e forte, mas sem afobamento além da legítima urgência de tocar o projeto vital. E é então, já mergulhados na ontologia orteguiana, que entendemos vida não como o funcionamento do corpo, mas como o que fazer na circunstância. É então que entendemos o sentido da vida ser experimentada na primeira pessoa, como realidade fundamental, não porque ela seja o que há de mais importante no universo, mas porque é a base a partir da qual tudo o mais pode ser pensado, todos os dramas e alegrias ganham sentido, todos os amores podem ser vividos.

 

Confira o artigo na íntegra na revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 129. Garanta a sua aqui!

Adaptado do texto “Ortega y Gasset”

*José Mauricio de Carvalho é Psicólogo, Pedagogo e Filósofo, com especialização em Filosofia, Teologia e Filosofia Clínica, Mestrado e Doutorado (1990) em Filosofia, fez estágios de pós-doutoramento nas Universidades Federal do Rio de Janeiro (2002) e Nova de Lisboa (1994). Aposentou-se como Professor Titular de Filosofia Contemporânea do Departamento de Filosofia da UFSJ, é atualmente Professor do Instituto Presidente Tancredo Neves – IPTAN.  Publicou trinta livros e capítulos em outros 15.